{"id":2031,"date":"2022-06-27T06:00:00","date_gmt":"2022-06-27T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=2031"},"modified":"2024-09-02T12:44:36","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:36","slug":"o-filme-suicida-de-dennis-hopper","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/o-filme-suicida-de-dennis-hopper\/","title":{"rendered":"O filme suicida de Dennis Hopper"},"content":{"rendered":"\n<p>A plataforma Belas Artes \u00e0 La Carte exibe um filme absolutamente imperd\u00edvel: \u201cThe Last Movie\u201d (1971), de Dennis Hopper. E por \u201cimperd\u00edvel\u201d n\u00e3o quero dizer, necessariamente, que seja um grande filme. Na verdade, \u00e9 uma obra t\u00e3o estranha e idiossincr\u00e1tica que at\u00e9 hoje divide opini\u00f5es: alguns \u2013 especialmente na Europa \u2013 a consideram uma obra-prima do cinema de inven\u00e7\u00e3o. Para a maioria, no entanto, \u00e9 um filme amador feito por um psic\u00f3tico descontrolado de peyote, coca\u00edna e mescalina.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 preciso assistir a \u201cThe Last Movie\u201d, at\u00e9 para entender a din\u00e2mica insana da ind\u00fastria de cinema americano do fim dos anos 1960, que deu origem \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que hoje conhecemos por \u201cNova Hollywood\u201d.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/E7038IZw_MQ\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Filmado no Peru, o filme, na teoria, conta a hist\u00f3ria de um dubl\u00ea (Hopper) que, durante a filmagem de um faroeste, v\u00ea um companheiro de set morrer num acidente e decide abandonar o cinema e morar no interior do Peru. Esta era a ideia original, e assim foi escrita pelo roteirista Stewart Stern, que Hopper conhecera no set de \u201cRebelde Sem Causa\u201d (1955).<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que, \u00e0quela altura, Dennis Hopper n\u00e3o estava muito a fim de seguir ordens de ningu\u00e9m, muito menos de um roteiro, e come\u00e7ou a improvisar: chamou um monte de amigos, encheu o set de mescalina, peyote, \u00e1cido e coca\u00edna, e reuniu uma turminha da pesada que inclu\u00eda amigos como Peter Fonda, Dean Stockwell, Michelle Phillips (cantora do Mamas &amp; The Papas) e Kris Kristofferson, e \u00eddolos como o cineasta Sam Fuller. Segundo relatos, o diretor montou uma esp\u00e9cie de culto no set e incentivava a equipe a se entupir de drogas e fazer orgias.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta que fica: como Dennis Hopper conseguiu financiar uma produ\u00e7\u00e3o dessas?<\/p>\n\n\n\n<p>Simples: o est\u00fadio Universal, estupefato com o sucesso mundial de \u201cEasy Rider\u201d (1969), simplesmente deu a Hopper, que havia criado o filme com Peter Fonda, um milh\u00e3o de d\u00f3lares e \u201ccontrole criativo total\u201d para fazer \u201cThe Last Movie\u201d. Foi uma decis\u00e3o corporativa t\u00edpica do per\u00edodo: os grandes est\u00fadios, percebendo que estavam fora de sintonia com a juventude e surpresos com os sucessos de filmes contraculturais como \u201cEasy Rider\u201d e \u201cBonnie and Clyde\u201d, passaram a investir, \u00e0s cegas, em qualquer projeto mais alternativo. Por um lado, essa pol\u00edtica acabou gerando cl\u00e1ssicos como \u201cO Poderoso Chef\u00e3o\u201d e \u201cCaminhos Perigosos\u201d. Por outro, um alucinado como Hopper, que disse ser \u201crespons\u00e1vel, sozinho, pela explos\u00e3o da coca\u00edna nos Estados Unidos\u201d ganhou um milh\u00e3o de d\u00f3lares para fazer o que bem entendesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele per\u00edodo, a Universal n\u00e3o bancou apenas \u201cThe Last Movie\u201d: depois do sucesso de \u201cEasy Rider\u201d, o est\u00fadio decidiu dar um milh\u00e3o de d\u00f3lares a cinco jovens cineastas, que teriam carta branca para fazer os filmes que quisessem. Assim, Peter Fonda fez o faroeste \u201cThe Hired Hand\u201d, Douglas Trumbull dirigiu o sci-fi \u201cSilent Running\u201d, e o tcheco Milos Forman fez seu primeiro filme americano, a com\u00e9dia \u201cTaking Off\u201d. Mas o maior sucesso comercial dessa empreitada foi uma com\u00e9dia adolescente dirigida por um <em>nerd<\/em> da Calif\u00f3rnia chamado George Lucas: \u201cAmerican Grafitti\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado financeiro mais desastroso foi claro, \u201cThe Last Movie\u201d: Hopper n\u00e3o seguiu o cronograma, estourou o or\u00e7amento e acabou entregando o filme com quase um ano de atraso. Quando a Universal viu o corte final, ficou t\u00e3o horrorizada que cogitou nem lan\u00e7ar o filme. \u201cThe Last Movie\u201d acabou sendo exibido em poucos cinemas e logo sumiu de circula\u00e7\u00e3o. Hopper entrou em depress\u00e3o, quase morreu de overdose diversas vezes, e s\u00f3 foi dirigir outro filme quase dez anos depois, \u201cOut of the Blue\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que terminou a filmagem de \u201cThe Last Movie\u201d, Hopper casou-se com Michelle Phillips, a quem conhecera no set de filmagem. O matrim\u00f4nio durou exatos oito dias. Michelle pediu div\u00f3rcio com a alega\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era capaz de atender \u00e0s \u201cdemandas sexuais n\u00e3o-naturais\u201d do marido. Quando Hopper a confrontou, ela sugeriu: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 cogitou suic\u00eddio?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos depois de \u201cThe Last Movie\u201d, Dennis Hopper continuou fazendo das suas. S\u00e3o famosas as hist\u00f3rias de Marlon Brando exigindo que Hopper ficasse longe dele durante as filmagens de \u201cApocalypse Now\u201d (1979), e de Hopper convencendo David Lynch a lhe dar o papel do psic\u00f3tico g\u00e2ngster Frank Booth em \u201cVeludo Azul\u201d (1986): \u201cDavid, eu preciso interpretar Frank. Eu <em>sou<\/em> Frank!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1994, tive meu \u00fanico encontro com Dennis Hopper, durante as entrevistas de lan\u00e7amento de \u201cVelocidade M\u00e1xima\u201d, em que ele interpretava, s\u00f3 para variar, um assassino psic\u00f3tico. \u00c0quela altura, Hopper j\u00e1 tinha 58 anos e havia sossegado o facho. Passava os dias fotografando (era um ex\u00edmio fot\u00f3grafo) e cuidando de sua incr\u00edvel cole\u00e7\u00e3o de quadros de pintores norte-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Com muito bom humor, falou dos percal\u00e7os da carreira e comentou o fato de ter, durante anos, aceitado pap\u00e9is em filmes terr\u00edveis: \u201cOutro dia, meu netinho me perguntou por que eu havia feito o filme do Super Mario Bros.\u201d, disse o ator. \u201cEu disse que havia feito aquele filme para ganhar um dinheiro e comprar presentes pra ele. Ele respondeu: \u2018Vov\u00f4, eu n\u00e3o preciso <em>tanto<\/em> assim de presentes!\u2019\u201d Um \u00f3timo dia a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A plataforma Belas Artes \u00e0 La Carte exibe um filme absolutamente imperd\u00edvel: \u201cThe Last Movie\u201d (1971), de Dennis Hopper. E por \u201cimperd\u00edvel\u201d n\u00e3o quero dizer, necessariamente, que seja um grande filme. 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