{"id":1122,"date":"2021-10-04T06:00:00","date_gmt":"2021-10-04T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1122"},"modified":"2024-09-27T17:31:05","modified_gmt":"2024-09-27T20:31:05","slug":"um-grande-documentario-sobre-um-dos-piores-filmes-ja-feitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/um-grande-documentario-sobre-um-dos-piores-filmes-ja-feitos\/","title":{"rendered":"Um grande document\u00e1rio sobre um dos piores filmes j\u00e1 feitos"},"content":{"rendered":"\n<p>Recentemente, escrevi sobre o document\u00e1rio \u201cVal\u201d, que conta a vida do ator Val Kilmer (leia <a href=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/filme-sobre-o-astro-val-kilmer-e-maravilhoso-mas-vai-acabar-com-a-sua-semana\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/filme-sobre-o-astro-val-kilmer-e-maravilhoso-mas-vai-acabar-com-a-sua-semana\/\">aqui<\/a>). Alguns leitores pediram que eu repostasse um texto de 2015 sobre \u201cLost Soul\u201d, um document\u00e1rio que conta a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de \u201cA Ilha do Dr. Moreau\u201d (1996), uma megaprodu\u00e7\u00e3o que juntou Val Kilmer e Marlon Brando e foi um dos grandes fiascos da hist\u00f3ria do cinema. O texto estava fora do ar, portanto, aqui vai novamente:<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado originalmente no portal R7 em 2 de agosto de 2015:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 por isso que eu digo que nenhum blog tem leitores t\u00e3o bons quanto este: h\u00e1 alguns dias, a leitora Renata Teofilo recomendou um document\u00e1rio dispon\u00edvel no Netflix americano, \u201cLost Soul\u201d, de David Gregory. Vi o filme no fim de semana e n\u00e3o consigo parar de pensar nele. Obrigado, Renata.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cLost Soul\u201d conta a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de um dos piores filmes de todos os tempos, \u201cA Ilha do Dr. Moreau\u201d (1996), uma bomba de propor\u00e7\u00f5es at\u00f4micas dirigida por John Frankenheimer e estrelada por Marlon Brando e Val Kilmer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x4xun1vi4C0\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p><em>Mas o personagem principal \u00e9 Richard Stanley, um cineasta talentoso que foi tirado do projeto no meio das filmagens e substitu\u00eddo por Frankenheimer. O filme conta a saga de Stanley, ent\u00e3o com 30 anos, para adaptar \u201cDr. Moreau\u201d para o cinema, a atribulada experi\u00eancia de lidar com uma grande produ\u00e7\u00e3o e, por fim, o colapso mental, f\u00edsico e psicol\u00f3gico que o filme causou no cineasta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA Ilha do Dr. Moreau\u201d foi a terceira adapta\u00e7\u00e3o para o cinema do cl\u00e1ssico romance de terror e fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica de H.G. Wells, lan\u00e7ado em 1896, sobre um n\u00e1ufrago que acaba encontrando uma ilha em que um cientista conduz experimentos abomin\u00e1veis com animais e cria seres grotescos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>No meio dos anos 90, Stanley era uma grande promessa do cinema independente de horror, tendo dirigido um filme excelente, \u201cHardware\u201d (1990). Mas seu sonho era adaptar para as telas \u201cA Ilha do Dr.Moreau\u201d, um de seus livros favoritos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O projeto atraiu a aten\u00e7\u00e3o da produtora americana New Line Cinema, que concordou em dar a Stanley um or\u00e7amento modesto de oito8 milh\u00f5es de d\u00f3lares para fazer o filme.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas a maldi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou quando algu\u00e9m sugeriu Marlon Brando para o papel de Moreau. Para espanto de todos, o recluso e exc\u00eantrico ator aceitou. Com Brando a bordo, outro superastro de Hollywood entrou no projeto \u2013 Bruce Willis. Para completar, James Woods tamb\u00e9m foi chamado. Com esse trio, o que deveria ser um pequeno filme independente virou uma produ\u00e7\u00e3o de 35 milh\u00f5es de d\u00f3lares (equivalente a uns 70 milh\u00f5es hoje).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Stanley dedicou quatro anos ao projeto. Al\u00e9m de escrever o roteiro em colabora\u00e7\u00e3o com Walon Green, que escreveu \u201cMeu \u00d3dio Ser\u00e1 Tua Heran\u00e7a\u201d (1969), de Sam Peckinpah, e com o jornalista Michael Herr, autor de uma obra-prima da literatura jornal\u00edstica, \u201cDispatches\u201d, sobre sua experi\u00eancia cobrindo a guerra do Vietn\u00e3, Stanley criou toda a concep\u00e7\u00e3o visual do filme e encontrou uma loca\u00e7\u00e3o ideal em Cairns, no norte da Austr\u00e1lia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas as coisas come\u00e7aram a desandar. Primeiro foi o div\u00f3rcio de Bruce Willis e Demi Moore, que fez Willis desistir do projeto. Seu substituto foi um dos sujeitos mais arrogantes e intrat\u00e1veis de Hollywood: Val Kilmer. James Woods tamb\u00e9m pulou fora e foi substitu\u00eddo por Rob Morrow (\u201cQuis Show\u201d).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Pr\u00f3ximo ao in\u00edcio das filmagens, a filha de Marlon Brando, Cheyenne, cometeu suic\u00eddio, o que p\u00f4s o projeto em risco. Ningu\u00e9m conseguia falar com Brando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Depois de algumas semanas de espera, Brando apareceu, mais louco do que nunca. Sua primeira exig\u00eancia foi se maquiar todo de branco, como um personagem de teatro kabuki japon\u00eas. Depois pediu ao diretor de arte que fizesse um chap\u00e9u de um balde, que passou a usar na cabe\u00e7a todos os dias. Brando chegou ao set sem ter lido o roteiro e falava coisas sem coer\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O ator se encantou com um figurante, um dominicano chamado Nelson de La Rosa, um dos menores homens do mundo \u2013 media 71 cent\u00edmetros \u2013 e exigiu que de La Rosa fosse transformado em uma vers\u00e3o \u201cmini\u201d dele pr\u00f3prio, inclusive usando as mesmas roupas (muitos dizem que o personagem Mini-Me, da s\u00e9rie \u201cAustin Powers\u201d, foi inspirado em La Rosa).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A essa altura, Stanley j\u00e1 havia sido despedido. O diretor tivera uma crise nervosa depois de ser humilhado incont\u00e1veis vezes por Val Kilmer. O clima no set era t\u00e3o bom que Rob Morrow, depois de apenas quatro dias de filmagem, ligou para a produtora e implorou: \u201cPelo amor de Deus, me tirem daqui, quero voltar pra minha fam\u00edlia!\u201d Stanley abandonou o set e desapareceu. Alguns meses depois, membros da equipe de filmagem o encontraram morando numa vila no meio do mato, balbuciando coisa sem sentido e amaldi\u00e7oando Val Kilmer.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Quem substituiu Stanley de \u00faltima hora foi John Frankenheimer, ent\u00e3o com 66 anos, um veterano de Hollywood com grandes filmes no curr\u00edculo, como \u201cSeconds\u201d (1964) e \u201cOpera\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a 2\u201d (1975). Mas nem Frankenheimer aguentou trabalhar com Brando. Alguns dias depois do in\u00edcio das filmagens, foi a vez dele ligar para a produtora: \u201cJ\u00e1 trabalhei com muitos atores dif\u00edceis, mas nunca na minha vida toda tive de aturar um lun\u00e1tico como Marlon Brando\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A briga de egos entre Brando e Kilmer teve momentos \u00e9picos. Certo dia, cada um ficou esperando o outro sair de seu trailer, deixando toda a equipe, incluindo cerca de 50 figurantes, que haviam passado por sess\u00f5es de maquiagem de mais de tr\u00eas horas para se transformar nos homens-animais de Moreau, esperando o dia inteiro. Uma figurante diz que foi contratada para tr\u00eas semanas de trabalho, mas que acabou ficando no set por seis meses. Com tanto tempo livre, o set virou uma orgia de sexo e drogas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA Ilha do Dr. Moreau\u201d acabou sendo lan\u00e7ado em novembro de 1996 e foi destro\u00e7ado pela cr\u00edtica. Brando ganhou o pr\u00eamio Framboesa de Ouro de pior ator do ano. E Richard Stanley se pirulitou para um vilarejo nos Pireneus franceses, passou cinco anos sem fazer nada e s\u00f3 voltou a filmar em 2001 (ali\u00e1s, um document\u00e1rio que parece muito interessante, sobre a busca de Otto Rahn, o oficial da SS nazista, pelo C\u00e1lice Sagrado).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mais que um document\u00e1rio sobre um filme que n\u00e3o deu certo, \u201cLost Soul\u201d \u00e9 um mergulho na insanidade \u2013 de Stanley, Brando, Kilmer, Frankenheimer \u2013 e de Hollywood. Um dos melhores document\u00e1rios que vi nos \u00faltimos tempos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mais uma vez, obrigado, Renata.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E <a href=\"https:\/\/archive.org\/details\/LostSoulTheDoomedJourneyOfTheIslandOfDrMoreau720p\/Lost+Soul+The+Doomed+Journey+of+the+Island+of+Dr+Moreau+720p.mkv\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/archive.org\/details\/LostSoulTheDoomedJourneyOfTheIslandOfDrMoreau720p\/Lost+Soul+The+Doomed+Journey+of+the+Island+of+Dr+Moreau+720p.mkv\">aqui<\/a>, um presente do leitor Beto Meyer: um link para o document\u00e1rio completo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente, escrevi sobre o document\u00e1rio \u201cVal\u201d, que conta a vida do ator Val Kilmer (leia aqui). Alguns leitores pediram que eu repostasse um texto de 2015 sobre \u201cLost Soul\u201d, um document\u00e1rio que conta a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o de \u201cA Ilha do Dr. Moreau\u201d (1996), uma megaprodu\u00e7\u00e3o que juntou Val Kilmer e Marlon Brando e foi [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1123,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[1357,1343],"tags":[117,118,120,119],"class_list":["post-1122","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-exclusivo","category-filme","tag-ilhadodoutormoreau","tag-marlonbrando","tag-richardstanley","tag-valkilmer"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1122\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}