{"id":2837,"date":"2023-05-13T06:00:00","date_gmt":"2023-05-13T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2837"},"modified":"2024-09-24T14:43:03","modified_gmt":"2024-09-24T17:43:03","slug":"do-arquivo-livro-de-rita-lee-exala-rancor-pelos-mutantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/do-arquivo-livro-de-rita-lee-exala-rancor-pelos-mutantes\/","title":{"rendered":"Do Arquivo: Livro de Rita Lee exala rancor pelos Mutantes"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Publicado originalmente em 2016<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Rita Lee est\u00e1 prestes a completar 69 anos. Ela se aposentou da m\u00fasica e vive tranquila num s\u00edtio. Numa carreira de meio s\u00e9culo, vendeu 55 milh\u00f5es de discos e est\u00e1 em quarto lugar no ranking de artistas mais populares do Brasil, atr\u00e1s apenas de Tonico e Tinoco (150 milh\u00f5es), Roberto Carlos (120 milh\u00f5es) e Nelson Gon\u00e7alves (75 milh\u00f5es). Seus discos venderam mais que os de Beth\u00e2nia, Gal e Elis somados.<\/p>\n\n\n\n<p>Rita Lee revolucionou a m\u00fasica pop brasileira n\u00e3o uma, mas duas vezes: a primeira na virada dos 60 para os 70, com a inventividade sonora dos Mutantes, e a segunda dez anos depois, com quatro discos de pura perfei\u00e7\u00e3o pop. Ela n\u00e3o precisa provar nada para ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias atr\u00e1s, Rita Lee lan\u00e7ou sua autobiografia, e os f\u00e3s se animaram. Eu me animei. Este era o legado dela, a obra definitiva sobre sua vida e carreira, o documento que ela vai deixar para que admiradores e futuras gera\u00e7\u00f5es entendam quem foi Rita Lee e o que inspirou sua m\u00fasica. \u00c9, provavelmente, a \u00faltima cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica de sua carreira.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um livro qualquer. Por isso \u00e9 uma tristeza ler \u201cRita Lee \u2013 Uma Autobiografia\u201d (Editora Globo) e descobrir que a cantora fez uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio escrito em linguagem adolescente, em que se recusa a falar a fundo sobre sua carreira, passa voando ou ignora informa\u00e7\u00f5es relevantes, e gasta boa parte do tempo acertando contas com o passado e remoendo antigos ressentimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo mundo sabe que Rita Lee foi despedida dos Mutantes de maneira grosseira e pouco diplom\u00e1tica. Ela conta que foi expulsa por Arnaldo Baptista, ent\u00e3o seu marido, antes de um ensaio da banda. \u201cUma escarrada na cara teria sido menos humilhante\u201d, escreve Rita. N\u00e3o duvido. Rita Lee tem todo o direito de odiar quem quiser. Mas j\u00e1 se passaram mais de 40 anos e ela est\u00e1 eternizando suas mem\u00f3rias em livro. N\u00e3o seria a hora de botar antigas rusgas de lado e dar a devida import\u00e2ncia ao seu legado com os Mutantes e \u00e0s pessoas com as quais gravou nove discos (seis dos Mutantes, dois discos solo e mais o LP \u201cTropic\u00e1lia ou Panis et Circensis\u201d)?..<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o foi o que rolou. Veja como Rita Lee introduz a figura de Sergio Dias, guitarrista dos Mutantes:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cSerginho, o ca\u00e7ula gordinho, apelido Pipa, n\u00e3o completou o ginasial, nunca leu um livro na vida, raramente escovava os dentes, prot\u00f3tipo do ca\u00e7ula pentelho, o Sancho Pan\u00e7a do mano mais velho. Em compensa\u00e7\u00e3o, tocava guitarra com incr\u00edvel rapidez a precis\u00e3o, algo circense at\u00e9, eu diria 95% t\u00e9cnica e 5% alma. Serginho gozava da minha cara e eu da dele, coisa de irm\u00e3o mais novo, digamos que rolava uma n\u00e3o-camaradagem suport\u00e1vel entre n\u00f3s.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em outro trecho, ela escreve:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA virtuosidade de Sergio na guitarra era fato ineg\u00e1vel, apenas sua t\u00e9cnica instrumental se mostrava inversamente proporcional ao talento como compositor.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1? Rita est\u00e1 falando do mesmo Sergio Dias que ajudou a compor \u201cO Rel\u00f3gio\u201d, \u201cAve Genghis Khan\u201d, \u201cDom Quixote\u201d, \u201cCaminhante Noturno\u201d e \u201cAndo Meio Desligado\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Arnaldo, as opini\u00f5es s\u00e3o ainda menos elogiosas. Em um trecho, ela comenta a condi\u00e7\u00e3o mental de Arnaldo e diz que ele \u201cvende sua imagem de coitadinho, t\u00e3o apreciada pelas vi\u00favas e cr\u00edticos de m\u00fasica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para provar, diz ter ligado para a casa dele fazendo-se passar por uma assessora de Kurt Cobain: \u201cDali a pouco Loki entra na linha todo empolgado, se apresentando fluentemente sem gaguejar e sem o menor sinal de retardamento mental.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela est\u00e1 falando de um homem que, alguns anos antes, fora internado \u00e0 for\u00e7a numa cl\u00ednica psiqui\u00e1trica, se jogou do terceiro andar do pr\u00e9dio e passou dois meses em coma.<\/p>\n\n\n\n<p>De novo: o livro \u00e9 de Rita Lee e ela escreve o que quiser. Qualquer biografia de banda de rock que n\u00e3o traga hist\u00f3rias picantes sobre brigas e porra-louquices n\u00e3o presta. Mas n\u00e3o seria legal falar tamb\u00e9m das grava\u00e7\u00f5es dos discos dos Mutantes? Que tal explicar ao leitor como tr\u00eas moleques paulistanos criaram aquelas obras-primas? Sei que Rita Lee odeia cr\u00edticos (ela deixa isso bem claro no livro), mas seria muito interessante conhecer o processo criativo da banda.<\/p>\n\n\n\n<p>O desinteresse da autora pela informa\u00e7\u00e3o \u00e9 exasperante: in\u00fameras vezes ela diz que n\u00e3o lembra certas datas, e n\u00e3o faz o menor esfor\u00e7o para pesquisar. Pessoas de quem ela n\u00e3o gosta s\u00e3o tratadas por apelidos maldosos e n\u00e3o identificadas: a atual esposa de Arnaldo, Lucinha Barbosa, \u00e9 chamada de &#8220;A f\u00e3&#8221;, enquanto a ex-empres\u00e1ria de Rita, M\u00f4nica Lisboa, \u00e9 tratada por &#8220;Miss Governanta&#8221;. E os leitores, que n\u00e3o t\u00eam a menor obriga\u00e7\u00e3o de saber a quem Rita est\u00e1 se referindo, que se danem.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m impressiona o desprezo de Rita Lee por outros colaboradores: Manoel Barenbein produziu \u201cTropic\u00e1lia ou Panis et Circensis\u201d e os dois primeiros discos dos Mutantes. Total de men\u00e7\u00f5es a Barenbein no livro: zero. Guto Gra\u00e7a Mello produziu tr\u00eas dos melhores discos de Rita: \u201cBabil\u00f4nia\u201d, \u201cRita Lee (Mania de Voc\u00ea)\u201d e \u201cRita Lee (Lan\u00e7a Perfume)\u201d. Total de men\u00e7\u00f5es a Guto: uma. Pena Schmidt ajudou a montar o famoso sistema de som dos Mutantes e produziu o LP \u201cEntradas e Bandeiras\u201d, de Rita &amp; Tutti Frutti. Total de men\u00e7\u00f5es a Pena: zero. N\u00e3o h\u00e1 uma linha sobre os m\u00e9todos de trabalho de Rog\u00e9rio Duprat, o genial arranjador dos maiores discos da \u00e9poca da Tropic\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se os colaboradores est\u00e3o ausentes, o mesmo n\u00e3o se pode dizer dos bichinhos de estima\u00e7\u00e3o de Rita. H\u00e1 cap\u00edtulos e mais cap\u00edtulos sobre c\u00e3es, gatos, cobras e at\u00e9 uma on\u00e7a que ela adotou. Uma barata de estima\u00e7\u00e3o adotada pelo pai de Rita merece mais espa\u00e7o que Lincoln Olivetti, o grande m\u00fasico e arranjador que colaborou em v\u00e1rios sucessos da cantora.<\/p>\n\n\n\n<p>Rita n\u00e3o diminuiu apenas seu trabalho com os Mutantes, mas tamb\u00e9m passa voando pelos quatro discos cl\u00e1ssicos que lan\u00e7ou com Roberto de Carvalho entre 1979 e 1982 e que trouxeram hits como \u201cMania de Voc\u00ea\u201d, \u201cDoce Vampiro\u201d, \u201cCaso S\u00e9rio\u201d, \u201cFlagra\u201d e \u201cLan\u00e7a Perfume\u201d. Esses discos transformaram Rita de roqueira porra-louca em astro pop e influenciaram todo mundo. Lulu Santos disse bem: \u201cOs Mutantes, por um per\u00edodo, e depois a Rita solo foram meus far\u00f3is, minhas luzes-guia (\u2026) as m\u00fasicas tinham uma linguagem mais suave, mais gostosa, era uma m\u00fasica acess\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma \u00e9poca em que o p\u00fablico brasileiro consumidor de discos ficou mais jovem e as r\u00e1dios FM tornaram as AM obsoletas; um per\u00edodo muito importante de nossa ind\u00fastria musical e que teve em Rita Lee uma de suas personagens centrais. \u00c9 dif\u00edcil imaginar que gravadoras, TVs e r\u00e1dios investiriam tanto em Legi\u00e3o Urbana, Paralamas e Ultraje a Rigor se Rita e Roberto n\u00e3o tivessem arrebentado de vender discos e tocar em r\u00e1dio. Eles abriram as portas para o rock brasileiro dos anos 80.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso est\u00e1 no livro. Rita n\u00e3o fala de sua rela\u00e7\u00e3o com a gravadora Som Livre e de como se tornou uma das maiores m\u00e1quinas de compor trilhas de novelas; n\u00e3o fala de sua guinada pop ou da sonoridade cristalina desses discos, que foram gravados pensando em como soariam nas r\u00e1dios FM. Encontros com Nelson Gon\u00e7alves, Raul Seixas e Eric Clapton s\u00e3o resumidos em poucas linhas e nenhum aprofundamento. Gente de quem ela gostava, como Cazuza, Hebe Camargo e Elis, s\u00e3o tratados por \u201cfofos\u201d. Quando Rita faz uma besteira, termina as frases com \u201cD\u00e3\u00e3\u00e3\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Em breve deve sair no Brasil a autobiografia de Bruce Springsteen, \u201cBorn to Run\u201d. Sugiro ler as duas para comparar a abordagem, contextualiza\u00e7\u00e3o e senso de import\u00e2ncia hist\u00f3rica. Bruce fala detalhadamente sobre seus discos, explica suas inspira\u00e7\u00f5es e conta casos interessantes sobre grava\u00e7\u00f5es e turn\u00eas. Ele gasta v\u00e1rias p\u00e1ginas contando como seu primeiro empres\u00e1rio o ajudou e influenciou sua carreira, mesmo que, anos depois, esse mesmo empres\u00e1rio o tenha processado. Bruce sabe que, no fim das contas, o que fica \u00e9 a m\u00fasica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 2016 Rita Lee est\u00e1 prestes a completar 69 anos. Ela se aposentou da m\u00fasica e vive tranquila num s\u00edtio. Numa carreira de meio s\u00e9culo, vendeu 55 milh\u00f5es de discos e est\u00e1 em quarto lugar no ranking de artistas mais populares do Brasil, atr\u00e1s apenas de Tonico e Tinoco (150 milh\u00f5es), Roberto Carlos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2838,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1357,2,1342],"tags":[906,89],"class_list":["post-2837","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusivo","category-livros","category-musica","tag-livro-de-rita-lee","tag-rita-lee"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2837"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2837\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2838"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}