{"id":2397,"date":"2022-10-29T06:00:00","date_gmt":"2022-10-29T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2397"},"modified":"2024-09-02T12:44:21","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:21","slug":"do-arquivo-leonard-cohen-em-madri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/do-arquivo-leonard-cohen-em-madri\/","title":{"rendered":"Do Arquivo: Leonard Cohen em Madri"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Publicado originalmente em outubro de 2012<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O show j\u00e1 durava tr\u00eas horas e meia quando Leonard Cohen e banda terminaram a sequ\u00eancia matadora de \u201cI\u2019m Your Man\u201d, \u201cHallelujah\u201d e \u201cTake This Waltz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As 15 mil e tantas pessoas que enchiam o Palacio de Deportes de Madri perderam o ju\u00edzo: pais de fam\u00edlia correram em dire\u00e7\u00e3o ao palco, senhoras de apar\u00eancia respeit\u00e1vel esqueceram os assentos marcados e partiram em dire\u00e7\u00e3o ao homem. Muita gente chorava. Na nossa frente, tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es \u2013 neta, m\u00e3e e av\u00f3 \u2013 se abra\u00e7avam e gritava. &nbsp;Beatlemania.<\/p>\n\n\n\n<p>Leonard Cohen, com as m\u00e3os unidas num tradicional gesto de agradecimento budista, recolhia os buqu\u00eas de flores, as caixas de bombons e os bilhetes que os f\u00e3s haviam jogado no palco. A cena tinha uma beleza quase religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00fablico todo ficou de p\u00e9 e assim permaneceu enquanto a banda sa\u00eda do palco e retornava para o primeiro bis. Trinta minutos depois, quando Cohen terminou de cantar a sexta m\u00fasica do bis, todos continuavam de p\u00e9, gritando.<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro horas de show. Trinta e tr\u00eas m\u00fasicas. Uma maratona de emo\u00e7\u00e3o, inspira\u00e7\u00e3o e virtuosismo musical, comandada por um popstar de 78 anos. Nunca vi nada igual.<\/p>\n\n\n\n<p>O concerto teve uma comovente sensa\u00e7\u00e3o de despedida. Assim que entrou no palco, Cohen, vestido impecavelmente de terno e chap\u00e9u, disse: \u201cAmigos, n\u00e3o sei quando voltaremos a nos encontrar. Por isso, vamos fazer dessa noite um momento especial. Vamos dar a voc\u00eas tudo que temos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E deram mesmo. Ao final do show, Cohen estava esgotado. Sua voz falhava. Em algumas can\u00e7\u00f5es, como \u201cThe Gipsy\u2019s Wife\u201d, \u201cComing Back to You\u201d e \u201cAlexandra Leaving\u201d, ele nem cantou, limitando-se a admirar as cantoras. A plateia, percebendo seu esfor\u00e7o, o aplaudia ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A banda de Cohen tem nove m\u00fasicos, incluindo tr\u00eas cantoras e o extraordin\u00e1rio violonista catal\u00e3o Javier Mas, que, sozinho, j\u00e1 valeria o ingresso.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoalmente, achei alguns arranjos melodram\u00e1ticos demais. Na turn\u00ea anterior, me incomodou o saxofonista, dessa vez substitu\u00eddo por um violinista, igualmente perturbador. Prefiro os arranjos minimalistas dos discos. Me incomodei tamb\u00e9m com a overdose de vocais de apoio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 compreens\u00edvel que Cohen apele para arranjos mais \u201cgrandiosos\u201d: afinal, ele est\u00e1 tocando toda noite para 15, 20 mil pessoas, n\u00e3o numa cabar\u00e9 enfuma\u00e7ado. A Leonard, tudo se perdoa.<\/p>\n\n\n\n<p>A devo\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s \u00e9 impressionante. E mais ainda por se tratar de um artista que nunca fez nada de forma simpl\u00f3ria ou acess\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00fasica pop sempre foi sobre simplicidade, sobre dizer as coisas da forma mais simples e direta: \u201cEu te amo\u201d, \u201cEu te odeio\u201d, \u201cVamos farrear a noite toda\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Cohen sempre foi mais interessado na palavra do que na mensagem. Ele \u00e9 um esteta, para quem cada s\u00edlaba, cada v\u00edrgula, cada pausa, tem mil sentidos e mil interpreta\u00e7\u00f5es. Na m\u00fasica pop, s\u00f3 consigo pensar em Bob Dylan e Joni Mitchell como seus pares.<\/p>\n\n\n\n<p>A seu modo, Leonard Cohen \u00e9 um popstar. E sabe disso. No show, ele tirava os chap\u00e9us para as cantoras e ajoelhava ao lado dos m\u00fasicos a cada solo. Sua voz, embora n\u00e3o tenha mais a pot\u00eancia de outros tempos, ainda consegue emocionar. Seu fraseado \u00e9 perfeito, e a maneira como canta, ora sussurrando, ora narrando, \u00e9 \u00fanica e inimit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ele pr\u00f3prio diz em \u201cTower of Song\u201d: \u201cEu nasci assim, n\u00e3o tive escolha \/ Eu fui aben\u00e7oado com uma voz de ouro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O repert\u00f3rio foi irretoc\u00e1vel. Cl\u00e1ssicos como \u201cDance Me To The End of Love\u201d, \u201cBird on a Wire\u201d e \u201cSuzanne\u201d se misturaram a can\u00e7\u00f5es do ultimo disco e a raridades como \u201cThe Guests\u201d, que ele n\u00e3o havia tocado nessa turn\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final, Cohen disse: \u201cEspero, de cora\u00e7\u00e3o, que possamos nos encontrar novamente\u201d, antes de liderar a banda numa linda vers\u00e3o de \u201cSave the Last Dance for Me\u201d, do The Drifters. E 15 mil pessoas sa\u00edram atordoadas de beleza pela noite de Madri, pensando se aquele teria sido, de fato, o \u00faltimo encontro com Leonard Cohen.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P.S.: E foi mesmo.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em outubro de 2012 O show j\u00e1 durava tr\u00eas horas e meia quando Leonard Cohen e banda terminaram a sequ\u00eancia matadora de \u201cI\u2019m Your Man\u201d, \u201cHallelujah\u201d e \u201cTake This Waltz\u201d. 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