jan/2024

“1991” mostra o Nirvana e a cena alternativa prestes a decolar

Por André Barcinski

“1991” mostra o Nirvana e a cena alternativa prestes a decolar

Por André Barcinski

Ainda sobre a autobiografia de Thurston Moore: uma das passagens mais bonitas do livro narra a turnê europeia que o Sonic Youth fez com o Nirvana em 1991. Foi uma excursão curta, de apenas dez shows em cinco países – Irlanda, Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Holanda – mas que marcou Thurston profundamente.

Àquela época, o Sonic Youth tinha dez anos de estrada e já era um ícone do rock alternativo norte-americano. O Nirvana confiava tanto neles que assinou com a gravadora Geffen só porque o Sonic Youth havia feito o mesmo. No livro, Thurston enche a bola do Nirvana e diz que os shows do trio eram absolutamente catárticos. Ele descreve assim o primeiro show da turnê, num clube minúsculo na Irlanda: “Em dez segundos, fiquei tão estupefato com o Nirvana como fiquei da primeira vez que os vi, dois anos antes, no Maxwell’s [um clube em Hoboken, New Jersey]. Na verdade, foi ainda mais chocante, porque Grohl havia elevado a banda a algo singular e poderoso, cantando harmonias com Kurt, fazendo de cada canção uma experiência matadora. O público, que não tinha a menor ideia de quem eram aqueles caras, foi imediatamente encantado pelo poder do Nirvana”.

Quando as duas bandas chegam ao imenso festival de Reading, na Inglaterra, ficam espantadas com o tamanho e animação da plateia. É um mar de gente batendo cabeça e fazendo gigantescas rodas de pogo. Thurston define aquele dia como o ápice de sua carreira, um momento de epifania em que ele e os companheiros de banda, depois de penarem por uma década espremidos em vans fedorentas e tocando em buracos para meia dúzia de pessoas, finalmente veem o rock alternativo triunfando: “Ver um público imenso daqueles dançando e gritando e tendo o dia mais divertido de suas vidas, não apenas quando nós estávamos no palco, mas com todas as bandas, foi algo espetacular. Os céus ingleses nos saudaram, grandes e azuis com seu calor de fim da tarde”.

Os integrantes do Sonic Youth eram amigos do documentarista Dave Markey e o haviam convidado para registrar a turnê, onde tocariam ao lado de bandas amigas como Dinosaur Jr., Gumball, Mudhoney e Babes in Toyland, e de ídolos como Iggy Pop e Ramones. O resultado foi “1991: The Year Punk Broke”, um documentário / filme de viagem que está na íntegra, e com legendas em português, no Youtube, e que traz versões ao vivo de todos os artistas citados acima – com exceção de Iggy – e entrevistas com as bandas e cenas de bastidores (é curioso ver Courtney Love nos bastidores da turnê e ler, no livro, Thurston Moore contando que foi nessa excursão que ela e Kurt se apaixonaram).

Eu não via “1991” há uns 30 anos e me emocionei muito revendo o filme. Não por sua qualidade, que é discutível – parece um registro amador, com câmeras tremidas, som ruim e entrevistas que não passam de brincadeiras entre amigos – mas por capturar uma fase do rock alternativo que eu tive a sorte de presenciar in loco. Quinze dias depois dessa turnê de Sonic Youth e Nirvana pela Europa, eu chegava aos Estados Unidos para fazer meu livro “Barulho”.

No fim de 1991, pouco antes do lançamento de “Nevermind”, o disco do Nirvana que levaria o som alternativo para o mainstream, havia um clima de euforia entre fãs de indie rock. Em julho daquele ano, havia sido lançado o Lollapalooza, o primeiro festival itinerante da cena do rock alternativo. A quantidade de grandes discos lançados em 1991 é impressionante: entre janeiro e fim de setembro, quando saiu “Nevermind”, foram lançados LPs marcantes de Screaming Trees (“Uncle Anesthesia”), Dinosaur Jr. (“Green Mind”), Butthole Surfers (“Piouhgd”), REM (“Out of Time”), Slint (“Spiderland”), Melvins (“Bullhead”), Ned’s Atomic Dustbin (“God Fodder”), Primus (“Sailing the Seas of Cheese”), Smashing Pumpkins (“Gish”), Babes in Toyland (“To Mother”), Meat Puppets (“Forbidden Places”), Mudhoney (“Every Good Boy Deserves Fudge”), Fugazi (“Steady Diet of Nothing”), Pearl Jam (“Ten”), Primal Scream (“Screamadelica”) e Pixies (“Trompe Le Monde”). Quando “Nevermind” saiu, em 24 de setembro, implodiu um dique que já estava transbordando.

É muito bonito ler Thurston Moore falando desse período, quando todos nós achávamos que o underground havia triunfado. Lembro chegar em São Francisco, primeira parada de uma viagem que durou quase dois meses, e ficar impressionado com a força da cena alternativa: lojas de discos lotadas, uma quantidade impressionante de shows, rádios universitárias bombando. Você abria os jornais de cada cidade e havia pelo menos uma dúzia de bandas para ver em qualquer noite.

Infelizmente, isso não durou muito. Segundo Thurston Moore, dois anos depois, quando o Nirvana lançou o álbum seguinte, “In Utero”, já estava claro que alguma coisa havia mudado para pior. Ele descreve a tristeza que sentiu ao ver seus amigos do Nirvana, agora com a adição do guitarrista Pat Smear, fazendo shows em arenas imensas com grades separando a banda da plateia. Ali, Thurston percebeu que o melhor havia ficado para trás. E no ano seguinte, quando recebe a notícia da morte de Kurt, ele ficou arrasado, mas não surpreso. Já esperava pelo pior.

Veja aqui “1991 – The Year Punk Broke”.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

Um comentário em "“1991” mostra o Nirvana e a cena alternativa prestes a decolar"

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, engraçado que o meu disco favorito do Nirvana é o In Utero, juntamente pelo clima de “fim de festa” e choque de realidade depois da estouro do Nevermind!!!!
    Mas entendo perfeitamente o que o Thurston Moore disse no último parágrafo, principalmente o susto da transformação de quem viu o Nirvana de antes e depois da fama…

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