{"id":5708,"date":"2024-10-18T06:00:00","date_gmt":"2024-10-18T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=5708"},"modified":"2024-10-16T17:59:32","modified_gmt":"2024-10-16T20:59:32","slug":"a-substancia-genialmente-desagradavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/a-substancia-genialmente-desagradavel\/","title":{"rendered":"\u201cA Subst\u00e2ncia\u201d: genialmente desagrad\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 muito tempo um filme n\u00e3o me deixava t\u00e3o perturbado quanto \u201cA Subst\u00e2ncia\u201d. E digo isso com satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica marcante e inesquec\u00edvel, que ser\u00e1 falada por muito tempo e merece um lugar junto a obras de cineastas radicais como David Cronenberg e David Lynch.<\/p>\n\n\n\n<p>Dirigido pela francesa Coraline Fargeat, \u201cA Subst\u00e2ncia\u201d \u00e9 um item cada vez mais raro no cinema comercial: um filme com ideias. Voc\u00ea pode discordar delas ou ach\u00e1-las repulsivas ou exageradas, mas \u00e9 \u00f3bvio que estamos diante de uma cineasta com coisas a dizer e que n\u00e3o tem medo de diz\u00ea-las de forma extrema.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme conta a hist\u00f3ria de Elizabeth Sparkle (Demi Moore), uma guru fitness que comanda um programa de gin\u00e1stica na TV. No dia em que completa 50 anos, Elizabeth \u00e9 demitida pelo repulsivo diretor da emissora, Harvey (ser\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o a Harvey Weinstein?), vivido por Dennis Quaid. Harvey n\u00e3o mede palavras: Elizabeth est\u00e1 velha demais e n\u00e3o serve para o programa, que vai contratar uma mulher mais jovem para substitu\u00ed-la.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AAIUQJrpc2M?si=3OV3SUiZLL_XnLMX\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>Deprimida, Elizabeth sofre um acidente e acaba num hospital, onde um enfermeiro de visual bastante peculiar lhe mostra o an\u00fancio de \u201cA Subst\u00e2ncia\u201d, um tratamento que promete \u201cuma nova e melhor vers\u00e3o de voc\u00ea mesmo\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o em uma criatura mais jovem, mas o surgimento de outra Elizabeth, mais nova e linda, que passa a dividir o tempo com sua vers\u00e3o mais \u201cvelha\u201d. A cada sete dias, uma precisa repousar para a outra poder viver. Elizabeth decide experimentar, e o resultado \u00e9 o nascimento de Sue (Margaret Qualley). Claro que Sue rapidamente ganha o emprego de Elizabeth e passa a comandar seu pr\u00f3prio programa de aer\u00f3bica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Subst\u00e2ncia\u201d \u00e9 cheio de refer\u00eancias a hist\u00f3rias cl\u00e1ssicas de terror como \u201cO M\u00e9dico e o Monstro\u201d e \u201cFrankenstein\u201d, mas Coraline Fargeat, que criou a trama e escreveu o roteiro, transporta esses temas para o mundo atual e faz uma par\u00e1bola sobre o culto a celebridades, a obsess\u00e3o est\u00e9tica e o vazio existencial da ind\u00fastria do entretenimento. Fargeat parece estar dizendo que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre Victor Frankenstein criando seu monstro e mulheres e homens que deformam seus corpos com botox e silicones.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme vai crescendo em tens\u00e3o e suspense \u00e0 medida que Elizabeth e Sue passam a duelar. E o fato de as duas serem a mesma pessoa \u00e9 o que torna, a meu ver, esse filme t\u00e3o especial e o eleva a muito mais que um mero filme de medo. N\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia f\u00e1cil, muito pelo contr\u00e1rio: Fargeat vai aumentando a carga de bizarrices, sangue e viol\u00eancia, chegando a um n\u00edvel extremo de brutalidade no ter\u00e7o final. Mas essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 justific\u00e1vel: as personagens tamb\u00e9m chegam a seus extremos, e o cl\u00edmax \u00e9 uma sequ\u00eancia sa\u00edda diretamente de \u201cCarrie \u2013 A Estranha\u201d, de Brian De Palma.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias a ouros filmes s\u00e3o muitas: Fargeat usa a m\u00fasica que Bernard Herrmann comp\u00f4s para \u201cUm Corpo Que Cai\u201d, de Hitchcock. H\u00e1 men\u00e7\u00f5es a \u201cAlso Sprach Zarathustra\u201d, de Strauss, usada por Kubrick em \u201c2001\u201d, e cenas que emulam as famosas sequ\u00eancias do corredor sangrento em \u201cO Iluminado\u201d, tamb\u00e9m de Kubrick, e a cena final de \u201cFreaks\u201d, de Tod Browning. Mas \u201cA Subst\u00e2ncia\u201d n\u00e3o \u00e9 um mero filme referencial. \u00c9 uma obra \u00fanica e pessoal, que celebra o cinema cl\u00e1ssico ao mesmo tempo em que cria algo novo e contempor\u00e2neo. Sem d\u00favida, um dos filmes mais radicais e interessantes dos \u00faltimos tempos, e que mereceria ser discutido numa de nossas \u201cSess\u00f5es Cinemateca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo fim de semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo um filme n\u00e3o me deixava t\u00e3o perturbado quanto \u201cA Subst\u00e2ncia\u201d. E digo isso com satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica marcante e inesquec\u00edvel, que ser\u00e1 falada por muito tempo e merece um lugar junto a obras de cineastas radicais como David Cronenberg e David Lynch. 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