{"id":2459,"date":"2022-12-03T06:00:00","date_gmt":"2022-12-03T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2459"},"modified":"2024-09-02T12:44:20","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:20","slug":"do-arquivo-quando-bowie-abracou-a-discoteca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/do-arquivo-quando-bowie-abracou-a-discoteca\/","title":{"rendered":"Do Arquivo: Quando Bowie abra\u00e7ou a discoteca"},"content":{"rendered":"\n<p>A plateia que foi aos shows de David Bowie na Am\u00e9rica do Norte, no fim de 1974, deve ter levado um susto: no lugar dos cen\u00e1rios imensos e da banda de \u201crock\u201d que Bowie trouxera alguns meses antes, quando gravara o disco \u201cDavid Live\u201d, o camale\u00e3o aparecia agora ladeado por um grupo de m\u00fasicos desconhecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou melhor: desconhecidos para aquela plateia, roqueira e branca. Pra quem acompanhava a m\u00fasica black americana, aqueles m\u00fasicos eram alguns dos maiores da \u00e9poca: Luther Vandross, cantor que gravara com Diana Ross, Donna Summer e Roberta Flack; Carlos Alomar, guitarrista da banda de James Brown; Andy Newmark, baterista de Sly and the Family Stone, e David Sanborn, extraordin\u00e1rio saxofonista que gravara com Stevie Wonder, Gil Evans e Todd Rundgren. Um tima\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na virada de 1974 para 1975, Bowie estava em meio a uma de suas maiores transforma\u00e7\u00f5es sonoras e est\u00e9ticas. Ele deixava de lado o pr\u00e9-punk cru de \u201cDiamond Dogs\u201d (1974) e embarcava em sua viagem pela soul music, que culminaria com o disco \u201cYoung Americans\u201d, de 1975.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, tr\u00eas coisas obcecavam David Bowie: coca\u00edna, ocultismo e discoteca.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira, ele consumia em quantidades industriais. Basta ver sua apar\u00eancia cadav\u00e9rica na foto da capa de \u201cDavid Live\u201d. Naquela turn\u00ea, o cantor passava dias acordado, sem comer nada exceto um suplemento alimentar que seu staff praticamente o for\u00e7ava a ingerir.<\/p>\n\n\n\n<p>O ocultismo era uma paix\u00e3o antiga de Bowie. Em 1974, teve v\u00e1rios encontros com dois estudiosos da obra do bruxo ingl\u00eas Aleister Crowley, o cineasta Kenneth Anger e Jimmy Page. Bowie passava dias trancado em quartos de hotel, memorizando escritos de Crowley, cheirando mais que um tamandu\u00e1 e desenhando pentagramas nas paredes. Em 1976, faria um disco inteiramente inspirado em Crowley: \u201cStation to Station\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a m\u00fasica negra americana, de que Bowie sempre gostara, entrou com tudo em sua alma quando ele ouviu os primeiros lan\u00e7amentos da gravadora Philadelphia International (PIR), chefiada pela dupla Gamble &amp; Huff &#8211; Kenny Gamble e Leon Huff (leia aqui um texto que fiz no blog sobre a PIR). Bowie morou um tempo em Nova York e fazia visitas peri\u00f3dicas ao Apollo Theatre, no Harlem, onde viu show de James Brown e Curtis Mayfield, e de artistas do cast da PIR, como Teddy Pendergrass, Billy Paul, The O\u2019Jays e Archie Bell and the Drells.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o empolgado ficou Bowie pelo som limpo, elegante e festivo da PIR, que montou a tal superbanda com Alomar, Vandross, Newmark e outros, levou todos para a Filad\u00e9lfia e reservou semanas no Sigma Sound, est\u00fadio onde gravavam os grupos do selo. O resultado foi \u201cYoung Americans\u201d, seu nono \u00e1lbum de est\u00fadio.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ivSYxHUHK44\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Para os f\u00e3s de Bowie, que tinham acabado de ouvir o abrasivo e dist\u00f3pico \u201cDiamond Dogs\u201d, cheio de previs\u00f5es apocal\u00edpticas e vis\u00f5es orwellianas, foi um choque v\u00ea-lo de terno e cantando soul music. Era mais uma prova de que a cabe\u00e7a de Bowie estava sempre alguns anos \u00e0 frente do gosto de seu p\u00fablico. Os f\u00e3s demoraram a perceber que \u201cDiamond Dogs\u201d era, na verdade, o encerramento do ciclo glam-pr\u00e9-punk de Bowie, iniciado em 1972 com \u201cZiggy Stardust\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo Bowie era um bandleader \u00e0 moda antiga, um crooner que reciclava as tradi\u00e7\u00f5es da black music americana e n\u00e3o estava mais interessado em ver o mundo pegar fogo, mas em narrar, da forma sempre cr\u00edptica e enigm\u00e1tica de suas letras, o caos dos anos 70.<\/p>\n\n\n\n<p>Leia qualquer an\u00e1lise das letras e temas de \u201cYoung Americans\u201d e voc\u00ea ver\u00e1 uma confus\u00e3o de teorias e ideias. S\u00f3 Bowie sabe, ao certo, sobre o que estava escrevendo. D\u00e1 para perceber os ataques a Nixon (em \u201cSomebody Up There Likes Me\u201d) e, reza a lenda, \u201cFascination\u201d foi inspirado em seu interesse por hipnotismo. Mas o disco n\u00e3o tem um tema central, como \u201cDiamond Dogs\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quer dizer, n\u00e3o tinha um tema, at\u00e9 Bowie encontrar John Lennon em Nova York, entrar no Electric Lady Studios e gravar mais duas faixas: um cover meio sem gra\u00e7a de \u201cAcross the Universe\u201d, dos Beatles, e uma can\u00e7\u00e3o disco chamada \u201cFame\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A letra era uma tirada raivosa contra seu ent\u00e3o agente, Tony De Fries, com quem Bowie tinha acabado de romper, e a sonoridade misturava elementos de diversos sucessos da black music, como \u201cFootstompin\u2019\u201d (The Flairs), \u201cHollywood Swinging\u2019\u201d (Kool &amp; the Gang), \u201cThe Payback\u201d, de James Brown e \u201cDo It (Til You\u2019re Satisfied\u201d), do B.T. Express.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFame\u201d foi um estouro. O compacto foi o primeiro de Bowie a chegar ao topo da parada norte-americana. A vendagem de \u201cYoung Americans\u201d s\u00f3 seria superada, oito anos depois, por \u201cLet\u2019s Dance\u201d, at\u00e9 hoje o disco mais vendido da carreira do camale\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e3o grande foi o sucesso de \u201cFame\u201d &#8211; e t\u00e3o forte seu refr\u00e3o &#8211; que at\u00e9 hoje muita gente considera \u201cYoung Americans\u201d uma s\u00e1tira ao culto a celebridades, quando o disco \u00e9 bem mais rico e complexo que isso.<\/p>\n\n\n\n<p>E qu\u00e3o insanas foram as grava\u00e7\u00f5es? Basta dizer que, cinco anos depois, o guitarrista Earl Slick foi tocar no \u00e1lbum \u201cDouble Fantasy\u201d, que seria o \u00faltimo disco gravado por John Lennon, e se surpreendeu quando entrou no est\u00fadio e o ex-Beatle disse: \u201cQue bom te ver de novo, Earl!\u201d. Earl respondeu: \u201cMas onde diabos nos conhecemos?\u201d, e Lennon respondeu: \u201cOra, naquela sess\u00e3o de \u2018Fame\u2019, com o David\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Slick simplesmente n\u00e3o lembrava ter gravado \u201cFame\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>P.S.: Aproveito o texto sobre Bowie para recomendar, pela en\u00e9sima vez, um dos melhores livros sobre m\u00fasica que j\u00e1 li, \u201cO Homem Que Vendeu o Mundo \u2013 David Bowie e os Anos 70\u201d, uma an\u00e1lise, m\u00fasica a m\u00fasica, de todas as can\u00e7\u00f5es de Bowie na d\u00e9cada de 70 (leia mais aqui).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Texto originalmente publicado em 2015.<\/strong> Um \u00f3imo fim de semana todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A plateia que foi aos shows de David Bowie na Am\u00e9rica do Norte, no fim de 1974, deve ter levado um susto: no lugar dos cen\u00e1rios imensos e da banda de \u201crock\u201d que Bowie trouxera alguns meses antes, quando gravara o disco \u201cDavid Live\u201d, o camale\u00e3o aparecia agora ladeado por um grupo de m\u00fasicos desconhecidos. 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