{"id":1976,"date":"2022-06-03T06:00:00","date_gmt":"2022-06-03T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1976"},"modified":"2024-09-02T12:44:36","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:36","slug":"jim-thompson-falido-e-fracassado-reinventou-a-pulp-fiction","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/jim-thompson-falido-e-fracassado-reinventou-a-pulp-fiction\/","title":{"rendered":"Jim Thompson, falido e fracassado, reinventou a \u201cpulp fiction\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Esses dias, fiz no site um curso sobre o escritor \u201cpulp\u201d Jim Thompson (1906-1977) e reli a biografia dele, \u201cSavage Art\u201d, escrita por Robert Polito e lan\u00e7ada em 1995. Thompson \u00e9 um de meus her\u00f3is, autor de alguns dos melhores e mais selvagens livros policiais j\u00e1 escritos, como \u201cO Assassino Dentro de Mim\u201d, \u201c1280 Almas\u201d, \u201cOs Implac\u00e1veis\u201d e \u201cAfter Dark, My Sweet\u201d, al\u00e9m de corroteirista de meus dois filmes prediletos de Stanley Kubrick, \u201cO Grande Golpe\u201d e \u201cGl\u00f3ria Feita de Sangue\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Relendo o livro de Polito, fiquei intrigado com uma passagem importante da vida de Thompson, que come\u00e7a em 1952, quando ele trabalha para a Lion Books, uma editora de romances \u201cpulp\u201d (livros impressos em papel-jornal e vendidos em banca de jornal) chefiada por um editor chamado Arnold Hano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 \u00e9poca, Thompson tinha 46 anos e uma carreira liter\u00e1ria em decl\u00ednio. Havia escrito tr\u00eas romances, o autobiogr\u00e1fico \u201cNow and on Earth\u201d (1942) e os policiais \u201cHeed the Thunder\u201d (1946) e \u201cNothing More Than Murder\u201d (1949). Desses, s\u00f3 o \u00faltimo fez algum barulho, mas n\u00e3o foi o estouro de cr\u00edtica que Thompson esperava. Em 1952, ele estava, como de h\u00e1bito, falido e se sentindo um fracassado. E como fazia desde a adolesc\u00eancia, afogou a tristeza em oceanos de u\u00edsque. Thompson j\u00e1 havia sido internado mais de 30 vezes em hospitais e cl\u00ednicas para tratar de problemas com o \u00e1lcool.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, assim que chegou \u00e0 Lion Books, algo se acendeu dentro de Jim Thompson. E, num glorioso per\u00edodo de 19 meses, ele escreveu nada menos de doze romances, incluindo obras-primas como \u201cO Assassino Dentro de Mim\u201d, \u201cSavage Night\u201d, \u201cThe Criminal\u201d, \u201cA Hell of a Woman\u201d e \u201cAfter Dark, My Sweet\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Que ningu\u00e9m pense que a rapidez da escrita prejudicou a qualidade dos livros. Pelo contr\u00e1rio: foi um per\u00edodo em que Jim Thompson reinventou a literatura policial, experimentando com narra\u00e7\u00f5es em primeira pessoa que absorviam a insanidade dos personagens e transportavam o leitor para o inferno pessoal dos protagonistas. As hist\u00f3rias continham m\u00faltiplos narradores, narradores mortos (al\u00f4, Br\u00e1s Cubas!) e de dupla personalidade (em \u201cA Hell of a Woman\u201d, o protagonista sofre um colapso nervoso e a narrativa se divide em duas, uma para cada personalidade).<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica liter\u00e1ria n\u00e3o costumava prestar muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura \u201cpulp\u201d, considerada apelativa e de baixa qualidade, mas alguns cr\u00edticos perceberam a genialidade de Thompson: no \u201cThe New York Times\u201d, o autor e cr\u00edtico Anthony Boucher escreveu, sobre \u201cSavage Night\u201d: \u201cEscrito com vigor, desviando do realismo para um final peculiar e surrealista de puro horror Guignol. Curioso que um livro \u2018pulp\u2019 de consumo de massa contenha a escrita mais experimental que tenho visto atualmente em romances de suspense\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"683\" src=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/JimThompson-books.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1978\" srcset=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/JimThompson-books.jpg 1000w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/JimThompson-books-600x410.jpg 600w, https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/JimThompson-books-768x525.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Jim Thompson n\u00e3o foi o \u00fanico grande escritor que publicou pela Lion Books naquele per\u00edodo: a lista de autores inclu\u00eda Harlan Ellison (que escreveria alguns dos melhores epis\u00f3dios de \u201cStar Trek\u201d e da s\u00e9rie de TV de Alfred Hitchcock), David Goodis (autor de \u201cAtire no Pianista\u201d, filmado por Fran\u00e7ois Truffaut), e Robert Bloch (que em 1959 escreveria \u201cPsicose\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo de Thompson com a Lion n\u00e3o durou muito: Hano saiu da editora, e o mercado de \u201cpulp fiction\u201d entrou em decl\u00ednio. Thompson ainda escreveu grandes livros, como \u201cOs Imorais\u201d (1963) e \u201c1280 Almas\u201d (1964), mas nunca conseguiu replicar a sequ\u00eancia e qualidade daqueles 19 meses m\u00e1gicos. Morreu em 1977, aos 70 anos, falido e esquecido. \u00c0 \u00e9poca, nenhum livro dele estava em cat\u00e1logo nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Jim Thompson aconteceria no fim dos anos 1980, quando alguns livros foram relan\u00e7ados e autores como James Ellroy e Stephen King o citaram como refer\u00eancia. Em 1990, Stephen Frears dirigiu uma \u00f3tima adapta\u00e7\u00e3o de \u201cOs Imorais\u201d, e o culto a Jim Thompson come\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica a pergunta: por que Thompson escreveu tanto e t\u00e3o bem durante aqueles 19 meses? Alguns especialistas na obra dele, incluindo o bi\u00f3grafo, Robert Polito, acham que o esquema \u201cpadronizado\u201d da Lion Books, que comissionava hist\u00f3rias com temas, prazos e n\u00famero de p\u00e1ginas pr\u00e9-determinados, ajudou Thompson. O editor, Harold Hano, pedia algo como \u201cA hist\u00f3ria de um assassino serial, para entrega daqui a dois meses, com 150 p\u00e1ginas\u201d. Thompson deixava a imagina\u00e7\u00e3o voar e voltava com \u201cO Assassino Dentro de Mim\u201d. O fato de os livros serem vendidos em banca de jornal a um pre\u00e7o rid\u00edculo (\u00e0 \u00e9poca, 25 centavos de d\u00f3lar) libertava os autores das preocupa\u00e7\u00f5es comerciais, e eles se permitiam experimentar com a narrativa e temas pesados e controversos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: arte precisa de liberdade, mas, algumas vezes, a verdadeira liberdade art\u00edstica est\u00e1 nos projetos mais populares e baratos. E a \u201cpulp fiction\u201d foi prova disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo fim de semana a todas e todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esses dias, fiz no site um curso sobre o escritor \u201cpulp\u201d Jim Thompson (1906-1977) e reli a biografia dele, \u201cSavage Art\u201d, escrita por Robert Polito e lan\u00e7ada em 1995. 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