{"id":3415,"date":"2024-03-13T06:00:00","date_gmt":"2024-03-13T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=3415"},"modified":"2024-09-24T14:43:01","modified_gmt":"2024-09-24T17:43:01","slug":"cadao-volpato-revive-a-libelu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/cadao-volpato-revive-a-libelu\/","title":{"rendered":"Cad\u00e3o Volpato revive a Libelu"},"content":{"rendered":"\n<p>Por cerca de dez anos, o escritor Cad\u00e3o Volpato flertou com a ideia de escrever um livro sobre uma \u00e9poca que julgava crucial em sua vida: seu per\u00edodo de militante pol\u00edtico, no fim da d\u00e9cada de 1970, como parte da Liberdade e Luta, a chamada Libelu, um grupo do movimento estudantil ligado ao trotskismo. Mas faltava achar um mote, um ponto de partida para a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, do nada, Volpato recebeu do amigo e cr\u00edtico de arte Rodrigo Naves, tamb\u00e9m membro da Libelu, uma fotografia em preto e branco, tirada provavelmente em 1977, mostrando v\u00e1rios estudantes da USP e integrantes da Libelu participando de uma manifesta\u00e7\u00e3o dentro da universidade. Nem Rodrigo Naves, que aparece na imagem, lembra exatamente onde ela foi tirada. \u201cQuando vi aquela foto, tive uma esp\u00e9cie de epifania\u201d, disse Volpato de Nova York, onde mora com a fam\u00edlia h\u00e1 cinco anos. \u201cEra uma foto ruim, eu n\u00e3o reconheci todos os personagens, mas ela me deu um estalo. Enviei uma mensagem no ato pro Rodrigo: \u2018Acho que vou escrever um romance sobre isso\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Volpato decidiu fazer um livro que contasse n\u00e3o a hist\u00f3ria da Libelu, mas a vida de diversos personagens que militaram nela. \u201cPrecisava escrever sobre gente de carne e osso. Eu queria falar de gente, n\u00e3o de uma tend\u00eancia. N\u00e3o quis ser jornal\u00edstico. Os fatos estavam t\u00e3o pr\u00f3ximos de mim que n\u00e3o poderia cont\u00e1-los de maneira leviana. Escolhi contar a hist\u00f3ria do ponto de vista dos personagens\u201d. Seis meses depois, ele terminava \u201cAbaixo a Vida Dura\u201d (Editora Faria e Silva, 224 p\u00e1ginas), seu 12\u00ba livro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"758\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/livro-cadao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3417\" style=\"width:393px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/livro-cadao.jpg 758w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/livro-cadao-455x600.jpg 455w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/livro-cadao-500x660.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 758px) 100vw, 758px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria re\u00fane diversos personagens que moram juntos em rep\u00fablicas, se apaixonam uns pelos outros e descobrem na Libelu uma miss\u00e3o que os une. \u201cEu era um garoto tosco e caipira\u201d, conta Volpato. \u201cA hist\u00f3ria da minha milit\u00e2ncia pol\u00edtica, para mim, sempre teve uma coisa mitol\u00f3gica. Como qualquer jovem de 20 anos, eu queria mudar o mundo e, principalmente, combater a ditadura. Hoje, vejo o trotskismo tamb\u00e9m com um ponto de vista mais mitol\u00f3gico e n\u00e3o concreto, porque n\u00e3o sou trotskista h\u00e1 mais de 40 anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A Libelu surgiu na segunda metade dos anos 1970 e durou cerca de dez anos. Entre seus militantes estavam figuras que se tornariam conhecidas no meio pol\u00edtico, como Ant\u00f4nio Palocci e Luis Gushiken, na televis\u00e3o, como o soci\u00f3logo Demetrio Magnolli, e muitos jornalistas, entre eles Matinas Suzuki, Eugenio Bucci, Cleusa Turra, Reinaldo Azevedo, o cr\u00edtico gastron\u00f4mico Josimar Melo (cujos irm\u00e3os, Ricardo e Roberto, tamb\u00e9m eram da Libelu), Jos\u00e9 Arbex Jr., Laura Capriglione e Paulo Moreira Leite, entre muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Volpato, que tem 67 anos e uma celebrada carreira de jornalista, escritor e m\u00fasico (\u00e9 cantor da cultuada banda p\u00f3s-punk Fellini), se inspirou tamb\u00e9m no document\u00e1rio \u201cLibelu \u2013 Abaixo a Ditadura\u201d (2020), de Di\u00f3genes Muniz. \u201cFiquei muito emocionado com o filme do Di\u00f3genes. Ele mostrou que era poss\u00edvel falar daqueles tempos e da Libelu sem ser demasiado s\u00e9rio ou chato\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cAbaixo a Vida Dura\u201d, o autor usa personagens ficcionais para contar hist\u00f3rias verdadeiras. \u201cEra importante ser fiel aos fatos, ent\u00e3o pesquisei bastante. Mas a maior parte, escrevi de mem\u00f3ria. Desde os 20 anos eu vinha guardando esses acontecimentos\u201d. O cl\u00edmax da hist\u00f3ria \u00e9 um acontecimento que, segundo ele, foi o \u201cgrande momento de nossa juventude\u201d: a invas\u00e3o da PUC.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 22 de setembro de 1977, tropas de choque e policiais militares comandadas pelo ent\u00e3o Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo, Coronel Erasmo Dias, invadiram a Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC) para interromper o Encontro Nacional de Estudantes (ENE) que buscava reviver a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), ent\u00e3o proibida pela ditadura militar. As tropas espancaram com cassetetes alunos, professores e funcion\u00e1rios, e dispararam bombas que deixaram v\u00e1rias pessoas com queimaduras graves.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu consegui a proeza de chegar atrasado \u00e0 invas\u00e3o da PUC\u201d, ri Volpato, \u201cMas precisava preencher essa lacuna e me empenhei numa pesquisa grande, j\u00e1 que a hist\u00f3ria tem v\u00e1rias narrativas. Descobri coisas impressionantes: a invas\u00e3o foi muito mais violenta do que me pareceu \u00e0 \u00e9poca. Na verdade, aquilo foi um desastre, uma viol\u00eancia extrema. Durante muito tempo, o Erasmo Dias disse que s\u00f3 foram usadas bombas de efeito moral, o que era uma mentira. V\u00e1rias pessoas relataram chamas de bombas incendi\u00e1rias refletindo nas palmeiras da PUC. Muita gente foi queimada, algumas gravemente, pelas bombas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de usar personagens ficcionais, algumas das hist\u00f3rias relatadas no livro aconteceram com pessoas conhecidas: os irm\u00e3os que est\u00e3o na invas\u00e3o da USP s\u00e3o Josimar, Ricardo e Roberto Melo (\u201cEram esses caras que eu admirava\u201d, diz Volpato), e o manifestante que anda em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s tropas de Erasmo Dias \u00e9 Jos\u00e9 Arbex Jr. \u201cIsso era muito porra-louca, muito Libelu\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Anna, uma personagem linda e central na hist\u00f3ria, Volpato diz que, diferentemente do que desconfiam muitas pessoas pr\u00f3ximas \u00e0 Libelu, Anna n\u00e3o \u00e9 inspirada na jornalista Cleusa Turra. \u201cA Cleusa era, sim, uma musa, mas a Anna n\u00e3o \u00e9 ela. Posso dizer que todas as meninas da Libelu eram muito bonitas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado na \u201cFolha de S. Paulo\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por cerca de dez anos, o escritor Cad\u00e3o Volpato flertou com a ideia de escrever um livro sobre uma \u00e9poca que julgava crucial em sua vida: seu per\u00edodo de militante pol\u00edtico, no fim da d\u00e9cada de 1970, como parte da Liberdade e Luta, a chamada Libelu, um grupo do movimento estudantil ligado ao trotskismo. Mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3416,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1357,2],"tags":[1201,1200],"class_list":["post-3415","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusivo","category-livros","tag-abaixo-a-vida-dura","tag-cadao-volpato"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3415","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3415"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3415\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3415"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3415"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3415"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}