{"id":1445,"date":"2022-01-10T06:00:00","date_gmt":"2022-01-10T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1445"},"modified":"2024-09-02T12:44:47","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:47","slug":"the-fall-e-john-peel-um-caso-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/the-fall-e-john-peel-um-caso-de-amor\/","title":{"rendered":"The Fall e John Peel: um caso de amor"},"content":{"rendered":"\n<p>Vi recentemente no Youtube (sem legendas em portugu\u00eas, infelizmente) um bom document\u00e1rio da BBC chamado \u201cThe Fall: The Wonderful and Frightening World of Mark E. Smith\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Filmado em 2004, o filme conta a vida e obra de Smith, l\u00edder e faz-tudo da grande banda p\u00f3s-punk brit\u00e2nica The Fall. Mas h\u00e1 outro incr\u00edvel personagem na hist\u00f3ria: o radialista da BBC John Peel. E a hist\u00f3ria do Fall n\u00e3o seria a mesma sem Peel.<\/p>\n\n\n\n<p>John Peel ouviu o Fall pela primeira vez em 1976 e caiu de amores pela banda. Desde 1967, ele promovia as famosas \u201cPeel Sessions\u201d, em que bandas tocavam ao vivo nos est\u00fadios da BBC. Em 1978, Peel convidou o Fall para gravar sua primeira \u201cPeel Session\u201d. Nos 26 anos seguintes, Mark E. Smith e sua trupe foram os artistas mais constantes no est\u00fadio de Peel, gravando mais do que qualquer outra banda. No total, foram 24 \u201cPeel Sessions\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O doc da BBC mostra a grava\u00e7\u00e3o da 24\u00aa sess\u00e3o, realizada em agosto de 2004. Dois meses depois, John Peel caminhava pela cidade sagrada de Cusco, no Peru, quando sofreu um enfarte e morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, Peel conta o que o atraiu na banda: \u201cNa primeira vez que ouvi o Fall, percebi estar diante de uma banda singular, com uma voz \u00fanica\u201d. Ele come\u00e7ou a tocar o Fall repetidas vezes em seu programa, abrindo a cabe\u00e7a de muitos f\u00e3s para a arte ins\u00f3lita de Mark E. Smith.<\/p>\n\n\n\n<p>Peel fez mais: n\u00e3o contente em divulgar o Fall na r\u00e1dio, foi respons\u00e1vel pela primeira apari\u00e7\u00e3o deles num programa nacional da TV brit\u00e2nica. Em 1983, Jools Holland, ent\u00e3o apresentador do programa \u201cThe Tube\u201d, no Channel Four, convidou Peel para ir ao programa e ofereceu um cach\u00ea. Peel disse que abriria m\u00e3o do cach\u00ea se pudesse escolher a atra\u00e7\u00e3o. E adivinha quem levou?<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yE-6xoh1khg\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Mark E. Smith e o Fall duraram 14 anos ap\u00f3s a morte de John Peel. Smith morreu de c\u00e2ncer no pulm\u00e3o em 24 de janeiro de 2018. \u00c0 ocasi\u00e3o, escrevi sobre ele:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Nunca vai existir algu\u00e9m como Mark E. Smith. Desde que surgiu com The Fall na cena p\u00f3s-punk brit\u00e2nica do fim dos anos 1970, um dos adjetivos mais usados para defini-lo foi &#8220;iconoclasta&#8221;. Mas isso n\u00e3o me parece correto: iconoclasta \u00e9 algu\u00e9m que, por defini\u00e7\u00e3o, ataca uma cren\u00e7a estabelecida. E Mark E. Smith fez muito pior que atacar: ele simplesmente n\u00e3o se importava.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o se importava com o punk, o p\u00f3s-punk, ou qualquer r\u00f3tulo que tentaram impingir \u00e0 sua m\u00fasica; n\u00e3o se importava com a imprensa; n\u00e3o se importava com outros integrantes de sua banda, e n\u00e3o se importava sequer com os f\u00e3s. Quem criou a express\u00e3o &#8220;c*gando e andando&#8221;, devia estar pensando em Mark E. Smith. Smith, que morreu quarta-feira, aos 60 anos, governou o The Fall como um d\u00e9spota. Ao longo de quatro d\u00e9cadas, demitiu uns 70 m\u00fasicos, alguns pelas raz\u00f5es mais prosaicas: um foi embora porque sugeriu uma m\u00fasica ruim no \u00f4nibus de excurs\u00e3o da banda; outro levou a bota porque pediu uma salada que Mark julgou indigna dos padr\u00f5es da banda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quem melhor definiu o Fall foi o radialista ingl\u00eas John Peel: &#8220;Sempre diferente, mas sempre o mesmo&#8221;. O Fall n\u00e3o \u00e9 para todos, mas quem capta o esp\u00edrito da coisa fica viciado para sempre. N\u00e3o esque\u00e7o Peter Prescott, batera do Mission of Burma, em \u00eaxtase ao receber a not\u00edcia de que um amigo, tamb\u00e9m fallman\u00edaco, havia conseguido uma fita de um show raro. A tara de Prescott era colecionar fitas piratas de shows de Mark E. Smith e depois tentar decifrar os grunhidos inintelig\u00edveis que Smith emitia entre can\u00e7\u00f5es. Quando surgiu, em 1976, o Fall estava t\u00e3o \u00e0 frente e tinha tantas ideias a mais \u2013 e mais interessantes \u2013 que seus contempor\u00e2neos da cena punk, que seria necess\u00e1rio criar um novo subg\u00eanero musical s\u00f3 para enquadrar a banda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Smith era obcecado pelo krautrock de Can e Faust, adorava Stooges, Captain Beefheart e Velvet Underground, lia Camus (da\u00ed o nome da banda), Hunter Thompson e Arthur Machen. O som do Fall, pelo menos no in\u00edcio, era um esporro abrasivo que lembrava bandas de garagem dos anos 60 que haviam acabado de descobrir pedais de distor\u00e7\u00e3o, enfeiado pela voz lamurienta e arrastada de Smith, soando eternamente b\u00eabado. Mas era um b\u00eabado s\u00e1bio. Ningu\u00e9m da sua gera\u00e7\u00e3o fez letras t\u00e3o minimalistas e \u00e1cidas quanto ele. Nem Morrissey. Smith falava, \u00e0 sua maneira, da vida cinzenta e prolet\u00e1ria de Manchester, de pingu\u00e7os enchendo a cara em pubs, da nostalgia de um mundo mais simples. Tudo sem um pingo de sentimentalismo, que lamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 coisa de fresco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quando o assunto \u00e9 a cr\u00f4nica da classe baixa brit\u00e2nica, b\u00eabada e branca, Smith s\u00f3 tem um rival \u00e0 altura: Ray Davies, do Kinks. A diferen\u00e7a \u00e9 que Davies sempre foi um homem do \u00e1lcool, enquanto Smith vivia para a anfetamina. &#8220;Totally wired&#8221;, como ele mesmo diz em uma de suas melhores can\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nesses mais de 40 anos de Fall, Mark E. Smith perdeu a conta de quantos m\u00fasicos despediu. Uma mat\u00e9ria de 2011 do &#8220;Independent&#8221; contabilizou 66. Nesse tempo, lan\u00e7ou mais de 30 discos de est\u00fadio, todos iguais, mas diferentes. Fez punk, p\u00f3s-punk, teve uma fase meio eletr\u00f4nica no in\u00edcio dos 90, tentou de tudo sem nunca deixar de ser o Fall (um excelente ponto de partida para quem n\u00e3o conhece a banda \u00e9 a colet\u00e2nea dupla &#8220;50000 Fall Fans Can&#8217;t Be Wrong&#8221;, com 39 can\u00e7\u00f5es do per\u00edodo 1978 a 2003)<\/em>, <em>e a autobiografia de Smith, &#8220;Renegade&#8221; (infelizmente, nunca lan\u00e7ada no Brasil).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Outro bom documento sobre Smith e o Fall \u00e9 o filme &#8220;It&#8217;s Not Repetion, It&#8217;s Discipline&#8221;. \u00c9 uma produ\u00e7\u00e3o independente, bancada e dirigida por tr\u00eas f\u00e3s dinamarqueses, que encheram o saco de Smith por quase uma d\u00e9cada, at\u00e9 ele concordar em dar entrevistas. O filme \u00e9 de uma precariedade t\u00e9cnica lament\u00e1vel, com um som horroroso e filmagem amadora, mas as entrevistas s\u00e3o excelentes, incluindo depoimentos de f\u00e3s como Henry Rollins, Thurston Moore, Peter Hook, John Peel e Stephen Malkmus, e testemunhos de membros e ex-membros do grupo. Est\u00e1 no Youtube, com legendas autom\u00e1ticas em ingl\u00eas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6SoICqXUgMM\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p><em>O melhor papo do filme \u00e9 com Grant Showbiz, produtor que fez 16 discos do Fall e trabalhou com The Smiths e Alternative TV, entre outros. Grant descreve os m\u00e9todos heterodoxos de Smith no est\u00fadio, que incluem mexer nos bot\u00f5es de controle do mixer, aparentemente sem saber o que est\u00e1 fazendo, at\u00e9 obter um som cuja estranheza o satisfa\u00e7a. O produtor, que tamb\u00e9m fez o som de incont\u00e1veis turn\u00eas do Fall, diz que cansou de ver Smith escrever letras durante passagens de som, inspirado por acontecimentos repentinos. &#8220;Mark \u00e9 um dos mais brilhantes letristas que a m\u00fasica inglesa j\u00e1 teve\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tamb\u00e9m \u00e9 um dos sujeitos mais bipolares e imprevis\u00edveis, conhecido por despedir m\u00fasicos pelas raz\u00f5es mais mundanas. &#8220;Esse mito de que eu mando as pessoas embora \u00e9 extremamente exagerado,&#8221; diz Smith no document\u00e1rio. &#8220;S\u00e3o os m\u00fasicos, na maioria das vezes, que pedem pra sair. Eles fazem 30 anos, t\u00eam filhos, come\u00e7am a ter responsabilidades e n\u00e3o aguentam mais o ritmo e a responsabilidade de tocar no Fall. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 para beb\u00eas chor\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vi recentemente no Youtube (sem legendas em portugu\u00eas, infelizmente) um bom document\u00e1rio da BBC chamado \u201cThe Fall: The Wonderful and Frightening World of Mark E. Smith\u201d. Filmado em 2004, o filme conta a vida e obra de Smith, l\u00edder e faz-tudo da grande banda p\u00f3s-punk brit\u00e2nica The Fall. Mas h\u00e1 outro incr\u00edvel personagem na hist\u00f3ria: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1446,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1357,1342],"tags":[301,300,299,298],"class_list":["post-1445","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusivo","category-musica","tag-documentario-musical","tag-john-peel","tag-mark-e-smith","tag-the-fall"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1445","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1445"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1445\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1445"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1445"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1445"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}