{"id":2562,"date":"2023-01-27T06:00:00","date_gmt":"2023-01-27T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2562"},"modified":"2024-09-02T12:44:20","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:20","slug":"tar-o-cinema-respira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/tar-o-cinema-respira\/","title":{"rendered":"\u201cT\u00c1R\u201d: o cinema respira"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma regra usual em cursos de roteiro de filmes que diz: n\u00e3o exclua o p\u00fablico. Filmes e s\u00e9ries devem ter narrativas que podem ser compreendidas por todos. Quem escreve o roteiro deve prestar aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o deixar a hist\u00f3ria particular demais, sob risco de alienar parte da audi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como toda regra, essa, por vezes, tem sido levada a extremos. No audiovisual moderno, a obsess\u00e3o em criar obras de apelo universal tem resultado em narrativas med\u00edocres e apelativas. \u00c9 muito comum, hoje, ver filmes ou s\u00e9ries que repetem <em>ad nauseam<\/em> explica\u00e7\u00f5es para o que estamos vendo na tela, criando uma esp\u00e9cie de \u201cbula\u201d, como se o p\u00fablico fosse incapaz de tirar suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, \u00e9 t\u00e3o animador ver \u201cT\u00c1R\u201d, um filme hollywoodiano que n\u00e3o faz nenhuma concess\u00e3o e n\u00e3o trata o espectador de forma condescendente. Dirigido por Todd Field, que fez os \u00f3timos \u201cIn the Bedroom\u201d (2001) e \u201cLittle Children\u201d (2006), \u00e9 o mais radical filme norte-americano produzido por um grande est\u00fadio em muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YjKvbDUVfSg\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>No filme, Cate Blanchett faz Lydia T\u00e1r, uma pianista, compositora e regente da Filarm\u00f4nica de Berlim. Lydia se prepara para gravar a Quinta de Mahler e est\u00e1 lan\u00e7ando um livro, \u201cT\u00e1r on T\u00e1r\u201d. Em meio a esses dois eventos importantes, Lydia come\u00e7a a ser importunada por recados misteriosos de uma antiga aluna, enquanto tem de lidar com o ci\u00fame da esposa, Sharon, que \u00e9 a primeira violinista da Filarm\u00f4nica a percebe o interesse de Lydia por uma jovem violoncelista russa que acaba de entrar na orquestra.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Todd Field fez com o roteiro de \u201cT\u00c1R\u201d \u00e9 jogar o espectador de cabe\u00e7a no mundo da elite da m\u00fasica cl\u00e1ssica. Acompanhamos Lydia em reuni\u00f5es com financiadores, ensaios com a orquestra e aulas de m\u00fasica que ela ministra na prestigiosa escola Juilliard, e em nenhum momento o roteiro perde tempo explicando nada. Alguns di\u00e1logos s\u00e3o dif\u00edceis de entender completamente, porque Lydia e seus interlocutores falam como pessoas de verdade devem falar nesses c\u00edrculos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma conversa com outro regente, a quem Lydia substituiu na Filarm\u00f4nica de Berlim, \u00e9 reveladora do universo de pequenas intrigas e ci\u00fames que, descobrimos, tamb\u00e9m se faz presente nesse meio. Vendo \u201cT\u00c1R\u201d, me senti completamente imerso num mundo que n\u00e3o domino, e por isso fiquei t\u00e3o fascinado pelo filme e pelo roteiro escrito por Todd Field.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 not\u00e1vel tamb\u00e9m como Field explora, ao longo da hist\u00f3ria de Lydia, temas t\u00e3o atuais como o culto a celebridades, o linchamento virtual, o cancelamento e as discuss\u00f5es de g\u00eanero. H\u00e1 uma sequ\u00eancia simplesmente antol\u00f3gica de uma discuss\u00e3o com um aluno sobre a suposta \u201cmisoginia\u201d de J.S. Bach.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de brilhantemente escrito, o filme \u00e9 de uma beleza visual intoxicante. As cenas de ensaios e apresenta\u00e7\u00f5es da orquestra s\u00e3o lindas, assim como toda a concep\u00e7\u00e3o visual do filme, incluindo o apartamento de Lydia e Sharon. E Cate Blachett? Melhor atriz do mundo nos \u00faltimos 20 anos? Teria meu voto.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, \u201cT\u00c1R\u201d \u00e9 um deleite para quem gosta de filmes ousados e desafiadores. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Martin Scorsese disse o seguinte sobre o filme:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPor muito tempo, muitos de n\u00f3s assistimos a filmes que praticamente nos informam para onde est\u00e3o indo. Eles nos pegam pela m\u00e3o e, mesmo que \u00e0s vezes seja perturbador, nos confortam ao longo do caminho de que tudo ficar\u00e1 bem no final. Isso \u00e9 insidioso, pois algu\u00e9m pode se deixar levar por isso e, por fim, se acostumar com isso, levando aqueles que experimentaram o cinema no passado \u2013 e o consideram muito mais do que isso \u2013 a se tornarem desesperados com o futuro da arte cinematogr\u00e1fica, especialmente para as gera\u00e7\u00f5es mais jovens (&#8230;) As nuvens se dissiparam quando vi \u2018T\u00c1R\u2019. O que voc\u00ea fez, Todd, \u00e9 que a pr\u00f3pria estrutura do filme que voc\u00ea criou n\u00e3o permite isso. (&#8230;) A mudan\u00e7a de loca\u00e7\u00f5es, por exemplo, s\u00f3 a mudan\u00e7a de loca\u00e7\u00f5es faz o que o cinema faz de melhor, que \u00e9 reduzir o espa\u00e7o e o tempo ao que s\u00e3o, ou seja, nada. Voc\u00ea faz com que existamos na cabe\u00e7a dela. A gente vive s\u00f3 pela percep\u00e7\u00e3o dela. O mundo \u00e9 ela. Tempo, cronologia e espa\u00e7o tornam-se a m\u00fasica pela qual ela vive. E n\u00e3o sabemos para onde o filme est\u00e1 indo, apenas seguimos a personagem em sua estranha e perturbadora estrada at\u00e9 seu destino final, ainda mais estranho.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo fim de semana!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma regra usual em cursos de roteiro de filmes que diz: n\u00e3o exclua o p\u00fablico. Filmes e s\u00e9ries devem ter narrativas que podem ser compreendidas por todos. Quem escreve o roteiro deve prestar aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o deixar a hist\u00f3ria particular demais, sob risco de alienar parte da audi\u00eancia. 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