{"id":2673,"date":"2023-03-06T06:00:00","date_gmt":"2023-03-06T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2673"},"modified":"2024-09-02T12:44:19","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:19","slug":"festival-corporativo-heroi-ou-vilao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/festival-corporativo-heroi-ou-vilao\/","title":{"rendered":"Festival corporativo: her\u00f3i ou vil\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>Semana passada, rolou o an\u00fancio de mais um festival de m\u00fasica no Brasil, o C6 Fest. Por uma raz\u00e3o \u00e9tica \u2013 tenho um parente entre os curadores \u2013 vou me abster de entrar em detalhes sobre o evento, mas posso dizer que a escala\u00e7\u00e3o dos artistas \u00e9 de primeira, com nomes como Kraftwerk, Underworld, The War on Drugs, Samara Joy, Dry Cleaning e Weyes Blood, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho muito bom que empresas patrocinem shows de qualidade. O Brasil tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o de eventos musicais corporativos \u2013 Free Jazz, Tim Festival, Hollywood Rock, Planeta Terra, Skol Beats, etc. \u2013 que trouxeram um sem-n\u00famero de artistas importantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 um lado perigoso nessas empreitadas: por contar com or\u00e7amentos alt\u00edssimos e n\u00e3o depender da bilheteria para se pagar, j\u00e1 que o patroc\u00ednio costuma \u2013 n\u00e3o em todos os casos \u2013 cobrir todos os custos, inclusive de pagamento de curadores, equipe, etc., esses eventos habitam uma esp\u00e9cie de universo paralelo ao mundo real do mercado de shows. Basicamente, pagam cach\u00eas t\u00e3o altos que inflacionam o mercado e, por consequ\u00eancia, destroem promotores independentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Posso falar de cadeira porque fa\u00e7o produ\u00e7\u00e3o de shows h\u00e1 30 anos e conhe\u00e7o o efeito nefasto da supervaloriza\u00e7\u00e3o de cach\u00eas. O que muitos desses eventos deixam em seus rastros \u00e9 uma cena independente em frangalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou dar um exemplo pr\u00e1tico: em 2005, est\u00e1vamos negociando com uma banda <em>indie<\/em> americana uma pequena turn\u00ea na Am\u00e9rica do Sul, com shows na Argentina, Chile, e dois no Brasil. Oferecemos um cach\u00ea para os quatro shows, bem dentro da realidade financeira da banda na \u00e9poca. Um festival corporativo veio e pagou \u00e0 banda 30% a mais do que o total que oferecemos para ela fazer uma data apenas, no Rio de Janeiro. A banda, obviamente, aceitou.<\/p>\n\n\n\n<p>O que aconteceu depois: a banda passou a recusar todas as ofertas de promotores independentes, porque havia recebido um cach\u00ea t\u00e3o alto do festival, que se recusava a vir por menos. Resultado: passou 11 anos sem se apresentar de novo no pa\u00eds, at\u00e9 cair na real e perceber que n\u00e3o iria mais receber uma oferta t\u00e3o alta quanto a de 2005.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7a uma pesquisa: pegue as escala\u00e7\u00f5es de artistas estrangeiros dos festivais corporativos (especialmente dos anos 2000 para c\u00e1, quando os cach\u00eas ficaram estratosf\u00e9ricos) e conte quantos artistas voltaram depois ao Brasil. Ser\u00e3o pouqu\u00edssimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, o mercado mundial de shows \u00e9 dominado por cinco ou seis megacorpora\u00e7\u00f5es. As ag\u00eancias de talento s\u00e3o imensas e representam centenas de artistas. Um agente que recebeu \u201cx\u201d de um megafestival por um artista vai querer receber o mesmo \u201cx\u201d por outro artista equivalente no ano seguinte, e isso cria um c\u00edrculo vicioso de aumento irreal de cach\u00eas. E os promotores que n\u00e3o t\u00eam patroc\u00ednio e arriscam o pr\u00f3prio dinheiro nos shows penam cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode parecer choro de perdedor \u2013 \u201cAh, voc\u00ea est\u00e1 falando isso porque n\u00e3o tem uma marca por tr\u00e1s\u201d \u2013 mas n\u00e3o \u00e9 verdade. J\u00e1 fiz eventos corporativos \u2013 um festival para uma marca de bebidas \u2013 mas a grana n\u00e3o cobria nem 30% do custo total, e ainda depend\u00edamos de bilheteria para zerar os custos. Um festival em Atibaia deu tanto preju\u00edzo que quase fechamos as portas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando vejo a escala\u00e7\u00e3o de alguns eventos corporativos com <em>line-ups<\/em> surreais, com artistas cujos cach\u00eas, somados, precisariam de 20 mil ingressos vendidos para se pagar, tocando em locais de tr\u00eas mil pessoas, sei que h\u00e1 algo de errado nessa equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual a solu\u00e7\u00e3o? A \u00fanica que vejo \u00e9 um acordo entre os festivais para limitar cach\u00eas a n\u00fameros razo\u00e1veis e n\u00e3o destruir o mercado, mas isso \u00e9 imposs\u00edvel no Brasil, onde os curadores dos eventos n\u00e3o correm risco algum e vivem de gastar o dinheiro dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u00f3tima semana a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Semana passada, rolou o an\u00fancio de mais um festival de m\u00fasica no Brasil, o C6 Fest. 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