{"id":3564,"date":"2024-05-31T06:00:00","date_gmt":"2024-05-31T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=3564"},"modified":"2024-09-24T14:43:01","modified_gmt":"2024-09-24T17:43:01","slug":"que-saudades-do-bourdain","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/que-saudades-do-bourdain\/","title":{"rendered":"Que saudades do Bourdain!"},"content":{"rendered":"\n<p>A Netflix finalmente exibe \u201cRoadrunner\u201d, document\u00e1rio sobre o chef e personalidade televisiva Anthony Bourdain. O filme \u00e9 de 2021 e foi dirigido por Morgan Neville (\u201cA Um Passo do Estrelato\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Vi o doc na \u00e9poca do lan\u00e7amento e me fez um mal danado. N\u00e3o pelo filme, que \u00e9 bem feito, embora um tanto careta, mas pelas imagens de Bourdain e a percep\u00e7\u00e3o de que a morte dele me deixou consternado. Poucas perdas em anos recentes me impactaram tanto.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ihEEjwRlghQ?si=ssObtm0hwsmZDlRu\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>Sempre vi Bourdain como um \u00eddolo. Um punk que entrou no <em>mainstream<\/em> sem mudar uma v\u00edrgula do que dizia ou acreditava. Para mim, ele tinha o emprego dos sonhos: viajar o mundo comendo bem e conhecendo lugares e pessoas incr\u00edveis. Imaginar que um cara desses tirou a pr\u00f3pria vida, aos 61 anos, no auge da popularidade e da realiza\u00e7\u00e3o profissional, \u00e9 pra rachar a cabe\u00e7a de qualquer um.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, escrevi sobre Bourdain:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Anthony Bourdain \u00e9 uma celebridade da TV. Esse ex-junkie, f\u00e3 de punk rock e chef de talento \u00e9 conhecido mundialmente por seu programa \u201cNo Reservations\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O restaurante onde Bourdain trabalhou \u2013 e onde ainda \u00e9 \u201cchef executivo\u201d \u2013 o Les Halles, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o nova-iorquina, caso raro de lugar hypado pelos turistas e que serve comida de primeira.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Bourdain surgiu para o mundo com um livro, \u201cCozinha Confidencial\u201d, lan\u00e7ado em 2000, onde contava os bastidores do mundo da gastronomia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O livro desmistificava a imagem de chefs como pessoas tranq\u00fcilas e s\u00e9rias, trazendo relatos de sexo, drogas e disputas de ego. Uma esp\u00e9cie de \u201cMedo e Del\u00edrio\u201d entre as paredes de uma cozinha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>De Bourdain, eu s\u00f3 havia lido \u201cCozinha Confidencial\u201d. Mas acabei de ler \u201cA Cook\u2019s Tour\u201d, lan\u00e7ado em 2001 (no Brasil, \u201cEm Busca do Prato Perfeito\u201d), e gostei ainda mais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de guia de viagens em que Bourdain visita diversos pa\u00edses em busca de experi\u00eancias gastron\u00f4micas \u00fanicas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele vai ao Vietn\u00e3 e bebe sangue de cobra, come caviar com mafiosos russos, acompanha o abate e preparo de um porco gigante no norte de Portugal, se junta a uma tribo de n\u00f4mades no deserto do Marrocos para assar um carneiro, explora uma cidade do Camboja ainda dominada pelo Khmer Vermelho e visita alguns dos melhores restaurantes do mundo, como o French Laundry, na Calif\u00f3rnia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Al\u00e9m de ter hist\u00f3rias \u00f3timas, o livro \u00e9 muito bem escrito, num estilo gonzo\/punk sem frescura e cheio de ironia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O relato de uma manh\u00e3 no mercado de peixes Tsukiji, em T\u00f3quio, acompanhado do mestre sushiman Kiminari Togawa, e do banquete preparado depois por Togawa, \u00e9 inesquec\u00edvel. D\u00e1 vontade de pegar o primeiro voo para o Jap\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Bourdain descreve como Togawa usa uma faca e um arame fino para deixar um peixe vivo paralisado, basicamente num estado comatoso, para que fique fresco at\u00e9 o momento de ser servido. \u00c9 demais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Bourdain \u00e9 um baita escritor.&nbsp;Gosto n\u00e3o s\u00f3 do seu estilo, mas de suas opini\u00f5es e vis\u00e3o de mundo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele \u00e9 um tradicionalista que abomina frescura na cozinha, adora comida popular, despreza o \u201chype\u201d t\u00e3o comum ao mundo gastron\u00f4mico, mete o pau no xiitismo vegetariano, na corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e na destrui\u00e7\u00e3o de velhas tradi\u00e7\u00f5es culin\u00e1rias em prol de uma suposta \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d da ind\u00fastria aliment\u00edcia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No caminho, ofende bastante gente. Desce o cacete em Jamie Oliver e em Ferran Adri\u00e0, \u00e9 s\u00f3 elogios para Gordon Ramsay.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Anthony Bourdain agitou o mundo da gastronomia com o livro \u201cCozinha Confidencial\u201d. Parte autobiografia, parte relato de bastidores do que acontece dentro da cozinha de restaurantes, o livro eternizou Bourdain no papel do Sid Vicious da culin\u00e1ria: um nova-iorquino falastr\u00e3o, an\u00e1rquico, com um senso de humor \u00e1cido e toler\u00e2ncia zero para esnobismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro levou Bourdain \u00e0 TV, apresentando programas para o Food Channel, Travel Channel e CNN. Bourdain tornou-se muito mais que um cronista de gastronomia: seu maior interesse n\u00e3o era mais falar sobre comida, mas sobre as pessoas por tr\u00e1s dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Os programas que ele apresentou \u2013 especialmente o \u00faltimo, \u201cParts Unknown\u201d, na CNN \u2013 usavam a culin\u00e1ria como ponto de partida para falar de cultura, pol\u00edtica, hist\u00f3ria, geografia e outros assuntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea assiste a Bourdain explorando os escombros da cidade de Tr\u00edpoli, na L\u00edbia, andando pelo que restou do pal\u00e1cio de Muammar al-Gaddafi e sendo expulso do lugar por uma mil\u00edcia, voc\u00ea sabe que n\u00e3o est\u00e1 vendo um simples programa de culin\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>E que tal o epis\u00f3dio em que Bourdain encontra em Moscou com um dos maiores cr\u00edticos do regime de Vladimir Putin, Brosi Nemtsov, que seria assassinado com quatro tiros poucos meses depois? Ou quando vai \u00e0 Arm\u00eania entrevistar Serj Tankian, vocalista do grupo System of a Down? Ou o epis\u00f3dio em que visita Jerusal\u00e9m e faz uma refei\u00e7\u00e3o com um casal formado por um israelense e uma palestina?<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu programa mais conhecido, Bourdain encontrou Barack Obama num p\u00e9-sujo em Han\u00f3i, onde comeram macarr\u00e3o e beberam cerveja gelada no gargalo. A apar\u00eancia de despojamento era total, mas quem trabalha em TV sabe o trabalho que deu encenar um encontro daqueles com o homem mais poderoso do mundo (uma reportagem da revista \u201cThe New Yorker\u201d, feita depois da morte do apresentador, diz que a equipe dele filma cerca de 80 horas para fazer cada epis\u00f3dio de 60 minutos, e uma colega da CNN disse que o Servi\u00e7o Secreto americano ficou enlouquecido porque n\u00e3o teve chance de provar a comida que seria servida a Obama).<\/p>\n\n\n\n<p>O maior legado de Anthony Bourdain foi mostrar ao p\u00fablico a beleza de descobrir coisas novas, de conhecer outras culturas e outros sabores. Como disse um colega da CNN, o apresentador Don Lemon: \u201cN\u00e3o importa se os entrevistados s\u00e3o de religi\u00f5es ou posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas diferentes; quando eles est\u00e3o em volta de uma mesa e comendo algo delicioso, a discuss\u00e3o fica imediatamente mais civilizada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo fim de semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Netflix finalmente exibe \u201cRoadrunner\u201d, document\u00e1rio sobre o chef e personalidade televisiva Anthony Bourdain. O filme \u00e9 de 2021 e foi dirigido por Morgan Neville (\u201cA Um Passo do Estrelato\u201d). Vi o doc na \u00e9poca do lan\u00e7amento e me fez um mal danado. N\u00e3o pelo filme, que \u00e9 bem feito, embora um tanto careta, mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3565,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1357,1343],"tags":[1281,695],"class_list":["post-3564","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusivo","category-filme","tag-anthony-bourdain","tag-documentario-da-netflix"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3564"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3564\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}