{"id":2104,"date":"2022-07-29T06:00:00","date_gmt":"2022-07-29T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2104"},"modified":"2024-09-02T12:44:35","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:35","slug":"como-a-cena-de-baile-dominou-a-musica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/como-a-cena-de-baile-dominou-a-musica-brasileira\/","title":{"rendered":"Como a cena de baile dominou a m\u00fasica brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p>Meu saudoso tio Paulinho Albuquerque era um produtor musical muito conhecido que trabalhou com Djavan, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Leny Andrade, Guinga, Tom Jobim e muitos outros artistas importantes. Amava m\u00fasica e tinha um gosto sofisticado e ecl\u00e9tico (foi ele que inventou o Casseta e Planeta como grupo musical, por exemplo). Paulinho foi curador de jazz do Free Jazz Festival, era amigo de Zuza Homem de Mello e Quincy Jones e vivia nos festivais de jazz e world music pelo mundo (quem quiser saber mais sobre ele pode acessar <a href=\"https:\/\/comendadoralbuquerque.wordpress.com\/\">esse blog<\/a>, que o \u201cCasseta\u201d Reinaldo Figueiredo mant\u00e9m h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada em homenagem ao amigo).<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 80, eu era adolescente e adorava conversar com Paulinho sobre m\u00fasica. Ele contava altas hist\u00f3rias sobre os festivais e as experi\u00eancias de trabalhar com artistas diversos. Um dia, ele disse uma frase que nunca me saiu da cabe\u00e7a: \u201cEssa turma dos bailes fodeu a m\u00fasica brasileira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca, eu n\u00e3o entendi a frase, mas hoje entendo. N\u00e3o concordo, mas entendo. Paulinho vinha de uma tradi\u00e7\u00e3o purista da m\u00fasica brasileira, tinha uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica e idealizada da m\u00fasica e, nos anos 80, via a nossa ind\u00fastria do disco ser dominada por uma filosofia mais comercial e pragm\u00e1tica, que buscava o lucro a qualquer pre\u00e7o. Naquela \u00e9poca, nossa m\u00fasica era quase que totalmente dominada por profissionais que tinham tocado em bandas de baile. Essa domina\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema que merecia um estudo mais profundo, porque realmente mudou a concep\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do disco no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o meio dos anos 70, nossa ind\u00fastria ainda era meio que amadora (e digo isso como elogio). O Milagre Econ\u00f4mico aumentou muito a base de compradores de discos no Brasil, mas as gravadoras ainda eram controladas por pessoas que acreditavam em apoiar artistas de carreiras longevas. Mais importante que vender 300 mil discos, era ter no cast artistas que poderiam vender 50 mil discos durante muitos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na virada dos 70 para os 80, ocorreu um fen\u00f4meno mundial de mudan\u00e7as na ind\u00fastria do disco, em que gravadoras cl\u00e1ssicas foram compradas ou incorporadas a grupos industriais que, muitas vezes, nem tinham liga\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica. Selos diminu\u00edram seus elencos, ficando apenas com os artistas que vendiam mais. Tamb\u00e9m passaram a investir fortunas em divulga\u00e7\u00e3o no r\u00e1dio e TV, aproveitando a popularidade da ent\u00e3o novata MTV. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que foi o per\u00edodo dos chamados \u201csuperastros\u201d, em que surgiram nomes como Madonna e Prince, e veteranos como Bowie, Springsteen, Elton John, Michael Jackson e Tina Turner viraram artistas \u201cde est\u00e1dio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, essa mudan\u00e7a foi vis\u00edvel. Gravadoras mandaram para c\u00e1 executivos holandeses, espanh\u00f3is e mexicanos que transformaram nossa ind\u00fastria. Elencos foram enxugados (s\u00f3 a Phillips mandou embora quase 80% do elenco), artistas talentosos, mas de vendagens medianas, foram sumariamente despedidos. E as gravadoras passaram a contratar, a rodo, m\u00fasicos e produtores veteranos que tinham em comum o fato de terem iniciado suas carreiras art\u00edsticas tocando em bailes.<\/p>\n\n\n\n<p>A cena de bailes em todas as regi\u00f5es do Brasil foi gigantesca. Em S\u00e3o Paulo, as festas mais conhecidas eram as chamadas \u201cDomingueiras\u201d em clubes como C\u00edrculo Militar, Harmonia e Paulistano, que revelaram conjuntos como Lee Jackson, Pholhas, Memphis, Watt 69 e Sunday. No Rio, a cena era concentrada nos sub\u00farbios e Baixada Fluminense, em clubes como Nilopolitano, Ideal de Olinda, Cassino Bangu, Pavunense, Leopoldinense e muitos outros. Grupos como Os Famks (que depois viraria Roupa Nova), Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, Canibais, Devaneios, Lafayette e muitos outros animavam a mo\u00e7ada com sets que duravam at\u00e9 quatro horas e inclu\u00edam de tudo: rock, pop, discoteca, soul, funk, samba, at\u00e9 rock progressivo (o grande Lincoln Olivetti impressionava a todos tocando Emerson, Lake &amp; Palmer e Jethro Tull).<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00fasicos que cresceram nos bailes tinham uma vantagem \u201ccomercial\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que havia despontado nos festivais universit\u00e1rios: por terem tocado todo tipo de m\u00fasica para um p\u00fablico amplo, pareciam compreender melhor o gosto popular. D\u00e1 para entender por que, a partir de fim dos anos 1970, quando a cena de bailes deu uma murchada com a explos\u00e3o da discoteca e a ascens\u00e3o do DJ e da m\u00fasica mec\u00e2nica, boa parte dessa m\u00e3o de obra foi absorvida pelas gravadoras, que lotaram seus departamentos art\u00edstico, de produ\u00e7\u00e3o, vendas e divulga\u00e7\u00e3o com m\u00fasicos que vieram dos bailes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel pegar a lista de diretores de quaisquer gravadoras brasileiras dos anos 80 e n\u00e3o encontrar muitos ex-m\u00fasicos de baile. O grupo paulistano Lee Jackson, por exemplo, era formado por cinco integrantes \u2013 Claudio Cond\u00e9, Luiz Carlos Maluly, Marco Bissi, S\u00e9rgio Lopes e Marcos Maynard. Todos se tornaram importantes executivos. J\u00e1 H\u00e9lio Costa Manso, do Sunday (e que tamb\u00e9m havia gravado em ingl\u00eas com o nome de Steve Maclean) foi diretor da RGE e Som Livre.<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio, todas as grandes bandas de baile ofereceram produtores, arranjadores e executivos para as gravadoras, de Max Pierre (Canibais) e os irm\u00e3os Barros (Renato e Seus Blue Caps), a Miguel Plopschi (saxofonista dos Fevers e depois chef\u00e3o da EMI e RCA). M\u00fasicos como Lincoln Olivetti, Ronaldo Barcellos, Robson Jorge, Michael Sullivan, Paulo Massadas, Rosana e todos os membros do Roupa Nova tamb\u00e9m vieram dos bailes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o de Paulinho, isso \u201cfodeu\u201d com a m\u00fasica brasileira. Eu vejo o fen\u00f4meno como uma coisa inevit\u00e1vel e totalmente em sintonia com o que estava acontecendo l\u00e1 fora. De qualquer forma, \u00e9 indiscut\u00edvel que a turma dos bailes tornou a m\u00fasica brasileira mais comercial. \u00c9 um per\u00edodo fascinante de nossa ind\u00fastria.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo fim de semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu saudoso tio Paulinho Albuquerque era um produtor musical muito conhecido que trabalhou com Djavan, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Leny Andrade, Guinga, Tom Jobim e muitos outros artistas importantes. Amava m\u00fasica e tinha um gosto sofisticado e ecl\u00e9tico (foi ele que inventou o Casseta e Planeta como grupo musical, por exemplo). 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