{"id":2330,"date":"2022-09-13T14:24:45","date_gmt":"2022-09-13T14:24:45","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2330"},"modified":"2024-09-02T12:44:35","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:35","slug":"por-que-godard-importa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/por-que-godard-importa\/","title":{"rendered":"Por que Godard importa"},"content":{"rendered":"\n<p>Na hist\u00f3ria do cinema h\u00e1 muitos g\u00eanios, mas poucos inovadores. N\u00e3o s\u00e3o muitos os artistas que criaram coisas que n\u00e3o existiam antes deles. Na ordem, podemos citar Griffith, que na d\u00e9cada de 1910 inventou a \u201cgram\u00e1tica\u201d cinematogr\u00e1fica, depois Chaplin e Keaton, que, nos anos 1920, mostraram o que era poss\u00edvel fazer com uma c\u00e2mera e deram movimento e fluidez ao cinema, e Eisenstein, que usou a montagem como arma narrativa. A esse grupo seleto, \u00e9 preciso incluir o nome de Jean Luc-Godard.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Godard, morto em 13 de setembro de 2022, aos 91 anos, fez na d\u00e9cada de 1960, junto a seus amigos da Nouvelle Vague \u2013 Truffaut, Chabrol, Rivette, Varda, entre outros \u2013 foi revolucionar a narrativa cinematogr\u00e1fica e libert\u00e1-la de f\u00f3rmulas que aprisionavam o cinema em um formato r\u00edgido. \u201cUm filme tem come\u00e7o, meio e fim, n\u00e3o necessariamente nessa ordem\u201d, era um dos mantras de Godard.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcossado\u201d (1960), estreia do diretor, foi um dos marcos (junto a \u201cOs Incompreendidos\u201d, de Truffaut, e \u201cLa Pointe Courte\u201d, de Agn\u00e8s Varda) do experimentalismo e liberdade defendidos pela Nouvelle Vague. Tudo era novo: a maneira de filmar, com c\u00e2meras leves e carregadas em ombros e movidas em cadeiras de rodas; a montagem, com cortes abruptos e \u201caos pulos\u201d, que destoavam da fluidez da montagem cl\u00e1ssica; as atua\u00e7\u00f5es, em que os personagens podiam falar diretamente para a c\u00e2mera ou como se estivessem lendo as falas num livro. Mais importante do que a hist\u00f3ria, era a maneira de cont\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>A Nouvelle Vague foi um paradoxo: ao mesmo tempo em que combatia o que considerava as f\u00f3rmulas emboloradas do cinema (especialmente do \u201ccinem\u00e3o\u201d comercial franc\u00eas dos anos 50), celebrava cineastas do passado e buscava valorizar artistas at\u00e9 ent\u00e3o pouco considerados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nomes como Hitchcock, Hawks, Lang, Murnau, Nicholas Ray, Welles, Fuller e tantos outros mereceram, nas cr\u00edticas escritas por essa turma na revista \u201cCahiers du Cin\u00e9ma\u201d, longos artigos de reavalia\u00e7\u00e3o. Hoje \u00e9 f\u00e1cil elogiar a genialidade de Hitchcock, mas poucos sabem que, at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o do livro de entrevistas \u201cHitchock-Truffaut\u201d, em meados dos anos 1960, o cineasta ingl\u00eas ainda era considerado um diretor comercial de filmes banais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esses jovens cr\u00edticos da \u201cCahiers\u201d come\u00e7aram a fazer filmes, puseram em pr\u00e1tica as teorias que vinham desenvolvendo h\u00e1 anos: o cinema tinha uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria e precisava se livrar das influ\u00eancias liter\u00e1rias; a perfei\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica nada valia se fosse utilizada de forma banal; o verdadeiro \u201cautor\u201d de um filme era seu diretor.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u201cteoria do autor\u201d, criada pelo mentor de todos eles na \u201cCahiers\u201d, o cr\u00edtico Andr\u00e9 Bazin, foi motivo de discuss\u00f5es acaloradas entre estudiosos norte-americanos e europeus. Pessoalmente, acho que a ideia n\u00e3o se sustenta numa ind\u00fastria do cinema t\u00e3o estratificada e controlada como a de Hollywood, mas faz sentido quando se refere a cineastas europeus como Bergman, Bu\u00f1uel e o pr\u00f3prio Godard, que n\u00e3o precisavam se submeter aos des\u00edgnios de produtores e mantiveram controle criativo quase que total sobre seus filmes.<\/p>\n\n\n\n<p>Godard sempre foi um provocador. Os filmes que ele fez, especialmente na primeira metade da d\u00e9cada de 1960 \u2013 \u201cAcossado\u201d, \u201cUma Mulher \u00e9 uma Mulher\u201d, \u201cO Desprezo\u201d, \u201cBande \u00e0 Part\u201d, \u201cPierrot le Fou\u201d \u2013 mudaram o cinema para sempre. Depois, n\u00e3o contente em mudar o cinema, ele quis mudar o mundo, e sua obra foi ficando cada vez mais herm\u00e9tica e combativa, com filmes pol\u00edticos e \u201cdif\u00edceis\u201d. Entre o primeiro e o \u00faltimo longa de Godard se foram 68 anos, e ele nunca fez uma concess\u00e3o criativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que celebrar seus filmes, \u00e9 preciso valorizar seu esp\u00edrito e influ\u00eancia. Porque \u00e9 imposs\u00edvel pensar em um cineasta importante dos \u00faltimos 60 anos que n\u00e3o tenha sido motivado pelas li\u00e7\u00f5es de liberdade e antagonismo \u00e0s conven\u00e7\u00f5es deixadas por Godard e pela Nouvelle Vague.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na hist\u00f3ria do cinema h\u00e1 muitos g\u00eanios, mas poucos inovadores. N\u00e3o s\u00e3o muitos os artistas que criaram coisas que n\u00e3o existiam antes deles. 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