{"id":2254,"date":"2022-08-17T06:00:00","date_gmt":"2022-08-17T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2254"},"modified":"2024-09-02T12:44:35","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:35","slug":"que-tal-uma-sessao-tripla-de-nick-cave","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/que-tal-uma-sessao-tripla-de-nick-cave\/","title":{"rendered":"Que tal uma sess\u00e3o tripla de Nick Cave?"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, entrevistei o cineasta australiano Andrew Dominik sobre \u201cThis Much I Know To Be True\u201d, document\u00e1rio sobre a colabora\u00e7\u00e3o de Nick Cave com Warren Ellis (leia <a href=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/entrevista-andrew-dominik-e-o-novo-doc-sobre-nick-cave\/\">aqui<\/a>). O filme est\u00e1 na plataforma MUBI.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que o MUBI, inteligentemente, programou tamb\u00e9m o filme anterior de Dominik, \u201cOne More Time With Feeling\u201d (2016), outro document\u00e1rio sobre Cave. Vistos na sequ\u00eancia, formam uma sess\u00e3o dupla que documenta os \u00faltimos seis ou sete anos da carreira do cantor e compositor.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Hdl5sox2G6g\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>\u201cOne More Time With Feeling\u201d \u00e9 lindo, fotografado num preto e branco altamente contrastado, e captura Cave durante a grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum \u201cSkeleton Tree\u201d. O disco foi marcado por uma grande trag\u00e9dia na vida do artista, a morte do filho, Arthur. \u00c0 \u00e9poca do lan\u00e7amento do filme, escrevi:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Skeleton Tree&#8221;, novo disco de Nick Cave \u2013 e o 16\u00ba com a banda The Bad Seeds \u2013 abre com uma faixa chamada &#8220;Jesus Alone&#8221;. O primeiro verso da letra diz: &#8220;Voc\u00ea caiu do c\u00e9u \/ e se espatifou num campo \/ pr\u00f3ximo ao rio Adur&#8221; (&#8220;You fell from the sky \/ crash landed in a field \/ near the river Adur&#8221;).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Para um ouvinte qualquer, o verso n\u00e3o \u00e9 muito diferente de centenas de outros escritos por Cave em sua carreira de quase 40 anos, com o poder descritivo e quase jornal\u00edstico de suas letras, que transporta o ouvinte imediatamente para uma cena sa\u00edda da imagina\u00e7\u00e3o do autor. Para quem est\u00e1 familiarizado com as circunst\u00e2ncias sob as quais o disco foi composto, no entanto, ouvir uma frase dessas \u00e9 um soco no est\u00f4mago.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em julho de 2015, o filho de Cave, Arthur, de 15 anos, morreu ao cair acidentalmente de um penhasco pr\u00f3ximo a Brighton, onde mora a fam\u00edlia. O rio Adur corta a regi\u00e3o de Sussex, onde fica Brighton. Nick Cave e seus parceiros do Bad Seeds j\u00e1 trabalhavam no disco quando a trag\u00e9dia aconteceu. Cave reescreveu v\u00e1rias letras do \u00e1lbum, incorporando \u00e0s can\u00e7\u00f5es uma po\u00e9tica dilacerante. O resultado \u00e9 extremo at\u00e9 para um compositor acostumado ao l\u00fagubre e sombrio. Com a sonoridade espartana e atmosf\u00e9rica do disco, cheio de texturas eletr\u00f4nicas, quase &#8220;ambient&#8221;, &#8220;Skeleton Tree&#8221; \u00e9 um dos trabalhos mais tristes de Cave, mas lindo em sua crueza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Para evitar dar entrevistas sobre o disco e falar com a imprensa sobre a morte do filho, Cave convidou o cineasta Andrew Dominik (&#8220;O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford&#8221;) para filmar as grava\u00e7\u00f5es de &#8220;Skeleton Tree&#8221;. O resultado \u00e9 o document\u00e1rio &#8220;One More Time With Feeling&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E se voc\u00ea n\u00e3o teve uma overdose de Nick Cave depois de ver esses dois filmes, recomendo procurar o melhor document\u00e1rio feito sobre o artista: \u201c20000 Days on Earth\u201d (2014), dirigido porJane Pollard e Iain Forsyth. Em 2014, escrevi sobre o filme:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 um dos melhores filmes do ano. Talvez o melhor. Cham\u00e1-lo de \u201cdocument\u00e1rio\u201d n\u00e3o \u00e9 correto. \u201cFilme-ensaio biogr\u00e1fico\u201d chega mais perto da verdade. Dirigido por Jane Pollard e Iain Forsyth, um casal talentoso que j\u00e1 colaborou em projetos audiovisuais com Gill Scott-Heron, Scott Walker e Jason Pierce (Spiritualized), o filme tenta captar a ess\u00eancia do que \u00e9 ser Nick Cave. O resultado \u00e9 fascinante &#8211; e aterrador.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nem sinal daquelas entrevistas posadas em que amigos, parentes e especialistas falam, com voz de Deus, sobre Nick Cave e sua obra. As conversas do filme s\u00e3o realizadas em ambientes inusitados: o pr\u00f3prio Cave \u00e9 mostrado em sess\u00f5es com um psicanalista, em que lembra a inf\u00e2ncia, fala das inspira\u00e7\u00f5es para suas m\u00fasicas, de seus problemas com hero\u00edna, da fam\u00edlia e de suas mulheres. Cave conta ao doutor que um de seus passatempos prediletos de inf\u00e2ncia em Wangaratta, sudeste da Austr\u00e1lia, era correr com amiguinhos em uma ponte sobre um rio e pular segundos antes de ser atropelado por um trem. \u201cAs crian\u00e7as de hoje n\u00e3o experimentam mais o perigo, e acho isso muito ruim.\u201d Logo depois, Cave aparece com os dois filhos pequenos assistindo a \u201cScarface\u201d, de Brian De Palma.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O pr\u00f3prio cantor \u201centrevista\u201d alguns amigos e colaboradores, como o ator Ray Winstone, a popstar Kylie Minogue e o m\u00fasico Blixa Bargeld (Einst\u00fcrzende Neubauten), seu ex-parceiro por 20 anos no Bad Seeds. Esses papos s\u00e3o antol\u00f3gicos. Cave aproveita a conversa com Blixa para resolver uma quest\u00e3o que o atormenta h\u00e1 anos: \u201cBlixa, por que voc\u00ea deixou o Bad Seeds?\u201d Blixa responde que n\u00e3o se sentia capaz de manter o \u201ccasamento\u201d com duas bandas e optou pelo Neubauten, mas aproveita para dar uma cutucada em Cave: \u201cNo \u00faltimo disco que fiz com voc\u00eas (\u201cNocturama\u201d, 2003), senti que j\u00e1 n\u00e3o havia aquela colabora\u00e7\u00e3o intensa de antes. Voc\u00ea chegou com ideias pr\u00e9-definidas sobre como seria o \u00e1lbum.\u201d Cave faz um mea culpa e depois diz: \u201cSabe, \u00e0s vezes ou\u00e7o os discos que fizemos juntos (foram 12) e penso como teria sido bom ter algu\u00e9m para editar as m\u00fasicas, que cortasse as can\u00e7\u00f5es de seis para quatro minutos, algu\u00e9m que editasse nosso trabalho. Hoje em dia, sou obcecado por edi\u00e7\u00e3o e concis\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 muito raro ver dois grandes artistas se expondo dessa maneira. Visualmente, \u201c20,000 Days on Earth\u201d n\u00e3o poderia ser mais bonito. Uma sequ\u00eancia que mostra Cave visitando seu parceiro musical Warren Ellis em uma mans\u00e3o \u00e0 beira de um penhasco no sul da Fran\u00e7a \u00e9 impressionante, assim como imagens dos Bad Seeds gravando o disco \u201cPush The Sky Away\u201d e algumas cenas de shows, incluindo uma arrebatadora vers\u00e3o de \u201cJubilee Street\u201d filmada na Austr\u00e1lia. Veja e chore:<\/em><\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Kuu8Vb_evfs\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p><em>&#8220;No fim das contas, n\u00e3o me interesso por aquilo que compreendo totalmente&#8221;. Lindo. O filme \u00e9 inventivo, informativo, e mostra como o cinema documental pode surpreender, sem apelar a clich\u00eas televisivos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c20000 Days on Earth\u201d pode ser alugado na plataforma do In-Edit TV. N\u00e3o deixe de assistir.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo dia a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, entrevistei o cineasta australiano Andrew Dominik sobre \u201cThis Much I Know To Be True\u201d, document\u00e1rio sobre a colabora\u00e7\u00e3o de Nick Cave com Warren Ellis (leia aqui). O filme est\u00e1 na plataforma MUBI. 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