{"id":2406,"date":"2022-10-31T10:42:32","date_gmt":"2022-10-31T10:42:32","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2406"},"modified":"2024-09-02T12:44:21","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:21","slug":"jerry-lee-lewis-adeus-ao-maior-fora-da-lei-do-rock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/jerry-lee-lewis-adeus-ao-maior-fora-da-lei-do-rock\/","title":{"rendered":"Jerry Lee Lewis: adeus ao maior fora-da-lei do rock"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uns dez anos, conversei com o jornalista Neil Strauss sobre seu livro de entrevistas com m\u00fasicos, chamado \u201cFama e Loucura\u201d (ali\u00e1s, recomendo demais o livro!). Strauss \u00e9 chegado ao lado mais obscuro e insano dos rockstars. Fez uma divertid\u00edssima biografia do Motley Crue e entrevistou gente como Tupac Shakur, o grupo Korn e Marilyn Manson. Perguntei a Neil se algum entrevistado j\u00e1 o havia amedrontado. \u201cS\u00f3 um\u201d, ele disse. \u201cJerry Lee Lewis. O sujeito \u00e9 um verdadeiro psicopata. A impress\u00e3o \u00e9 de que ele poderia me atacar a qualquer momento\u201d. Detalhe: Jerry Lee tinha 71 anos quando foi entrevistado por Strauss.<\/p>\n\n\n\n<p>Jerry Lee se foi esses dias, aos 87. Era o \u00faltimo remanescente daquela gera\u00e7\u00e3o de pioneiros do rock dos anos 50 \u2013 Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino, Bo Diddley \u2013 para quem a vida na estrada significava risco de vida. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer isso, quando lemos relatos de artistas que excursionavam pelo sul dos Estados Unidos nos anos 50, tocando a m\u00fasica do dem\u00f4nio num lugar onde negros eram linchados e pendurados em postes. Jerry Lee era branco e n\u00e3o sofreu o \u00f3dio racial como alguns de seus contempor\u00e2neos, mas sua m\u00fasica lasciva e violenta foi considerada inimiga da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um performer incendi\u00e1rio. Num palco, talvez s\u00f3 Little Richard pudesse se comparar a Jerry em termos de carisma e capacidade de dominar uma plateia. E ambos, curiosamente, atr\u00e1s de pianos. Para quem quiser ter uma ideia do poder explosivo do som de Jerry Lee, sugiro ouvir o \u00e1lbum \u201cLive at the Star Club \u2013 Hamburg\u201d, de 1964, em que Jerry, cercado por uma multid\u00e3o de marinheiros alem\u00e3es mangua\u00e7ados, inaugura o heavy metal em vers\u00f5es cabulosas como essa de \u201cMoney\u201d:<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZVtyHz4Gu7g\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>A carreira de Jerry Lee foi uma montanha-russa. Era um dos astros mais famosos do rock quando, durante uma excurs\u00e3o europeia, a imprensa descobriu que ele era casado com a prima de 13 anos de idade, e seu nome foi pra lama. Jerry Lee n\u00e3o entendeu nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m est\u00e1 defendendo o casamento com menores de idade, mas a verdade \u00e9 que, no sul dos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1950, isso n\u00e3o era t\u00e3o incomum. Chuck Berry fazia enorme sucesso com uma m\u00fasica chamada \u201cSweet Little Sixteen\u201d, depois gravada por artistas \u201cbonzinhos\u201d como Pat Boone e os Beatles e que era, basicamente, uma ode a meninas de 16 anos. Perspectiva hist\u00f3rica n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando a Jerry Lee: os vales e montanhas de sua carreira s\u00f3 tornaram sua trajet\u00f3ria ainda mais fascinante. Boicotado por promotores e gravadoras, passou anos tocando em lugares pequenos e indignos de sua fama, mas conseguiu ressuscitar a carreira e se tornar um grande nome da m\u00fasica country.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua vida foi um drama shakespeariano, marcado por mortes de filhos, encontros e desencontros com a religi\u00e3o, embates com parentes famosos, como o evangelista Jimy Swaggart, seu primo, ci\u00fames doentios da fama de Elvis (Jerry foi preso ao tentar invadir, armado, a mans\u00e3o do Rei), rios de u\u00edsque e montanhas de anfetamina.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea l\u00ea ingl\u00eas, sugiro \u201cHellfire\u201d, uma curta e po\u00e9tica biografia de Jerry Lee, escrita por Nick Tosches. Se n\u00e3o l\u00ea, estar\u00e1 muito bem servido com \u201cJerry Lee Lewis \u2013 Sua Pr\u00f3pria Hist\u00f3ria\u201d, de Nick Bragg.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte de Jerry Lee Lewis significa muito. \u00c9 clich\u00ea falar em \u201cfim de uma era\u201d, mas, aqui, faz todo o sentido. Jerry Lee era o \u00faltimo sobrevivente de um per\u00edodo glorioso do rock, quando o g\u00eanero simbolizava a liberdade individual e o antagonismo diante de uma sociedade racista e careta. O que ele e a gera\u00e7\u00e3o dele fizeram foi, verdadeiramente, hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u00f3tima semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uns dez anos, conversei com o jornalista Neil Strauss sobre seu livro de entrevistas com m\u00fasicos, chamado \u201cFama e Loucura\u201d (ali\u00e1s, recomendo demais o livro!). Strauss \u00e9 chegado ao lado mais obscuro e insano dos rockstars. 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