{"id":5754,"date":"2024-11-11T06:00:00","date_gmt":"2024-11-11T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=5754"},"modified":"2024-11-05T11:06:47","modified_gmt":"2024-11-05T14:06:47","slug":"cem-anos-sem-joseph-conrad","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/cem-anos-sem-joseph-conrad\/","title":{"rendered":"Cem anos sem Joseph Conrad"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00f3zef Teodor Konrad Korzeniowski teve uma vida e tanto: nasceu em 1857 na Ucr\u00e2nia, em territ\u00f3rio que pertencia \u00e0 Pol\u00f4nia. Filho de um ativista pol\u00edtico, viveu em muitos pa\u00edses por for\u00e7a da persegui\u00e7\u00e3o ao pai e depois teve uma longa passagem trabalhando em navios e viajando por todo o mundo. Essas aventuras, Joseph Conrad levou para seus livros mais famosos, como \u201cO Cora\u00e7\u00e3o das Trevas\u201d, \u201cNostromo\u201d e \u201cLord Jim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2024, completam-se 100 anos da morte de Joseph Conrad, que morreu aos 66 anos na Inglaterra. Escrevi para a editora Nova Fronteira um pref\u00e1cio para uma nova edi\u00e7\u00e3o do maior cl\u00e1ssico do autor: \u201cO Cora\u00e7\u00e3o das Trevas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"625\" src=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Coracao-das-Trevas-1024x625.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5756\" style=\"width:701px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Coracao-das-Trevas-1024x625.jpg 1024w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Coracao-das-Trevas-600x366.jpg 600w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Coracao-das-Trevas-768x469.jpg 768w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Coracao-das-Trevas-500x305.jpg 500w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Coracao-das-Trevas.jpg 1260w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Imagino que muitas pessoas da minha gera\u00e7\u00e3o se interessaram em ler \u201cO Cora\u00e7\u00e3o das Trevas\u201d depois de ver \u201cApocalypse Now\u201d, o cl\u00e1ssico filme de guerra de Francis Ford Coppola inspirado no livro de Joseph Conrad. Foi meu caso. Li pela primeira vez adolescente, e lembro o impacto de tentar visualizar as imagens descritas nas p\u00e1ginas: o barco navegando lentamente por um majestoso rio africano ladeado por uma floresta impenetr\u00e1vel; a cortina de neblina que cai sobre o rio, impedindo a vis\u00e3o e dando ao cen\u00e1rio um aspecto fantasmag\u00f3rico; a chuva de flechas que parecem cuspidas da pr\u00f3pria mata; cabe\u00e7as decepadas usadas como ornamentos de cercas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Para um leitor de 16, 17 anos, \u201cO Cora\u00e7\u00e3o das Trevas\u201d \u00e9 um misto de hist\u00f3ria de aventura e f\u00e1bula de terror. O tom anticolonialista \u00e9 evidente, e as descri\u00e7\u00f5es das desumanidades perpetradas pelos brancos s\u00e3o aterrorizantes. O fato de o narrador, Charles Marlow, estar sentado com amigos, relembrando suas aventuras na selva, confere \u00e0 narrativa uma atmosfera l\u00fadica, como se estiv\u00e9ssemos em volta de uma fogueira, ouvindo uma antiga hist\u00f3ria da boca de um velho contador de lendas. Ler frases como \u201c\u00c0 noite, \u00e0s vezes, o rolar de tambores por tr\u00e1s da cortina de \u00e1rvores subia o rio e ficava parado, fraco, como que pairando no ar muito acima de n\u00f3s, at\u00e9 o primeiro romper da aurora\u201d e \u201c\u00c9ramos viajantes errantes numa terra pr\u00e9-hist\u00f3rica, numa terra que tinha o aspecto de um planeta desconhecido\u201d mexeu com minha cabe\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Relendo o livro depois de muitos anos, percebi elementos que me haviam escapado antes. Mais importante que a trama \u2013 um marinheiro enviado por uma empresa de explora\u00e7\u00e3o de marfim para resgatar, em um posto localizado nas profundezas da floresta, um certo Sr. Kurtz, funcion\u00e1rio exemplar e que, dizem, est\u00e1 doente \u2013 \u00e9 a jornada pessoal de Marlow. Durante toda a leitura, fiquei imaginando o que deveria estar passando pela cabe\u00e7a do narrador durante a longa travessia rumo \u00e0 escurid\u00e3o e ao desconhecido da floresta: \u201cO que estou fazendo aqui?\u201d O que estamos \u2013 n\u00f3s, os brancos \u2013 fazendo aqui? O que nos move a conquistar essas terras \u2018b\u00e1rbaras\u2019? Ser\u00e1 apenas o lucro prometido pelo marfim, ou existe um chamado maior, uma epifania que nos move a dominar outros homens e outras terras?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O curioso \u00e9 que, ao longo do texto, Joseph Conrad parece pontuar a narrativa com alguns coment\u00e1rios at\u00e9 ir\u00f4nicos, que contradizem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria contada por Marlow: \u201cAs hist\u00f3rias exageradas que contam os homens do mar t\u00eam uma simplicidade direta, cujo sentido cabe numa casca de noz.\u201d Ser\u00e1 mesmo? O que Marlow diz cabe numa casca de noz? Talvez a trama caiba, j\u00e1 que o enredo de \u201cO Cora\u00e7\u00e3o das Trevas\u201d n\u00e3o poderia ser mais simples (e \u00e9 evidente que Coppola, ao adapt\u00e1-lo em \u201cApocalypse Now\u201d, teve a preocupa\u00e7\u00e3o de \u201capimentar\u201d a trama com mais acontecimentos espetaculosos, incluindo o pr\u00f3prio destino de Kurtz), mas os questionamentos que a hist\u00f3ria faz s\u00e3o, de fato, imensos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Fiquei imaginando tamb\u00e9m o impacto que a leitura do livro deve ter causado em gera\u00e7\u00f5es anteriores \u00e0 minha, especificamente na gera\u00e7\u00e3o de Coppola, que era adolescente no fim dos anos 1950 e pegou toda aquela gera\u00e7\u00e3o beat de Kerouac, Burroughs e Ginsberg, que leu \u201cOn the Road\u201d e \u201cUivo\u201d, que lia Hesse, Salinger e Casta\u00f1eda, e para quem \u201cCora\u00e7\u00e3o nas Trevas\u201d, mesmo lan\u00e7ado muito antes, em 1899, deve ter soado incrivelmente atual nos anos 1960, com os Estados Unidos em sua marcha imperialista no Sudeste Asi\u00e1tico replicando o colonialismo europeu na \u00c1frica no s\u00e9culo 19, e a contracultura questionando tudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Outra imensa surpresa que tive ao reler o livro foi encontrar, no meio das mem\u00f3rias de Marlow, uma frase que deu t\u00edtulo a uma de minhas m\u00fasicas prediletas: \u201cVivemos, como sonhamos&#8230; s\u00f3s&#8230;\u201d, inspira\u00e7\u00e3o do grupo de p\u00f3s-punk brit\u00e2nico Gang of Four para a can\u00e7\u00e3o \u201cWe Live as We Dream, Alone\u201d. Corri para a letra da m\u00fasica e me deparei com versos como \u201cA terra de ningu\u00e9m envolve nossos desejos\u201d; \u201cN\u00e3o nascemos em isolamento \/ mas, \u00e0s vezes, \u00e9 o que parece\u201d. E a m\u00fasica ganhou, para mim, um significado ainda mais profundo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u00f3tima semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00f3zef Teodor Konrad Korzeniowski teve uma vida e tanto: nasceu em 1857 na Ucr\u00e2nia, em territ\u00f3rio que pertencia \u00e0 Pol\u00f4nia. Filho de um ativista pol\u00edtico, viveu em muitos pa\u00edses por for\u00e7a da persegui\u00e7\u00e3o ao pai e depois teve uma longa passagem trabalhando em navios e viajando por todo o mundo. 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