ago/2021

Filme revela os demônios de Daniel Johnston, gênio “naif” do rock

Por André Barcinski

Filme revela os demônios de Daniel Johnston, gênio “naif” do rock

Por André Barcinski

Escondido sob o insosso título de “Loucuras de um Gênio”, a plataforma MUBI exibe o ótimo documentário “The Devil and Daniel Johnston”, sobre o genial e problemático músico Daniel Johnston.

Lançado em 2006 e dirigido por Jeff Feuerzeig, o filme ajudou a estabelecer a fama de Johnston como um artista adorado no circuito do “indie rock”, autor de canções simples e até “naifs” em sua ingenuidade e tons infantis, que atraíram a atenção de Kurt Cobain, Sonic Youth, Yo La Tengo, Half Japanese e Matt Groening, criador do “Simpsons”.

O filme conta a triste e fascinante vida de Johnston: filho caçula de uma família extremamente religiosa da Virginia, começou a gravar, em seu quarto, canções em fitas cassete. Eram músicas muito simples, que descreviam seus amores frustrados, sonhos e visões de personagens de gibis como Gasparzinho e Capitão América.

A vida “normal” nunca atraiu Johnston. Não se adaptou à escola e acabou morando com um irmão em Austin, no Texas, onde trabalhava no McDonald’s e começou a atrair a atenção da cena musical. Em meados dos anos 1980, dois acontecimentos mudariam sua vida: o primeiro foi uma entrevista na MTV, que fazia um programa especial sobre a música de Austin. A aparição de Johnston foi tão marcante que chamou a atenção de bandas como Sonic Youth e Half Japanese.

O segundo acontecimento teve efeitos trágicos: num show do alucinado grupo texano Butthole Surfers, Johnston começou a usar ácido e nunca mais parou. Somado à maconha e remédios, que ele consumia diariamente, o coquetel tirou Johnston definitivamente do prumo, e ele foi internado com sintomas de esquizofrenia e desordem bipolar. Não vou estragar as muitas surpresas do filme, mas é comovente ver o esforço de Dale e Mabel, pais de Daniel, para ajudar o filho.

No início dos anos 90, Kurt Cobain começou a usar uma camiseta com o desenho da capa do disco “Hi, How Are You?”, e isso multiplicou o interesse pela obra de Daniel Johnston. Além da música, o público passou a consumir suas pinturas e desenhos, e renomadas galerias de arte começaram a vender suas obras.

O documentário fez bastante sucesso no circuito alternativo. Feuerzeig ganhou o prêmio de melhor diretor no festival de Sundance e se estabeleceu como um cronista da vida de personagens interessantes e um tanto enigmáticos, trabalhando em projetos sobre Jeff Dowd, inspiração para o personagem principal do filme “O Grande Lebowski”, o boxeador Chuck Wepner, que inspirou “Rocky”, e o autor JT Leroy.

Quanto a Daniel Johnston, passou a década seguinte ao filme excursionando pelo mundo e exibindo sua arte em galerias. Em 2017, anunciou a aposentadoria dos palcos, em uma turnê em que foi acompanhado por fãs como Jeff Tweedy (Wilco) e Built to Spill. Em 2019, morreu de um aparente ataque do coração, enquanto dormia. Tinha 58 anos.

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