{"id":1675,"date":"2022-04-04T11:07:40","date_gmt":"2022-04-04T11:07:40","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1675"},"modified":"2024-09-02T12:44:37","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:37","slug":"alo-aqui-e-a-lygia-fagundes-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/alo-aqui-e-a-lygia-fagundes-telles\/","title":{"rendered":"\u201cAl\u00f4, aqui \u00e9 a Lygia Fagundes Telles!\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Segunda-feira, 17 de janeiro de 2011. Meu telefone toca. \u201cAl\u00f4, Andr\u00e9? \u00c9 a Lygia Fagundes Telles.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei sem rea\u00e7\u00e3o. A grande escritora, autora de \u201cAs Meninas\u201d e \u201cSemin\u00e1rio dos Ratos\u201d, imortal da ABL, me ligando?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQueria lhe parabenizar. Fazia muito tempo que eu n\u00e3o ria tanto com um texto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Lygia se referia \u00e0 cr\u00edtica que eu publicara, naquele mesmo dia, na \u201cFolha de S. Paulo\u201d, sobre o tenebroso show da cantora Amy Winehouse em S\u00e3o Paulo (leia abaixo).&nbsp; \u201cE aquele neg\u00f3cio dos pombos mortos? Hahahahaha, amei!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela disse que havia ligado na reda\u00e7\u00e3o da \u201cIlustrada\u201d, onde lhe informaram que eu n\u00e3o ficava l\u00e1 (na verdade, eu n\u00e3o era funcion\u00e1rio da \u201cFolha\u201d, mas frila). Pediu meu telefone e me ligou.<\/p>\n\n\n\n<p>O telefonema n\u00e3o durou mais de dois ou tr\u00eas minutos. Depois de elogiar o texto e criticar os ataques de estrelismo que Amy dera durante a passagem pelo Brasil (\u201cMas que mo\u00e7a antip\u00e1tica, n\u00e3o?\u201d), pediu que eu mandasse um abra\u00e7o ao \u201cOtavinho\u201d (Otavio Frias Filho, ent\u00e3o diretor de reda\u00e7\u00e3o da \u201cFolha\u201d). E desligou.<\/p>\n\n\n\n<p>Lygia Fagundes Telles morreu ontem, 3 de abril de 2022, aos 98 anos. Quando me ligou, estava prestes a fazer 89. Era uma quase nonagen\u00e1ria, artista consagrada, vencedora de incont\u00e1veis pr\u00eamios e autora admirada desde a d\u00e9cada de 1950, mas ligou para elogiar o texto de um Z\u00e9-Ningu\u00e9m. Quanta generosidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Amy Winehouse p\u00f5e p\u00fablico para dormir em S\u00e3o Paulo<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Chamar o show de s\u00e1bado de Amy Winehouse de &#8220;burocr\u00e1tico&#8221; \u00e9 um insulto \u00e0 burocracia. J\u00e1 vi filas de cart\u00f3rio mais animadas que a apresenta\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.<br>Foram exatos 72 minutos de show. Descontadas as vezes em que ela saiu do palco, o intervalo antes do bis e uma torturante sequ\u00eancia de solos dos m\u00fasicos, Amy n\u00e3o deve ter cantado por mais de 55 minutos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Al\u00e9m de curto, o show foi muito ruim. A banda era uma l\u00e1stima, e a voz de Amy, um fiapo. Na verdade, Amy deu azar: puseram uma cantora de verdade antes dela, Janelle Mon\u00e1e, e a compara\u00e7\u00e3o entre as duas foi brutal.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Enquanto Janelle e banda fizeram um show cheio de energia e emo\u00e7\u00e3o, Amy p\u00f4s o povo para dormir em p\u00e9 com uma apresenta\u00e7\u00e3o desleixada. E desafinou pacas.<br>Quem foi \u00e0 Arena Anhembi esperando ouvir o gog\u00f3 potente e sexy dos discos saiu com uma certeza: os produtores Salaam Remi e Mark Ronson fizeram milagres com a mo\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Amy foi um show de horror: al\u00e9m de desafinar, esqueceu letras, atropelou a m\u00e9trica e errou o tempo de v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es, tudo isso enquanto ostentava uma tromba daquelas. Parecia que ela estava fazendo um favor \u00e0 plateia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A diva s\u00f3 falou com o p\u00fablico duas ou tr\u00eas vezes, e mesmo assim para apresentar a banda ou anunciar um vocalista de apoio que cantou duas m\u00fasicas enquanto ela sumia do palco.<br><br><strong>POMBAS MORTAS<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Winehouse abriu o show com tr\u00eas de seus maiores hits, &#8220;Just Friends&#8221;, &#8220;Back to Black&#8221; e &#8220;Tears Dry On Their Own&#8221;, e j\u00e1 deu para perceber que alguma coisa n\u00e3o ia bem: ela virou-se v\u00e1rias vezes para os m\u00fasicos e parecia estar reclamando do som. Mas o problema n\u00e3o era o som, claro. No final de &#8220;Boulevard of Broken Dreams&#8221;, a casa caiu: Amy deu uma desafinada t\u00e3o medonha que matou v\u00e1rios pombos que sobrevoavam o Campo de Bagatelle.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Na \u00e1rea em frente ao palco, o tal espa\u00e7o VIP, a desanima\u00e7\u00e3o era evidente. Os f\u00e3s vibravam mais com os goles que Amy dava em um copo do que com a m\u00fasica. L\u00e1 pela quinta ou sexta can\u00e7\u00e3o, j\u00e1 havia uma movimenta\u00e7\u00e3o grande de bem-nascidos se dirigindo \u00e0 \u00e1rea Mega Ultra Top Vip Special (o nome n\u00e3o era exatamente esse, mas era parecido), onde rolava uma festinha. Atr\u00e1s de mim, alguns clones do Rico Mansur trocavam reminisc\u00eancias sobre o Ano Novo em Jurer\u00ea.<br><br><strong>ENCHENDO LINGUI\u00c7A<\/strong><br><br>Enquanto isso, Amy e os m\u00fasicos continuavam no piloto autom\u00e1tico, contando os minutos para aquilo acabar. E a banda dela? O que era aquilo? Ser\u00e1 que uma banda t\u00e3o ruim j\u00e1 tocou para tanta gente?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Para encher um pouco mais de lingui\u00e7a, Amy apresentou os m\u00fasicos, e cada um fez um solo. Foi uma demonstra\u00e7\u00e3o t\u00e3o constrangedora de falta de talento que, no meio do solo de bateria, a pr\u00f3pria Amy sentou no palco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Depois de 60 minutos de show, a cantora se despediu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas voltou para o bis, a tempo de errar a letra de &#8220;You Know I&#8217;m No Good&#8221;, antes de encerrar com &#8220;Me and Mrs. Jones&#8221;. Chequinho na m\u00e3o e bye bye, Brasil! Como todo filme de horror que se preze, o show de Amy ainda teve um ep\u00edlogo pavoroso: foram exatos 58 minutos s\u00f3 para conseguir sair do estacionamento do Anhembi, enquanto multid\u00f5es disputavam um t\u00e1xi.<\/em><em>Ser\u00e1 que, algum dia, uma alma caridosa vai conseguir organizar um show em S\u00e3o Paulo que termine antes do fechamento do metr\u00f4? \u00c9 pedir demais?<\/em><em><br>Porque, depois de aturar a Amy, tudo o que se quer \u00e9 chegar r\u00e1pido em casa.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda-feira, 17 de janeiro de 2011. Meu telefone toca. \u201cAl\u00f4, Andr\u00e9? \u00c9 a Lygia Fagundes Telles.\u201d Fiquei sem rea\u00e7\u00e3o. A grande escritora, autora de \u201cAs Meninas\u201d e \u201cSemin\u00e1rio dos Ratos\u201d, imortal da ABL, me ligando? \u201cQueria lhe parabenizar. 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