{"id":3198,"date":"2023-11-01T06:00:00","date_gmt":"2023-11-01T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=3198"},"modified":"2024-09-24T14:43:02","modified_gmt":"2024-09-24T17:43:02","slug":"critica-assassinos-da-lua-das-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/critica-assassinos-da-lua-das-flores\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cAssassinos da Lua das Flores\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Antes mesmo de ser lan\u00e7ado, \u201cAssassinos da Lua das Flores\u201d era um filme importante. E por uma simples raz\u00e3o: muito provavelmente ser\u00e1 o \u00faltimo longa-metragem dirigido por Martin Scorsese. Ele havia dado pistas de que encerraria a carreira depois de \u201cO Irland\u00eas\u201d (2019), mas voltou atr\u00e1s e decidiu dirigir esse \u00e9pico de or\u00e7amento de 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares, baseado num livro de David Grann sobre uma s\u00e9rie de assassinatos de ind\u00edgenas da tribo Osage, no estado norte-americano do Oklahoma, na d\u00e9cada de 1920.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns anos antes, os Osage descobriram que, por baixo de suas terras \u00e1ridas, havia oceanos de petr\u00f3leo. De um dia para o outro, a tribo, que havia passado d\u00e9cadas sendo expulsa de outros locais, se tornou riqu\u00edssima.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a fortuna, veio a gan\u00e2ncia de homens brancos que queriam parte daquela riqueza. E um deles se destacou pela tenacidade e viol\u00eancia: William \u201cKing\u201d Hale, um chef\u00e3o pol\u00edtico local. Hale descobriu que, se os seus parentes se casassem com ind\u00edgenas e estes viessem a morrer, os Hale herdariam as terras e, por consequ\u00eancia, os royalties do petr\u00f3leo. A solu\u00e7\u00e3o? Matar os ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Li o livro de David Grann, lan\u00e7ado em 2017, e gostei bastante. Lembro que achei fascinante a hist\u00f3ria dos Osage e de como ficaram ricos com a descoberta de petr\u00f3leo em suas terras. Foi surpreendente ler sobre ind\u00edgenas que haviam passado d\u00e9cadas sendo escorra\u00e7ados e, subitamente, se tornaram as pessoas mais abastadas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Os crimes, por sua vez, n\u00e3o me interessaram tanto. Ficava \u00f3bvio, desde o in\u00edcio do livro, que Hale era o respons\u00e1vel pela matan\u00e7a e que ele s\u00f3 havia conseguido levar a cabo seu plano devido aos conluios com os representantes locais da lei. O estado do Oklahoma em 1920 era uma terra de ningu\u00e9m, e os governos, tanto o estadual quanto o federal, n\u00e3o estavam nem a\u00ed para alguns \u00edndios que morriam em circunst\u00e2ncias inexplicadas.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/T22WRjooZn4?si=zka5TdfPs7UwV5AE\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>O problema central de \u201cAssassinos da Lua das Flores\u201d, o filme, \u00e9 que ele trata da parte menos interessante do livro, que \u00e9 o aspecto policial. Toda a fascinante hist\u00f3ria dos Osage \u00e9 contada em uns oito ou dez minutos, por meio da recria\u00e7\u00e3o de um cinejornal da \u00e9poca que mostra os ind\u00edgenas achando petr\u00f3leo e, depois, desfilando em carr\u00f5es de luxo dirigidos por motoristas brancos. Os outros 200 minutos do filme \u2013 sim, \u00e9 longo pacas &#8211; s\u00e3o dedicados a uma trama policialesca que n\u00e3o tem surpresas ou emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Robert De Niro faz William Hale, e Leonardo Di Caprio interpreta seu sobrinho, Ernest Burkhart, um veterano da Primeira Guerra que chega ao Oklahoma para trabalhar com o tio e logo recebe a miss\u00e3o de cortejar Mollie Kyle (Lily Gladstone), uma Osage cujas terras valem uma fortuna. Ernest ganha um troco praticando assaltos contra os ind\u00edgenas e depois passa a auxiliar o tio nas tramas para elimin\u00e1-los. Tudo isso enquanto ganha o cora\u00e7\u00e3o de Mollie e se casa com ela. Os ind\u00edgenas come\u00e7am a morrer aos montes: uns a tiros, outros envenenados. Mollie teme pela fam\u00edlia, mas n\u00e3o percebe que o pr\u00f3prio marido est\u00e1 envolvido nos crimes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mortes, assassinatos e trai\u00e7\u00e3o marital. Parece uma trama excitante, n\u00e3o? Quem viu \u201cOs Infiltrados\u201d, do mesmo Scorsese, filme que tem dois personagens vivendo \u201cvidas duplas\u201d \u2013 Leonardo DiCaprio posando de bandido, Matt Damon infiltrado na pol\u00edcia \u2013 lembra a tens\u00e3o e surpresas daquela hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, toda a emo\u00e7\u00e3o prometida pelo enredo de \u201cAssassinos da Lua das Flores\u201d n\u00e3o se concretiza, e a trama se arrasta, tediosa, em dire\u00e7\u00e3o a uma conclus\u00e3o \u00f3bvia e cheia de clich\u00eas. O roteiro, escrito pelo pr\u00f3prio Scorsese com Eric Roth (de \u201cForrest Gump\u201d e muitos outros), sofre do chamado \u201cMal de Nolan\u201d, em que TUDO \u00e9 explicado e reexplicado incont\u00e1veis vezes. Um personagem diz o que vai fazer e por que vai fazer aquilo, e ent\u00e3o a coisa acontece. N\u00e3o h\u00e1 surpresas ou reviravoltas. Perdi a conta de quantas vezes o personagem de De Niro explica para DiCaprio como as mortes dos ind\u00edgenas enriqueceriam a fam\u00edlia Hale. Tudo bem que o personagem de DiCaprio \u00e9 uma das criaturas mais burras da hist\u00f3ria do cinema, mas at\u00e9 uma cavalgadura como Ernest Burkhart entenderia a explica\u00e7\u00e3o, se repetida quatro ou cinco vezes, como ocorre no filme.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema de Ernest n\u00e3o \u00e9 ser burro, mas desinteressante. O personagem \u00e9 incapaz de ter uma atitude ou pensamento diferente do que esperamos dele. O Hale de Robert De Niro tamb\u00e9m \u00e9 fino como cartolina, um vil\u00e3o de desenho animado, sem nuances ou profundidade. S\u00f3 faltou o tapa-olho e a risada mal\u00e9fica.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim o filme segue, se arrastando como uma lontra, os assassinatos dos ind\u00edgenas se sucedendo, at\u00e9 que algu\u00e9m resolve tomar uma atitude e a lei finalmente confronta William &nbsp;Hale. N\u00e3o h\u00e1 uma cena em todo o filme que n\u00e3o seja absolutamente previs\u00edvel e que n\u00e3o tenha sido adiantada antes por algum di\u00e1logo. Se Hale aparece tramando a morte de algu\u00e9m, a pessoa morre na cena seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>E os di\u00e1logos? Na \u00e2nsia de criar um texto IMPORTANTE como o tema do filme, Scorsese apela aos instintos mais piegas e melosos. H\u00e1 uma conversa entre Ernest e Mollie que se sucede assim:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Ernest: Voc\u00ea tem uma cor de pele bonita. Como chama?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mollie: a MINHA pele.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e1 para <em>ver<\/em> a cara de satisfa\u00e7\u00e3o de Scorsese e Roth pensando no Oscar que ganhar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O final do filme \u00e9 \u2013 e me d\u00f3i dizer isso, j\u00e1 que sou muito f\u00e3 de Scorsese \u2013 um dos momentos mais apelativos da carreira do cineasta. N\u00e3o darei spoilers, mas posso dizer que o pr\u00f3prio Scorsese surge na tela, numa sequ\u00eancia inteiramente dispens\u00e1vel e que parece ter sido pensada s\u00f3 para que o p\u00fablico pudesse aplaudi-lo ao final da sess\u00e3o (e a longa ova\u00e7\u00e3o em Cannes mostra que o truque deu certo).<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, \u201cAssassinos da Lua das Flores\u201d \u00e9 muita fuma\u00e7a para pouco fogo. Scorsese \u00e9 um g\u00eanio e figura em qualquer lista dos grandes cineastas de todos os tempos, mas sempre fez filmes com personagens inesquec\u00edveis e tramas impactantes. Este, infelizmente, n\u00e3o tem nada disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes mesmo de ser lan\u00e7ado, \u201cAssassinos da Lua das Flores\u201d era um filme importante. E por uma simples raz\u00e3o: muito provavelmente ser\u00e1 o \u00faltimo longa-metragem dirigido por Martin Scorsese. 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