{"id":1448,"date":"2022-01-06T06:00:00","date_gmt":"2022-01-06T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1448"},"modified":"2024-09-02T12:44:47","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:47","slug":"a-decada-perdida-dos-kinks","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/a-decada-perdida-dos-kinks\/","title":{"rendered":"A D\u00e9cada Perdida dos Kinks"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Publicado originalmente em 2015.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de fevereiro de 2015 da revista inglesa \u201cMojo\u201d (capa com as 100 melhores m\u00fasicas de David Bowie!) traz uma mat\u00e9ria sensacional de Pat Gilbert sobre o per\u00edodo mais conturbado e um dos mais criativos da hist\u00f3ria do Kinks: os anos entre 1968 e 1978, quando o grupo lan\u00e7ou alguns de seus melhores discos \u2013 e seus maiores fracassos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma fase pouco analisada da carreira da banda e que sempre gerou pol\u00eamica entre os integrantes, marcada pelo acirramento das brigas entre os irm\u00e3os Ray e Dave Davies, crises psic\u00f3ticas e depressivas que quase culminaram em suic\u00eddio, e acusa\u00e7\u00f5es de que Ray teria transformado o grupo em sua banda de apoio, centralizando as decis\u00f5es criativas. Pat Gilbert conversou com Ray, Dave e o baterista Mick Avory, e descreveu com riqueza de detalhes a d\u00e9cada mais criativa e insana dos Kinks.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o caos que se abateu sobre a banda p\u00f3s-1968, \u00e9 preciso retroceder alguns anos no tempo, at\u00e9 1965, quando o Kinks, ent\u00e3o uma das estrelas da \u201cInvas\u00e3o Brit\u00e2nica\u201d, fazia grande sucesso nos EUA e Europa com <em>hits<\/em> como \u201cYou Really Got Me\u201d, \u201cAll Day and All of the Night\u201d, \u201cTired of Waiting for You\u201d e \u201cTill the End of the Day\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto seus contempor\u00e2neos, os Rolling Stones, ganhavam fama de <em>bad boys<\/em>, os Kinks eram os verdadeiros delinquentes daquela gera\u00e7\u00e3o. Num show, o guitarrista Dave Davies xingou o baterista Mick Avory, que respondeu arrebentando a cabe\u00e7a de Dave com um pedestal de prato. Avory fugiu do teatro acreditando que tinha matado o colega. Logo depois, Ray deu entrevistas esculhambando Frank Sinatra (\u201cEu canto \u2018You Really Got Me\u2019 melhor que ele\u201d) e dizendo que qualquer um \u2013 \u201cat\u00e9 Hitler\u201d \u2013 era capaz de lotar um teatro de f\u00e3s. Numa turn\u00ea pelos Estados Unidos, Ray saiu no bra\u00e7o com um diretor de uma emissora de TV durante a grava\u00e7\u00e3o de um programa. O homem era poderoso, e os Kinks foram proibidos de excursionar na Am\u00e9rica por quatro anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem acesso ao maior mercado de discos do mundo e vendo seus competidores \u2013 Beatles, Stones, Who \u2013 fazendo fortuna na Am\u00e9rica, Ray e Dave piraram. A banda lan\u00e7ou discos fabulosos em 1966 (\u201cFace to Face\u201d) e 1967 ( \u201cSomething Else\u201d), que at\u00e9 obtiveram algum sucesso no Reino Unido, mas n\u00e3o venderam nada nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a maior tristeza foi perceber que \u201cThe Village Green Preservation Society\u201d (1968), uma obra-prima que hoje figura ao lado de \u201cSgt. Pepper\u2019s\u201d, \u201cPet Sounds\u201d, \u201cAre You Experienced?\u201d, \u201cDa Capo\u201d e \u201cBlonde on Blonde\u201d em qualquer lista dos \u00e1lbuns mais importantes do fim dos anos 60, nem apareceu nas paradas. Depois de \u201cSomething Else\u201d, os Kinks nunca mais frequentaram as paradas brit\u00e2nicas e s\u00f3 voltaram a fazer algum sucesso na Am\u00e9rica em 1979, com o disco \u201cLow Budget\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cVillage Green\u201d era uma j\u00f3ia rara. Uma ode saudosista a uma Inglaterra rural e provinciana, uma \u00f3pera-rock criada por Ray Davies, um jovem de alma velha, geniozinho de 24 anos que n\u00e3o se conformava com as transforma\u00e7\u00f5es por que seu pa\u00eds passava e via tudo que mais amava \u2013 a cordialidade de velhos vizinhos, as tradi\u00e7\u00f5es, a pacatez da vida em fam\u00edlia e uma certa ordem vitoriana \u2013 sumindo sob os conflitos de gera\u00e7\u00f5es e a \u201cmodernidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando \u201cVillage Green\u201d fracassou, Ray deu uma banana para a gravadora, os f\u00e3s, a cr\u00edtica e as expectativas que tinham dele, e resolveu fazer o que lhe desse na telha. Seguiram-se alguns dos discos mais estranhos e anticomerciais j\u00e1 lan\u00e7ados por um her\u00f3i pop. Alguns eram lindos, outros, apenas herm\u00e9ticos e pretensiosos. Mas, at\u00e9 quando falhava, Ray falhava de maneira espetacular. Ningu\u00e9m nunca p\u00f4de acus\u00e1-lo de comedimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo tamb\u00e9m foi marcado por imensas crises pessoais. Dave bebia como um peixe e tinha impulsos suicidas; Ray sofria de depress\u00e3o e surtos imprevis\u00edveis. Num show, surpreendeu os companheiros de banda ao anunciar que aquela seria a \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o deles, antes de desmaiar e ser levado para o hospital. Passou semanas recuperando-se ao som da Segunda Sinfonia de Mahler \u2013 \u201cA Ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ray era paranoico e via o mundo como um lugar hostil e cheio de armadilhas. Come\u00e7ou a fazer m\u00fasicas que refletiam seus sentimentos de raiva e descompasso com o mundo. &nbsp;\u201cArthur or the Decline and Fall of the British Empire\u201d (1969) era exatamente o que o t\u00edtulo dizia, um disco tem\u00e1tico sobre a decad\u00eancia \u2013 moral, social, \u00e9tica \u2013 do imp\u00e9rio brit\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cThe Kinks Parte One \u2013 Lola Versus Powerman and the Moneygoround\u201d (1970), Ray centrou fogo em outro advers\u00e1rio, a ind\u00fastria musical. Algumas letras pareciam criticar os agentes da banda, que, irritados, largaram o grupo um ano depois do lan\u00e7amento. O LP trouxe um dos raros sucessos do grupo nos anos 70, \u201cLola\u201d, em que Ray narra um encontro com um travesti.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wbX2aQQ4uog\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Depois de \u201cLola\u201d, os discos ficaram cada vez mais estranhos: \u201cPercy\u201d (1971) era a trilha sonora de um filme sobre um transplante de p\u00eanis; em \u201cMuswell Hillbillies\u201d (1971), Ray usou um naipe de instrumentos de sopro para criar uma bizarra celebra\u00e7\u00e3o de m\u00fasica <em>folk<\/em> brit\u00e2nica e um rep\u00fadio ao pop; \u201cEverybody\u2019s in Showbiz\u201d (1973) era um \u00e1lbum duplo, com um disco de est\u00fadio e outro ao vivo; \u201cPreservation Act 1\u201d (1973) e \u201cPreservation Act 2\u201d (1974) formavam uma confusa \u00f3pera-rock sobre artistas de vaudeville; \u201cSoap Opera\u201d (1975) e \u201cSchoolboys in Disgrace\u201d (1976) eram discos tem\u00e1ticos \u2013 o primeiro, aparentemente sobre culto a celebridades, o segundo, mem\u00f3rias do tempo de escola.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio de toda essa confus\u00e3o de ideias e estilos, os Kinks eram capazes de criar ouro. \u00c9 s\u00f3 ver a beleza de uma faixa como \u201cCelluloid Heroes\u201d, do Lp \u201cEverybody\u2019s in Showbiz\u201d:<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gSItDuo8Wss\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>No fim dos anos 70, o Kinks se reinventou como banda de hard rock, com discos mais pesados e populares. E a vers\u00e3o que o Van Halen fez de \u201cYou Really Got Me\u201d, em 1978, apresentou a banda a uma gera\u00e7\u00e3o que nunca ouvira falar nela. Mas os LPs que os irm\u00e3os Davies fizeram entre o fim dos anos 60 e o fim dos 70 permanecem como um dos tesouros esquecidos da m\u00fasica pop.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 2015. 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