{"id":2333,"date":"2022-09-16T06:00:00","date_gmt":"2022-09-16T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2333"},"modified":"2024-09-02T12:44:21","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:21","slug":"sandro-o-cigano-que-inspirou-sidney-magal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/sandro-o-cigano-que-inspirou-sidney-magal\/","title":{"rendered":"Sandro, o \u201ccigano\u201d que inspirou Sidney Magal"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem assina a Amazon Prime j\u00e1 se acostumou com o caos que \u00e9 a sele\u00e7\u00e3o da plataforma. A navega\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 das mais f\u00e1ceis, e frequentemente nos deparamos com filmes sem legendas em portugu\u00eas, ou classificados de forma estapaf\u00fardia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dias, fu\u00e7ando na Amazon, dei de cara com uma d\u00fazia de filmes estrelados pelo \u00eddolo pop argentino Sandro. Nascido Roberto Sanchez Ocampo em 1945 e morto em 2010, Sandro ficou conhecido na Argentina no in\u00edcio dos anos 60 tocando rock com a banda Los de Fuego, mas virou um imenso astro popular na virada dos 70, cantando baladas rom\u00e2nticas e assumindo a alcunha de \u201cO Cigano\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei assistir a trechos de alguns dos filmes, mas s\u00e3o muito ruins, pura explora\u00e7\u00e3o da imagem rom\u00e2ntica e brega de Sandro, <em>crooner<\/em> de estilo melodram\u00e1tico que usa camisas coloridas abertas no peito e faz biquinho para parecer sensual. Mas, no meio de tanta baboseira \u2013 \u201cSandro salva um orfanato!\u201d, \u201cSandro ajuda um acampamento de ciganos!\u201d \u2013 h\u00e1 um document\u00e1rio feito em 2018, chamado \u201cYo Sandro, La Pel\u00edcula\u201d. \u00c9 um filme pobre e um tanto amador (e exibido sem legendas!), com encena\u00e7\u00f5es de passagens da vida do astro, mas vale por algumas cenas de arquivo muito interessantes que mostram o tamanho da popularidade de Sandro na Argentina e no mundo (\u00e9 impressionante v\u00ea-lo cantando no Madison Square Garden, em Nova York).<\/p>\n\n\n\n<p>Para o p\u00fablico brasileiro, a figura de Sandro \u00e9 marcante por uma raz\u00e3o singular: foi calcado na imagem dele que surgiu um de nossos maiores astros pop dos anos 70: Sidney Magal.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja Sandro interpretando um de seus grandes hits\u2019, \u201cTengo\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/86maVJ-5a1w\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>E Magal cantando a vers\u00e3o em portugu\u00eas, \u201cTenho\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FgM5WLoryDo\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n\n\n\n<p>A g\u00eanese de Magal \u00e9 fascinante. O personagem de Magal \u201cCigano\u201d foi criado em 1977 por um espert\u00edssimo produtor e m\u00fasico argentino chamado Roberto Livi, que havia feito relativo sucesso no Brasil nos anos 60 cantando na Jovem Guarda e depois foi produtor, compositor e empres\u00e1rio de artistas como Peninha, Z\u00e9 Rodrix e Lilian. Livi viu Magal cantando Bossa Nova (Magal era primo de segundo grau de Vinicius de Moraes) num restaurante no Rio de Janeiro e teve a ideia de transform\u00e1-lo na vers\u00e3o brasileira de Sandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2012, entrevistei Livi por telefone de Miami, onde ele vivia desde meados dos anos 80, produzindo discos em espanhol de Julio Iglesias, Raphael e Roberto Carlos. Aqui v\u00e3o trechos da entrevista, publicada em meu livro \u201cPav\u00f5es Misteriosos\u201d, em que Livi fala de como criou Magal, \u201cO Cigano\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Quando o senhor viu o Magal pela primeira vez?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Recebi um convite do Pedrinho da Luz, dos Fevers, que havia sido contratado como diretor art\u00edstico da Polygram, para trabalhar com ele. Ent\u00e3o eu fui para a Polygram, e ele me mandou dar uma olhada num cantor que estava se apresentando numa pizzaria na Barra da Tijuca: \u201cVai l\u00e1, d\u00e1 uma olhada, porque ele est\u00e1 na companhia, lan\u00e7amos o disco e n\u00e3o vendeu\u201d. Era o Sidney Magal. Assim que ele cantou \u201cMaracangalha\u201d, me emocionei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"942\" height=\"623\" src=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Roberto-Livi.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-2335\" srcset=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Roberto-Livi.webp 942w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Roberto-Livi-600x397.webp 600w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Roberto-Livi-768x508.webp 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 942px) 100vw, 942px\" \/><figcaption>Roberto Livi, &#8220;inventor&#8221; do Sidney Magal &#8220;Cigano&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><em>Ele j\u00e1 tinha o visual latino?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Isso tudo foi invento meu, o cigano, todas aquelas coisas. Eu tinha um \u00eddolo na Argentina, que chamava Sandro, e percebi que o Magal poderia ser um Sandro brasileiro. N\u00e3o que ele imitasse o Sandro, mas seguimos aquela linha e foi bom. Magal explodiu no Brasil todo. Ficamos v\u00e1rios anos juntos. Foram anos de muito dinheiro, triunfamos muito, fizemos um filme juntos, \u201cAmante Latino\u201d [com roteiro de Paulo Coelho!]. Magal era um dan\u00e7arino espetacular. Fizemos uma parceria t\u00e3o grande que eu opinava em tudo: roupa, repert\u00f3rio, ele n\u00e3o mexia um dedo sem falar comigo. Eu fazia coisas que aqui n\u00e3o tinham sido feitas. Por exemplo: naquele tempo, os artistas n\u00e3o faziam dois shows em uma mesma noite, porque no Rio, com os t\u00faneis, com as montanhas, era dif\u00edcil chegar a dois shows. Eu contratei uma ambul\u00e2ncia e n\u00f3s faz\u00edamos at\u00e9 tr\u00eas shows por noite.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>O Magal me disse que escapou de v\u00e1rios shows quebrando paredes.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu botava no contrato que clube que n\u00e3o tivesse porta pelos fundos tinha que fazer um buraco, e todo mundo quebrava a parede. Porque era rid\u00edculo um \u00eddolo daquele tamanho tendo que entrar pela frente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Os primeiros discos do Sidney Magal s\u00e3o muito calcados na discoteca, que estava bombando na \u00e9poca.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eles foram calcados em algo que n\u00e3o existia no Brasil. No Brasil, existiam os cantores que eram muito rom\u00e2nticos e parados, n\u00e3o havia um cara que dan\u00e7asse. Antes do Magal, os cantores brasileiros chegavam ao palco, jogavam a \u00e2ncora e come\u00e7avam a cantar. O Magal acabou com isso. Esse \u00e9 o motivo da explos\u00e3o do Magal: ele sabia dan\u00e7ar como um Travolta. E eu era um empres\u00e1rio que sabia o que queria. Vai parecer um \u201cargentinismo\u201d o que vou dizer, mas \u00e9 verdade: se o Chacrinha queria o Magal, eu falava que ele s\u00f3 ia ao programa se cantasse duas m\u00fasicas. \u201cMas no Chacrinha s\u00f3 cantam uma m\u00fasica\u201d. Ent\u00e3o ele n\u00e3o vai. Havia gente que me odiava, mas eu defendia os meus artistas e as minhas ideias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Em 1977, 78, o Magal foi o artista mais popular do Brasil, n\u00e3o foi?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sem d\u00favida.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Magal tamb\u00e9m falou para mim sobre o encontro com Livi:<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Como foi o encontro com ele?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o foi bem o Livi que me inventou, mas quem me descobriu. Na \u00e9poca, algumas revistas, como a \u201cVeja\u201d, e outras que eram mais elitizadas, diziam que eu era um artista de laborat\u00f3rio, que tinha sido criado por uma gravadora pelas m\u00e3os de dois, como chamaram na \u00e9poca, \u201cDoutores Frankenstein\u201d: Roberto Livi e Paulo Coelho. Apesar de me sentir muito envaidecido por ter trabalhado muito com o Paulo e ter gravado, inclusive, m\u00fasicas que ele comp\u00f4s para mim, at\u00e9 vers\u00f5es que ele escreveu, o Paulo Coelho n\u00e3o foi o respons\u00e1vel pela minha carreira, n\u00e3o foi o cara que deu as dicas do que era bom para a minha carreira. Quem deu essas dicas foi o Roberto Livi. Roberto Livi foi um cantor da Jovem Guarda, latino, que tinha toda a latinidade que eu tenho no meu trabalho, que se identificou com isso. Ele foi o cara que come\u00e7ou a selecionar repert\u00f3rio para mim, escolheu vers\u00f5es de cantores da Am\u00e9rica Latina e, inclusive, foi o compositor de \u201cSandra Rosa Madalena\u201d, que \u00e9 o hit da minha vida. Livi era o diretor da gravadora [Polydor] e foi o cara que, realmente, deu muitas dicas importantes para que a minha carreira desse certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Onde o Livi te descobriu?<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ele me descobriu cantando. Quando eu cantava em churrascaria, na volta da Europa, recebi um convite para fazer um teste na Polydor. Gravei uma vers\u00e3o para \u201cOh Very Young\u201d, do Cat Stevens, o t\u00edtulo era \u201cO Velho Sonho\u201d. O meu teste foi t\u00e3o bom que decidiram lan\u00e7ar em disco. Eu gravei de um lado \u201cOh Very Young\u201d e, na \u00e9poca, o diretor art\u00edstico da gravadora, que ainda n\u00e3o era o Livi, escolheu para o outro lado \u201cSe Te Agarro Com Outro Te Mato\u201d, que era uma vers\u00e3o de uma m\u00fasica de um cantor argentino [Cacho Casta\u00f1a] e que virou o primeiro grande sucesso da minha vida. Mas, quando lan\u00e7aram, as emissoras todas disseram: \u201cN\u00e3o, Deus me livre, isso \u00e9 muito popular, isso \u00e9 muito brega, n\u00e3o tem qualidade\u201d. Nisso, o Livi foi contratado pela Polydor como produtor e escolheu os artistas que ele queria trabalhar. Escolheu Peninha, Lilian, Alcione e Sidney Magal. Ele me disse: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 na linha certa, eu tenho um repert\u00f3rio monstruoso para voc\u00ea, mas n\u00e3o podemos construir nenhum trabalho em cima de um fracasso, ent\u00e3o vamos ter que estourar essa m\u00fasica \u2018Se Te Agarro Com Outro Eu Te Mato\u2019 de qualquer maneira. E j\u00e1 que os comunicadores n\u00e3o gostaram muito da m\u00fasica, est\u00e1 na hora de mostrar voc\u00ea, porque de voc\u00ea, eu tenho certeza que eles v\u00e3o gostar\u201d. O Livi come\u00e7ou ent\u00e3o a ligar para todas as TVs e r\u00e1dios, me ofereceu para o Silvio Santos, que me botou no programa \u201cOs Gal\u00e3s Cantam e Dan\u00e7am\u201d. Um dia, o Walter Lacet, do \u201cGlobo de Ouro\u201d, ligou para o Livi: \u201cBicho, eu quero esse Magal, esse cara \u00e9 demais, ele \u00e9 muito bom. A m\u00fasica \u00e9 ruim, mas o cara \u00e9 muito bom de palco, tem uma imagem do cacete\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Roberto Livi morreu na Fl\u00f3rida, em janeiro de 2019, aos 76 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo fim de semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem assina a Amazon Prime j\u00e1 se acostumou com o caos que \u00e9 a sele\u00e7\u00e3o da plataforma. 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