{"id":1583,"date":"2022-02-24T12:45:51","date_gmt":"2022-02-24T12:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1583"},"modified":"2024-09-02T12:44:47","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:47","slug":"a-voz-de-mark-lanegan-nos-capturava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/a-voz-de-mark-lanegan-nos-capturava\/","title":{"rendered":"\u201cA voz de Mark Lanegan nos capturava\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>A morte de Mark Lanegan, aos 57 anos, nos privou de uma das vozes mais marcantes dos \u00faltimos 30 anos. Nesse tempo, ele marcou a vida de muita gente com sua m\u00fasica. Uma dessas pessoas \u00e9 minha amiga Ana Luisa Barros, grande f\u00e3 e conhecedora da obra do cantor e compositor. Pedi \u00e0 Ana que escrevesse um texto sobre sua rela\u00e7\u00e3o com a arte de Lanegan, e com o pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Ana Luisa Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por circunst\u00e2ncias que n\u00e3o conv\u00e9m aqui detalhar (bons stalkers nunca revelam seus m\u00e9todos), anos atr\u00e1s Mark Lanegan aceitou minha solicita\u00e7\u00e3o e me jogou dentro de seu perfil no Instagram. N\u00e3o no profissional, oficial. Foi em uma p\u00e1gina privada, fechada, apelido falso na arroba, poucos seguidores e seguidos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>S\u00e3o pouco mais de 200 fotos, postadas at\u00e9 2016. Continuam intocadas, ap\u00f3s o falecimento do cantor nesta ter\u00e7a-feira. Surpresa triste que foi divulgada no Twitter, rede at\u00e9 ent\u00e3o mais ativa do m\u00fasico. Rolando a sequ\u00eancia de imagens, vejo l\u00e1: um bon\u00e9 do Clippers, seu time de basquete do cora\u00e7\u00e3o. Diretamente de Antu\u00e9rpia, na B\u00e9lgica, uma gigantesca t\u00e1bua de frutos do mar com an\u00e9is de lula largos como pulseiras. O reflexo do cantor, c\u00e2mera em punho, na moldura de vidro protegendo uma gravura de autoria atribu\u00edda, na legenda, ao artista brit\u00e2nico Banksy. O livro \u201cThe Terminal Beach\u201d, de J.G. Ballard, apoiado na tela de um computador. Elogio a um pote de maionese. O DVD do filme \u201cO Funeral das Rosas\u201d, do diretor japon\u00eas Toshio Matsumoto. Um cachorrinho, devidamente agasalhado com um pul\u00f4ver, aboletado sobre um carrinho. E tr\u00eas fotografias estampando sorriso extenso do cantor, quase t\u00e3o comprido quanto os bra\u00e7os abertos que envolvem os ombros de dois amigos num abra\u00e7o.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"240\" src=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2CC109A9-102C-4010-8D2C-C1A4F07BFAC5.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1585\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Fui f\u00e3 tardia de Mark Lanegan. Screaming Trees, banda associada ao movimento grunge e que teve Lanegan como vocalista, nunca foi minha especialidade. Meu interesse foi a extensa carreira individual. Os \u00e1lbuns solo, lan\u00e7ados desde 1990, soavam para mim muito mais atrativos: antes, can\u00e7\u00f5es inspiradas no folk de Nick Drake, Leonard Cohen e Johnny Cash mescladas ao punk blues de bandas como The Gun Club. A partir de 2012, m\u00fasicas incorporando melodias dan\u00e7antes, em homenagens a Joy Division, New Order, Roxy Music. Mas compor e cantar as pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es n\u00e3o bastava: a voz grave, castigada pelo fumo, esteve \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de Queens Of The Stone Age, Soulsavers, Isobel Campbell e de tantos outros amigos e parceiros. Ah, no curr\u00edculo do homem, ainda vers\u00f5es pessoais para can\u00e7\u00f5es de gente talentosa como Nick Cave, Chelsea Wolfe, Tim Rose.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O singelo \u00e1lbum de fotografias no Instagram n\u00e3o me surpreende. Retrata um Lanegan feliz, que havia domado seus fantasmas e feito as pazes com si mesmo. As pequenas alegrias dom\u00e9sticas, os simp\u00e1ticos registros tur\u00edsticos ao longo das turn\u00eas, eu percebo, agora, eram refletidos no palco. Por mais de dez anos, at\u00e9 ser barrada pela pandemia, fui atr\u00e1s de Mark Lanegan. Perdi a conta do n\u00famero de shows a que assisti.&nbsp;<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E toda apresenta\u00e7\u00e3o era \u00fanica, vigorosa. Ao vivo, cada can\u00e7\u00e3o era retrabalhada com cuidado. Faixas gravadas em est\u00fadio n\u00e3o raro soavam transformadas, ainda mais vibrantes. \u00c0s vezes encorpadas por uma guitarra mais incisiva, \u00e0s vezes emolduradas por guitarra semi-ac\u00fastica e intimista, ou ent\u00e3o seguindo um novo ritmo, pautado e regido pela voz. Aquela voz que, t\u00e3o logo era liberada, envolvia o ambiente inteiro at\u00e9 capturar e render o ouvinte, fosse em um pequeno pub em Lisboa, em uma casa de shows em Berlim, num velho cinema reformado em S\u00e3o Paulo ou at\u00e9 mesmo em uma igreja do s\u00e9culo retrasado, em Londres. A conclus\u00e3o inevit\u00e1vel era poderosa: Mark Lanegan n\u00e3o cantava para voc\u00ea. Cantava dentro de voc\u00ea. Disseminando euforia, aliviando feridas, injetando consolo, paz. Era viciante, e era bom.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ap\u00f3s os shows, Mark Lanegan, cansado, era acess\u00edvel, t\u00edmido, gentil. Era ele quem primeiro estendia a m\u00e3o para um cumprimento, n\u00e3o eu, n\u00e3o os outros. Humilde, se considerava privilegiado pela presen\u00e7a dos f\u00e3s.&nbsp;<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mark Lanegan, americano, morreu no interior da Irlanda, pa\u00eds dos av\u00f3s. Desiludido com os Estados Unidos, tornou-se um imigrante na Europa. H\u00e1 um ano, contraiu o v\u00edrus da COVID-19. E, superados os longos meses de interna\u00e7\u00e3o, mais uma vez foi bem sucedido na tarefa \u00e1rdua que repetiu ao longo de uma trajet\u00f3ria de excessos qu\u00edmicos: enganar a morte. Em casa, na companhia da mulher, desenhava e escrevia, aguardando o dia em que, cruzando dist\u00e2ncias, reencontraria o seu p\u00fablico. Mas n\u00e3o vai acontecer.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Volto para o Instagram. Uma das \u00faltimas fotos postadas mostra uma parede. Nela, colada uma folha sulfite. Exibe o desenho de uma seta, apontada para a esquerda, embaixo da palavra STAGE (\u201cpalco\u201d). Legendando a foto, Mark Lanegan crava: \u201cMy life\u201d. Clico nos coment\u00e1rios, s\u00e3o dois. Reconhe\u00e7o a foto e o nome que antecedem o coment\u00e1rio mais antigo, de 299 semanas atr\u00e1s. Sou eu, atrevida, lan\u00e7ando um complemento: \u201cand our luck\u201d.&nbsp;<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mark Lanegan, foi sorte nossa. Obrigada por tudo. E n\u00e3o foi pouco.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um \u00f3timo Carnaval a todos. O blog retorna na quarta, 2 de mar\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte de Mark Lanegan, aos 57 anos, nos privou de uma das vozes mais marcantes dos \u00faltimos 30 anos. Nesse tempo, ele marcou a vida de muita gente com sua m\u00fasica. 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