{"id":3781,"date":"2024-09-11T06:00:00","date_gmt":"2024-09-11T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=3781"},"modified":"2024-09-27T16:47:04","modified_gmt":"2024-09-27T19:47:04","slug":"o-adeus-de-paul-auster","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/o-adeus-de-paul-auster\/","title":{"rendered":"O adeus de Paul Auster"},"content":{"rendered":"\n<p>O escritor norte-americano Paul Auster morreu em abril de 2024, aos 77 anos, depois de uma carreira liter\u00e1ria brilhante que incluiu cerca de duas dezenas de romances, al\u00e9m de livros de poesias, mem\u00f3rias, n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o e roteiros para cinema.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo romance de Auster, \u201cBaumgartner\u201d, publicado um ano antes da morte do escritor, acaba de sair no Brasil e \u00e9 um epit\u00e1fio digno de um dos autores mais admirados dos \u00faltimos 45 anos. F\u00e3s da prosa peculiar de Auster v\u00e3o reconhecer v\u00e1rios elementos t\u00edpicos do estilo p\u00f3s-moderno do autor. Como escreveu Cad\u00e3o Volpato na \u201cFolha\u201d: \u201cAuster tinha um estilo que seus leitores conseguiam identificar com grande facilidade. A forma de seus livros era simples, direta, envolvente, e seus temas variavam dentro de um mesmo universo. Ele costumava falar da for\u00e7a do acaso, das fatalidades e das coincid\u00eancias; tamb\u00e9m do fracasso e da sombra de desastres iminentes; da vida de escritor, dos acontecimentos banais e extraordin\u00e1rios, da aus\u00eancia da figura paterna e de Nova York &#8211; especificamente do distrito do Brooklyn\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase tudo isso est\u00e1 em \u201cBaumgartner\u201d, hist\u00f3ria autorreferencial e com toques autobiogr\u00e1ficos em que Auster conta a vida de Seymour Baumgartner, um septuagen\u00e1rio escritor e professor de filosofia que lida com a tr\u00e1gica morte da esposa, Anna, ocorrida uma d\u00e9cada antes. Anna era uma tradutora brilhante \u2013 de obras de Fernando Pessoa, entre outros \u2013 e uma poetisa mais brilhante ainda, embora desconhecida, o que deprime Baumgartner, que sonha em v\u00ea-la receber os louros que ele julga que a esposa merece.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida de Baumgartner \u00e9 um t\u00e9dio: ele compra livros que n\u00e3o vai ler s\u00f3 para encontrar a entregadora, por quem se sente atra\u00eddo, enquanto sonha em se aposentar para n\u00e3o ter de cumprir as obriga\u00e7\u00f5es professorais na universidade em que leciona. A vida do personagem ecoa a do pr\u00f3prio Paul Auster: um pai severo e que marcou a vida do filho, uma temporada morando em Paris, parentes de sobrenome Auster e um av\u00f4 que ele n\u00e3o conheceu e cuja hist\u00f3ria tenta desvendar numa visita \u00e0 Ucr\u00e2nia (Auster descreveu essa viagem ao site \u201cLiterary Hub\u201d em 2020 e reproduz o texto, \u201cOs Lobos de Stanislav\u201d no livro, como se tivesse sido escrito pelo personagem Seymour Baumgartner).<\/p>\n\n\n\n<p>O par\u00e1grafo de abertura desse texto \u00e9 uma esp\u00e9cie de s\u00edntese das quest\u00f5es que aparecem em alguns livros de Auster, como mem\u00f3rias e a constru\u00e7\u00e3o de narrativas: \u201cSer\u00e1 que um evento precisa ser verdadeiro para que o aceitemos como verdade, mesmo que a coisa que supostamente aconteceu n\u00e3o aconteceu? E se, a despeito de seus esfor\u00e7os para descobrir se o evento aconteceu ou n\u00e3o, voc\u00ea chegar a um impasse em mat\u00e9ria de incerteza e for incapaz de garantir que a hist\u00f3ria contada por algu\u00e9m no terra\u00e7o de um caf\u00e9 na cidade ocidental da Ucr\u00e2nia chamada Ivano-Frankivsk derivou de um pequeno, por\u00e9m verific\u00e1vel acontecimento hist\u00f3rico ou, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma lenda, uma baz\u00f3fia ou um rumor infundado transmitido de pai para filho? Ainda mais relevante: se a hist\u00f3ria comprova ser t\u00e3o assombrosa e t\u00e3o potente que seu queixo cai e voc\u00ea sente que ela mudou, melhorou ou aprofundou sua compreens\u00e3o do mundo, importa que seja verdadeira ou n\u00e3o?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Seymour Baumgartner \u00e9 um personagem marcado por quest\u00f5es como essas: tem lembran\u00e7as v\u00edvidas de acontecimentos mundanos de sua vida \u2013 embora tenha d\u00favidas se eles s\u00e3o reais ou imaginados \u2013 e apagou completamente da mem\u00f3ria passagens longas de sua trajet\u00f3ria. Rel\u00ea textos in\u00e9ditos deixados pela esposa, Anna, que o lembram acontecimentos marcantes da vida amorosa deles. Baumgartner est\u00e1 dividido entre o luto por Anna e o recome\u00e7o de uma nova vida. Aceitar a mortalidade ou partir para uma nova aventura?<\/p>\n\n\n\n<p>Auster povoa o livro com personagens que perigam carregar Baumgartner para essas novas aventuras: um funcion\u00e1rio da companhia el\u00e9trica que o socorre depois de um acidente dom\u00e9stico, a j\u00e1 citada entregadora que faz bater mais r\u00e1pido o cora\u00e7\u00e3o do personagem, uma colega da universidade com quem ele tem um caso e, por fim, uma estudante de literatura que est\u00e1 obcecada pelos poemas de Anna e quer escrever sobre eles. Mais importante que os acontecimentos provocados por cada um desses personagens na trama, no entanto, \u00e9 como eles despertam em Baumgartner sentimentos diversos e o fazem refletir sobre sua pr\u00f3pria vida. Alguns leitores podem achar, ao fim da leitura, que \u201cpouco\u201d acontece na hist\u00f3ria. Mas as emo\u00e7\u00f5es que o livro desperta no leitor s\u00e3o muitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo dia a todas e todos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor norte-americano Paul Auster morreu em abril de 2024, aos 77 anos, depois de uma carreira liter\u00e1ria brilhante que incluiu cerca de duas dezenas de romances, al\u00e9m de livros de poesias, mem\u00f3rias, n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o e roteiros para cinema. 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