{"id":3375,"date":"2024-02-28T06:00:00","date_gmt":"2024-02-28T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=3375"},"modified":"2024-09-24T14:43:01","modified_gmt":"2024-09-24T17:43:01","slug":"critica-zona-de-interesse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/critica-zona-de-interesse\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cZona de Interesse\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 muito tempo um filme novo n\u00e3o me impactava tanto quanto \u201cZona de Interesse\u201d. Dirigido pelo brit\u00e2nico Jonathan Glazer, que fez os excelentes \u201cSexy Beast\u201d (2001) e \u201cSob a Pele\u201d (2013), e adaptado de um romance de Martin Amis, \u00e9 uma das produ\u00e7\u00f5es mais ousadas e experimentais do cinema comercial nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme conta a vida do oficial nazista Rudolf H\u00f6ss (Christian Friedel), sua esposa, Hedwig (Sandra H\u00fcller), e os cinco filhos, que vivem numa \u00e1rea rural da Pol\u00f4nia, numa ampla mans\u00e3o separada apenas por um muro do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz, que \u00e9 comandado por H\u00f6ss.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia H\u00f6ss tem uma vida id\u00edlica: toma banho num lindo rio, passeia de cavalo por bosques frondosos e, nos dias mais quentes, relaxa numa ampla piscina no imenso jardim da casa. Tudo isso enquanto, ao fundo, ouvem-se estampidos de tiros que executam prisioneiros judeus. \u00c0 noite, a casa \u00e9 iluminada pelas chamas rubras que saem das chamin\u00e9s dos cremat\u00f3rios, onde prisioneiros s\u00e3o incinerados \u00e0s centenas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cZona de Interesse\u201d \u00e9 um filme sobre o Holocausto em que a viol\u00eancia e brutalidade nunca s\u00e3o expl\u00edcitas, mas sugeridas. Os tiros e gritos s\u00e3o apenas pano de fundo da vida caseira dos H\u00f6ss. Quando Rudolf chega em casa depois de um dia extenuante assassinando pessoas, um criado limpa suas botas, e a \u00e1gua escorre pelo tanque, tingida de vermelho.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bdGPi0HvTEY?si=lzMjMDWXhNS2A0t0\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>Logo no in\u00edcio do filme, h\u00e1 uma cena t\u00e3o delicada quanto antol\u00f3gica: uma empregada &#8211; depois descobrimos que \u00e9 uma adolescente polonesa, vizinha \u00e0 propriedade &#8211; precisa servir uma ta\u00e7a de licor para o chefe da casa. Ela pega a ta\u00e7a, pousa a bandeja numa mesa e tra\u00e7a linhas imagin\u00e1rias com a m\u00e3o, para colocar a ta\u00e7a <em>exatamente<\/em> no centro da bandeja.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma cena aparentemente sup\u00e9rflua e desimportante, mas que evidencia a obsess\u00e3o dos H\u00f6ss pela ordem e por uma suposta \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d. Rudolf \u00e9 um ser extremamente meticuloso, que, \u00e0 noite, desliga as luzes da casa numa ordem pr\u00e9-estabelecida. Essa mesma meticulosidade ele demonstra no trabalho do dia a dia, quando planeja a constru\u00e7\u00e3o de um novo e mais eficiente forno cremat\u00f3rio, calcula quantos trens precisar\u00e1 para transportar uma nova leva de prisioneiros at\u00e9 Auschwitz e a quantidade de g\u00e1s Zyklon B necess\u00e1rio para matar judeus nas c\u00e2maras de g\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Para real\u00e7ar o aspecto detalhista e perfeccionista dos H\u00f6ss \u2013 e, por extens\u00e3o, de todo o aparato genocida nazista \u2013 Jonathan Glazer criou em \u201cZona de Interesse\u201d uma est\u00e9tica particular: a c\u00e2mera nunca mexe, e os planos t\u00eam, quase todos, um enquadramento geom\u00e9trico, com um personagem ou objeto principal sempre no meio do quadro. Nas raras vezes em que a c\u00e2mera se move, \u00e9 para acompanhar algo \u2013 uma canoa, uma pessoa \u2013 que se movimenta, mas que aparece centralizado na imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Somadas aos angustiantes efeitos sonoros de fundo, como tiros, gritos e palavras de ordem em alem\u00e3o, as imagens conferem ao filme, mesmo em cenas caseiras banais, uma sufocante sensa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o, amplificada pela trilha sonora eletr\u00f4nica da talentos\u00edssima Mica Levi.<\/p>\n\n\n\n<p>Vi \u201cZona de Interesse\u201d no pior lugar poss\u00edvel para um filme t\u00e3o denso: numa sess\u00e3o de s\u00e1bado de um shopping lotado. E mesmo os espectadores que ca\u00edram ali de paraquedas, certamente atra\u00eddos pelas cinco indica\u00e7\u00f5es ao Oscar, viram tudo num sil\u00eancio sepulcral. N\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia expl\u00edcita, mas a brutalidade impl\u00edcita \u00e9 muito mais chocante.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo dia a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo um filme novo n\u00e3o me impactava tanto quanto \u201cZona de Interesse\u201d. Dirigido pelo brit\u00e2nico Jonathan Glazer, que fez os excelentes \u201cSexy Beast\u201d (2001) e \u201cSob a Pele\u201d (2013), e adaptado de um romance de Martin Amis, \u00e9 uma das produ\u00e7\u00f5es mais ousadas e experimentais do cinema comercial nos \u00faltimos anos. 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