{"id":1010,"date":"2021-08-27T06:00:00","date_gmt":"2021-08-27T06:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/?p=1010"},"modified":"2024-09-27T17:31:05","modified_gmt":"2024-09-27T20:31:05","slug":"planeta-agua-vs-purpurina-40-anos-da-batalha-do-pop-contra-a-mpb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/webpreview.net.br\/barcinski\/planeta-agua-vs-purpurina-40-anos-da-batalha-do-pop-contra-a-mpb\/","title":{"rendered":"&#8220;Planeta \u00c1gua&#8221; vs. &#8220;Purpurina&#8221;: 40 anos da batalha do pop contra a MPB"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 12 de setembro de 1981, um evento marcou a hist\u00f3ria da m\u00fasica pop no Brasil: a derrota da can\u00e7\u00e3o \u201cPlaneta \u00c1gua\u201d, de Guilherme Arantes, para \u201cPurpurina\u201d, interpretada pela cantora Lucinha Lins, no festival MPB Shell, transmitido pela TV Globo. Na \u00e9poca, pouca gente percebeu, mas aquela disputa simbolizava um racha na m\u00fasica brasileira: de um lado, o novo pop das r\u00e1dios FM; do outro, a velha MPB das AMs.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meu livro \u201cPav\u00f5es Misteriosos\u201d, contei a hist\u00f3ria daquela noite e suas implica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a atriz Christiane Torloni anunciou a m\u00fasica vencedora do Festival MPB Shell 1981 \u2013 \u201cPurpurina\u201d, interpretada por Lucinha Lins \u2013, o Maracan\u00e3zinho veio abaixo. Mais de 25 mil pessoas iniciaram uma vaia monumental, que se prolongou por quase dez minutos. Os milh\u00f5es de telespectadores que assistiam ao festival pela TV Globo viram Lucinha Lins, bastante abalada, tentar cantar a m\u00fasica vencedora, mas tendo a voz soterrada pelos gritos da plateia. O p\u00fablico havia escolhido sua can\u00e7\u00e3o favorita \u2013 \u201cPlaneta \u00e1gua\u201d, com Guilherme Arantes, e n\u00e3o perdoou o resultado.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7JB9h5y_nGY\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Composta pelo ga\u00facho Jer\u00f4nimo Jardim, \u201cPurpurina\u201d era uma m\u00fasica lenta e rom\u00e2ntica, com um bonito arranjo de piano. Nas eliminat\u00f3rias, chegou a ser aplaudida pelos jurados. Lucinha interpretava em um tom intimista, quase sussurrado. J\u00e1 \u201cPlaneta \u00e1gua\u201d era diferente: um balad\u00e3o alegre, de tema ecol\u00f3gico e refr\u00e3o bomb\u00e1stico, que Guilherme Arantes cantava com empolga\u00e7\u00e3o. Em seu piano, ele abria a can\u00e7\u00e3o de forma contida, mas avan\u00e7ava com um crescendo, at\u00e9 explodir no refr\u00e3o, feito para ser entoado por uma grande plateia.<\/p>\n\n\n\n<p>A disputa entre \u201cPurpurina\u201d e \u201cPlaneta \u00e1gua\u201d simbolizou um racha que chegava ao auge exatamente naquele in\u00edcio dos anos 1980: a briga entre a \u201cvelha\u201d MPB de origem bossa-novista e o \u201cnovo\u201d pop brasileiro. Lucinha Lins e Guilherme Arantes encarnavam os estere\u00f3tipos de cada estilo: ela, uma linda, fria e elegante <em>crooner<\/em>, apresentando uma can\u00e7\u00e3o sofisticada e apol\u00ednea; ele, um jovem rebelde de cabelos desgrenhados e pinta de gal\u00e3 <em>teen<\/em>, enchendo o peito para cantar uma m\u00fasica de letra simples e forte apelo pop. Essa \u201cbriga\u201d n\u00e3o se limitava \u00e0s arquibancadas do Maracan\u00e3zinho, mas chegava tamb\u00e9m \u00e0s ondas do r\u00e1dio, onde o velho dom\u00ednio das esta\u00e7\u00f5es AM estava sendo destru\u00eddo por uma revolu\u00e7\u00e3o jovem: as FMs.<\/p>\n\n\n\n<p>A populariza\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios FM, no fim dos anos 1970, mudou a ind\u00fastria da m\u00fasica no Brasil. At\u00e9 ent\u00e3o, as AMs dominavam, com suas programa\u00e7\u00f5es pr\u00e9-gravadas e poucas interven\u00e7\u00f5es de locutores. Quando as FMs surgiram com for\u00e7a \u2013 um marco foi a estreia da R\u00e1dio Cidade, no Rio, em 1977 \u2013 tudo mudou: o estilo de locu\u00e7\u00e3o passou a ser mais solto e descontra\u00eddo, e a programa\u00e7\u00e3o privilegiava a m\u00fasica jovem. As FMs tocavam, basicamente, pop-rock: Guilherme Arantes, Pepeu Gomes, Rita Lee, Fagner, Queen, Michael Jackson, Kim Carnes, A Cor do Som. Segundo a revista <em>Veja<\/em> (edi\u00e7\u00e3o de 27\/7\/1984), nas grandes cidades brasileiras, mais de 70% do p\u00fablico entre 15 e 29 anos ouvia FM. Esse n\u00famero ca\u00eda para 22% entre ouvintes mais velhos, na faixa de 40 a 65 anos. FM era coisa de \u201cmo\u00e7ada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PCLe9yFzVYE\" title=\"YouTube video player\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>A primeira emissora em FM no Brasil foi a R\u00e1dio Imprensa, no Rio de Janeiro. Em meados dos anos 1950, a Imprensa transmitia programa\u00e7\u00e3o musical exclusivamente para consult\u00f3rios e lojas. At\u00e9 1974, havia cerca de quinze emissoras FM em opera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. No fim da d\u00e9cada de 1970, elas j\u00e1 chegavam a quatrocentas. Como as FMs transmitiam em est\u00e9reo, com qualidade de som superior \u00e0 das outras frequ\u00eancias, obtiveram sucesso imediato. Os fabricantes de aparelhos de som passaram a colocar no mercado cada vez mais equipamentos com receptores de FM. No in\u00edcio dos anos 1980, quase 80% da frota brasileira de autom\u00f3veis j\u00e1 estava equipada com r\u00e1dios FM.<\/p>\n\n\n\n<p>As emissoras FM, como a Cidade, no Rio, e a Bandeirantes e a Jovem Pan 2, em S\u00e3o Paulo, inovaram na linguagem radiof\u00f4nica, com locutores que falavam g\u00edrias e uma programa\u00e7\u00e3o focada em m\u00fasica jovem e comercial. Guilherme Arantes foi um dos maiores beneficiados, como ele mesmo recorda: \u201cQuando a R\u00e1dio Cidade dominou a cena, lan\u00e7ou muita gente: eu, A Cor do Som, Geraldo Azevedo, Simone, todo mundo tocava bem na FM. Tinha tamb\u00e9m a linha nordestina do Fagner, que tocava muito. O pop brasileiro era muito bem-feito naquela \u00e9poca\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto as FMs abra\u00e7avam o novo pop brasileiro, as AMs continuavam tocando MPB, m\u00fasica rom\u00e2ntica, brega, samba e sertanejo. Criou-se uma barreira invis\u00edvel que dividia os dois \u201cBrasis\u201d: o jovem e o velho. Guilherme Arantes conta que alguns artistas mais antigos tiveram dificuldade em migrar para as FMs, como Chico Buarque e Roberto Carlos, que demoraram a se adaptar ao tipo de som exigido pelas novas r\u00e1dios. \u201cJ\u00e1 o Gil, ele fez <em>Realce<\/em> em Los Angeles, um disco muito bem-produzido, com uma sonoridade moderna, e foi um dos primeiros caras da AM a migrar para a FM. A Rita Lee tamb\u00e9m conseguiu\u201d, diz Guilherme Arantes. \u201cEssas quest\u00f5es tecnol\u00f3gicas parecem cosm\u00e9ticas, mas a verdade \u00e9 que a tecnologia acaba sendo mandat\u00f3ria. Ela passa na frente das coisas. \u00c0s vezes, a gente analisa os aspectos art\u00edsticos e est\u00e9ticos, mas esquece que, no fundo, o que existe \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. E, como acontece depois de toda migra\u00e7\u00e3o, muita gente ficou pra tr\u00e1s.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1987, seis anos depois do embate entre Lucinha Lins e Guilherme Arantes, alguns desses artistas que \u201cficaram para tr\u00e1s\u201d, jogados de escanteio pelas FMs \u2013 Silvio Brito, Ronnie Von, Alcione, Jair Rodrigues, Vanusa, Luiz Ayr\u00e3o e Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3 \u2013, se reuniram em um especial na TV Bandeirantes em homenagem ao cantor Antonio Marcos. Um dos cantores mais populares do Brasil na d\u00e9cada de 1970, com sucessos como \u201cHomem de Nazar\u00e9\u201d e \u201cComo vai voc\u00ea\u201d, Antonio Marcos passava por um momento dif\u00edcil, devido a problemas com drogas e \u00e1lcool.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos convidados do programa era Moacyr Franco, que aproveitou a ocasi\u00e3o para lan\u00e7ar uma m\u00fasica chamada \u201cAM\u201d. Diante de um audit\u00f3rio lotado, Moacyr fez um discurso apaixonado contra as r\u00e1dios FM, intercalado por l\u00e1grimas: \u201cAlgumas can\u00e7\u00f5es fizeram sucesso porque voc\u00eas as ouviram, porque a r\u00e1dio permitia que voc\u00eas as escutassem [&#8230;]. Hoje, a r\u00e1dio, especialmente a FM, se especializou em um tipo de m\u00fasica e afastou completamente gente como \u00c2ngela Maria, Miltinho, Pery Ribeiro, S\u00edlvio C\u00e9sar, Maria Creuza, Luis Vieira, Nelson Ned, Agnaldo Rayol e Agnaldo Tim\u00f3teo\u201d. A can\u00e7\u00e3o \u201cAM\u201d era um lamento, uma evoca\u00e7\u00e3o quase religiosa dos tempos passados: \u201cPai, o teu sil\u00eancio me apavora\/ Pai, eu quero uma resposta agora\/ Pai, quem \u00e9 que mata esse gigante?\u201d. No fim do show, Antonio Marcos, visivelmente debilitado, subiu ao palco para cantar com os amigos. Ele morreria cinco anos depois, de insufici\u00eancia hep\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 12 de setembro de 1981, um evento marcou a hist\u00f3ria da m\u00fasica pop no Brasil: a derrota da can\u00e7\u00e3o \u201cPlaneta \u00c1gua\u201d, de Guilherme Arantes, para \u201cPurpurina\u201d, interpretada pela cantora Lucinha Lins, no festival MPB Shell, transmitido pela TV Globo. 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