{"id":1188,"date":"2021-10-27T06:00:00","date_gmt":"2021-10-27T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1188"},"modified":"2024-09-02T12:44:48","modified_gmt":"2024-09-02T15:44:48","slug":"a-biblia-dos-trambiques-musicais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/a-biblia-dos-trambiques-musicais\/","title":{"rendered":"A \u201cB\u00edblia\u201d dos trambiques musicais"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea sabe quando come\u00e7ou o jab\u00e1 na m\u00fasica?<\/p>\n\n\n\n<p>Foi na d\u00e9cada de trinta. Mil <em>oitocentos<\/em> e trinta e quatro, para ser exato, quando o ingl\u00eas Thomas Chappell pagou \u00e0 cantora l\u00edrica Clara Butt uma grana para que ela adicionasse algumas can\u00e7\u00f5es ao seu repert\u00f3rio. E quem vendia a partitura das can\u00e7\u00f5es? A Chappell Music, claro.<\/p>\n\n\n\n<p>E o primeiro caso de pirataria musical?<\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu em 1905, quando um meliante foi preso nas ruas de Londres vendendo c\u00f3pias falsificadas de partituras de famosas m\u00fasicas da \u00e9poca por um quinto do pre\u00e7o das partituras leg\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o caso do empres\u00e1rio de uma banda desconhecida que procurou dois escrit\u00f3rios especializados em <em>publishing<\/em> (edi\u00e7\u00e3o musical) para representar seus artistas. Ele foi ao primeiro escrit\u00f3rio, da Essex Music, esperou 15 minutos para ser atendido, perdeu a paci\u00eancia e decidiu ir ao segundo, onde foi recebido por um sujeito chamado Dick James. James ouviu a \u00fanica m\u00fasica que o grupo havia gravado at\u00e9 ent\u00e3o e concordou em represent\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>O empres\u00e1rio era Brian Epstein, a banda, os Beatles. Dick James virou bilion\u00e1rio. Por d\u00e9cadas, ganhou 32,5 % dos direitos de <em>publishing<\/em> de todas as can\u00e7\u00f5es de Lennon e McCartney. Ganhava mais que os compositores, que s\u00f3 ficavam com 29,25%. E a Essex Music ficou conhecida como a casa que rejeitou os Beatles.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas hist\u00f3rias \u2013 e dezenas de outras \u2013 sobre o lado sombrio da ind\u00fastria musical est\u00e3o em um livro obrigat\u00f3rio para quem se interessa pelas maquina\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria (e, infelizmente, in\u00e9dito em Portugu\u00eas): \u201cTa-ra-ra-boom-de-ay: The Dodgy Business of Popular Music\u201d, do ingl\u00eas Simon Napier-Bell.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"326\" height=\"500\" src=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/tarara2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1194\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Napier-Bell tem 82 anos e \u00e9 uma lenda dos bastidores do showbizz. Nos anos 60, escreveu letras para Dusty Springfield e empresariou os Yardbirds; nos 70, descobriu Marc Bolan e depois inventou o duo pop Wham!, com o ent\u00e3o desconhecido George Michael. (na foto acima, Simon posa com George e Andrew Ridgeley, do Wham!) \u00a0Napier-Bell \u00e9 um estudioso da hist\u00f3ria da m\u00fasica e conhece todo mundo no meio. No livro, junta a erudi\u00e7\u00e3o de d\u00e9cadas de pesquisa com o veneno de quem testemunhou, como \u201cinsider\u201d, v\u00e1rias das hist\u00f3rias que relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conta, por exemplo, como Paul McCartney ficou furibundo ao descobrir que suas m\u00fasicas j\u00e1 n\u00e3o lhe pertenciam, e como o Beatle resolveu se vingar do mundo fazendo exatamente o mesmo com outros artistas, comprando todo o cat\u00e1logo de Buddy Holly e vendendo suas m\u00fasicas para comerciais de TV.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Macca n\u00e3o demoraria a experimentar o pr\u00f3prio veneno: certa noite, jantando com Michael Jackson, comentou como estava ganhando uma fortuna com m\u00fasicas de outros artistas. Jacko brincou: \u201cSabe, Paul, um dia eu vou comprar as m\u00fasicas dos Beatles\u201d. McCartney riu e n\u00e3o deu muita bola.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Jacko n\u00e3o esqueceu a hist\u00f3ria. E depois de embolsar 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares com as vendas de \u201cThriller\u201d, usou metade da grana para comprar as m\u00fasicas dos Beatles. Enquanto McCartney espumava, Jacko vendia \u201cRevolution\u201d para um an\u00fancio da Nike e \u201cAll You Need is Love\u201d para a Panasonic.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro come\u00e7a no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, com o primeiro caso de jab\u00e1 registrado, e acompanha todo o desenvolvimento da ind\u00fastria musical. Ficamos sabendo, por exemplo, como Duke Ellington, Benny Goodman e todos os l\u00edderes de <em>big bands<\/em> recebiam grana de empresas de <em>publishing<\/em> para tocar determinadas can\u00e7\u00f5es e incentivar a venda de partituras, o neg\u00f3cio mais rent\u00e1vel da m\u00fasica na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Napier-Bell fala da \u201cTaxa Elvis\u201d \u2013 um percentual de 30% que todo compositor precisava pagar a Elvis se quisesse que ele gravasse sua m\u00fasica; conta como se formaram as maiores gravadoras do planeta \u2013 Columbia, RCA Victor, Atlantic \u2013 e faz perfis dos executivos que as comandaram. E explica, de forma clara, como um artista que vendeu 200 mil c\u00f3pias de um disco conseguia ficar devendo dinheiro \u00e0 gravadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o melhor do livro s\u00e3o as pequenas hist\u00f3rias de grandes trambiques e espertezas: como o sul-africano Clive Calder, que vendeu parte de sua gravadora, a Zomba, para a BMG, com uma cl\u00e1usula em que a BMG se comprometia a comprar o restante da Zomba por tr\u00eas vezes o lucro m\u00e9dio dos \u00faltimos tr\u00eas anos. Calder moveu o mundo e conseguiu contratar, de uma vez, Backstreet Boys, N\u2019Sync e Britney Spears, que venderam, juntos, 50 milh\u00f5es de discos s\u00f3 nos Estados Unidos. O lucro anual da Zomba chegou a 900 milh\u00f5es de d\u00f3lares, e Calder liquidou a empresa por inacredit\u00e1veis 2,7 bilh\u00f5es, tornando-se, de um dia para o outro, um dos 200 homens mais ricos do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>O cap\u00edtulo sobre a inven\u00e7\u00e3o das <em>boy bands<\/em> \u00e9 demais. Conhecemos Johnny Kitagawa, um empres\u00e1rio americano que mudou para o Jap\u00e3o nos anos 50 e, por quatro d\u00e9cadas, montou dezenas de grupos infantis como KinKi Kids, SMAP, Tokio, V6 e Four Leaves, todos soando id\u00eanticos e com menininhos ador\u00e1veis, que Kitagawa tra\u00e7ava sem d\u00f3, aproveitando que a idade consensual para sexo no Jap\u00e3o era de 13 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Napier-Bell conta a hist\u00f3ria de Lou Pearlman, agente que inventou o Backstreet Boys e o N\u2019Sync (e depois foi processado pelas duas bandas por ass\u00e9dio). Quando um rep\u00f3rter perguntou a Pearlman se esses grupos tinham prazo de validade, ele respondeu: \u201c<em>Boy bands<\/em> s\u00f3 deixar\u00e3o de ser populares no dia em que Deus parar de fabricar garotinhas\u201d. Napier-Bell completa: \u201cou no dia em que Deus parar de fabricar agentes homossexuais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Texto publicado originalmente em 2014 no portal R7.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea sabe quando come\u00e7ou o jab\u00e1 na m\u00fasica? Foi na d\u00e9cada de trinta. Mil oitocentos e trinta e quatro, para ser exato, quando o ingl\u00eas Thomas Chappell pagou \u00e0 cantora l\u00edrica Clara Butt uma grana para que ela adicionasse algumas can\u00e7\u00f5es ao seu repert\u00f3rio. E quem vendia a partitura das can\u00e7\u00f5es? A Chappell Music, claro. 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