{"id":2622,"date":"2023-02-17T06:00:00","date_gmt":"2023-02-17T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2622"},"modified":"2024-09-02T12:44:20","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:20","slug":"o-faroeste-que-o-brasil-aprendeu-a-amar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/o-faroeste-que-o-brasil-aprendeu-a-amar\/","title":{"rendered":"O faroeste que o Brasil aprendeu a amar"},"content":{"rendered":"\n<p>A Netflix exibe o cl\u00e1ssico faroeste \u201cShane\u201d (no Brasil, \u201cOs Brutos Tamb\u00e9m Amam\u201d), dirigido em 1953 por George Stevens. E, antes de qualquer coisa, vale ressaltar que a plataforma, que nunca se notabilizou pela qualidade de seu acervo de filmes antigos, tem adicionado t\u00edtulos imperd\u00edveis, como \u201cO Poderoso Chef\u00e3o\u201d, \u201cTaxi Driver\u201d, \u201cOs Intoc\u00e1veis\u201d, \u201cEntre Dois Amores\u201d e v\u00e1rios filmes de Pedro Almod\u00f3var.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos a \u201cShane\u201d: quem cresceu vendo filmes no in\u00edcio dos anos 80, \u00e9poca em que mal havia locadoras de VHS e a \u00fanica op\u00e7\u00e3o para conhecer filmes cl\u00e1ssicos era frequentar cineclubes, esse filme era exibido com regularidade impressionante na TV Globo. E por uma raz\u00e3o simples: o programador de filmes da emissora, o jornalista e escritor Paulo Perdig\u00e3o, era obcecado por ele. \u201cShane\u201d passava mais na Globo do que \u201cO Homem Cobra\u201d e \u201cA Gangue dos Dobermans\u201d no SBT.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conheci pessoalmente Paulo Perdig\u00e3o, mas o admirava pela qualidade de suas sele\u00e7\u00f5es cin\u00e9filas. Foi ele que me apresentou a obras-primas de Hitchcock, John Ford, Orson Welles e outros grandes nomes do cinema. Sim, houve uma \u00e9poca em que a TV aberta exibia obras-primas do cinema. Al\u00e9m das sess\u00f5es na Globo, outra fonte inesgot\u00e1vel de conhecimento, para a minha gera\u00e7\u00e3o, foi a \u201cSess\u00e3o Cineclube\u201d da TVE do Rio, que exibia filmes domingos \u00e0 noite, e onde vi todos os grandes filmes do Expressionismo alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo Perdig\u00e3o era t\u00e3o fan\u00e1tico por \u201cShane\u201d que escreveu um livro-ensaio sobre o filme: \u201cO Western Cl\u00e1ssico: G\u00eanese e Estrutura de Shane\u201d, que li nos anos 80 e perdi em alguma mudan\u00e7a por a\u00ed (vou comprar de novo, est\u00e1 baratinho na Estante Virtual). Al\u00e9m do filme, Perdig\u00e3o tinha outras obsess\u00f5es que renderam livros, como o programa de r\u00e1dio PRK-30 (\u201cNo Ar PRK-30\u201d), a derrota do Brasil na Copa de 50 (\u201cAnatomia de uma Derrota\u201d) e Jean-Paul Sartre (\u201cExist\u00eancia e Liberdade \u2013 Uma Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Filosofia de Sartre\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Perdig\u00e3o morreu em 31 de dezembro de 2007. <a href=\"https:\/\/geraldomayrink.com.br\/perfil\/o-bangue-bangue-da-alma\/\">Aqui vai o link <\/a>de uma reportagem da \u201cVeja\u201d de 1995, assinada por Geraldo Mayrink, que traz uma rar\u00edssima foto dele. Achei tamb\u00e9m uma coluna muito bonita de Carlos Heitor Cony sobre Paulo Perdig\u00e3o, publicada na \u201cFolha de S. Paulo\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Assistiu 82 vezes a&nbsp;<\/em><em>Os brutos tamb\u00e9m amam<\/em><em>&nbsp;(<\/em><em>Shane<\/em><em>), visitou quatro vezes as loca\u00e7\u00f5es da obra de George Stevens, trouxe pedras e poeira de l\u00e1, tem uma c\u00f3pia do filme em que enxertou uma cena na qual ele aparece no duelo final avisando a Alan Ladd que Jack Palance vai mat\u00e1-lo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tinha um time de futebol de bot\u00e3o que em v\u00e9spera de jogo importante ele colocava em cima do arm\u00e1rio. Era a concentra\u00e7\u00e3o \u201cna montanha\u201d, para que os bot\u00f5es tivessem oxig\u00eanio puro e renovado. Quando botava o time em campo, havia a trilha musical \u201cNa Cad\u00eancia do Samba\u201d (\u201cQue bonito \u00e9\u201d), a mesma grava\u00e7\u00e3o de Waldir Calmon que acompanhava os flashes de futebol do Carlinhos Niemeyer que ent\u00e3o passava nos cinemas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dia, pegou a filmadora e fez dois v\u00eddeos, um com Jean-Paul Sartre, outro com Martin Heidegger, fil\u00f3sofo de sua predile\u00e7\u00e3o, dos quais deixou ensaios e uma tradu\u00e7\u00e3o de&nbsp;<\/em><em>O ser e o nada<\/em><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Foi durante anos programador dos filmes da Rede Globo e, nas horas vagas, escreveu&nbsp;<\/em><em>Anatomia de uma derrota<\/em><em>, sobre a final do Campeonato do Mundo de 1950, que se tornara uma de suas obsess\u00f5es existenciais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Cr\u00edtico de cinema dos mais respeitados, escreveu em&nbsp;<\/em><em>Manchete<\/em><em>,&nbsp;<\/em><em>O Globo<\/em><em>&nbsp;e&nbsp;<\/em><em>JB<\/em><em>. Seus \u00eddolos eram os j\u00e1 citados George Stevens, Sartre, Heidegger e Ademir da Guia, deste \u00faltimo tornou-se amigo pessoal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Assim foi Paulo Perdig\u00e3o, que morreu no \u00faltimo dia do ano passado, deixando um vazio em seus amigos e admiradores. Acompanhei sua carreira desde os tempos em que trabalh\u00e1vamos no&nbsp;<\/em><em>Correio da Manh\u00e3<\/em><em>&nbsp;e Paulo despontava como um dos jovens mais brilhantes de sua gera\u00e7\u00e3o. Era um personagem que o Justino Martins, diretor de&nbsp;<\/em><em>Manchete<\/em><em>, classificaria de \u201cfascinante\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em tributo a Paulo Perdig\u00e3o, vamos aproveitar o Carnaval para apresentar \u201cShane\u201d aos filhos. \u00c9 um faroeste dos mais animados.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo Carnaval a todas e todos. O blog volta na Quarta de Cinzas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Netflix exibe o cl\u00e1ssico faroeste \u201cShane\u201d (no Brasil, \u201cOs Brutos Tamb\u00e9m Amam\u201d), dirigido em 1953 por George Stevens. 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