dez/2024

Crítica: “Senna” (Netflix)

Por André Barcinski

Crítica: “Senna” (Netflix)

Por André Barcinski

A Netflix exibe “Senna”, uma minissérie em seis episódios sobre a vida do piloto Ayrton Senna (1960-1994). Os números são superlativos: orçamento de 250 milhões de reais, mais de 300 diárias de filmagem, gravações em quatro países e um elenco internacional. Foi o maior investimento da história da Netflix no Brasil, e o orçamento representa nada menos de 25% do total investido pela plataforma no país entre 2023 e 2024.

Antes do texto, dois avisos: se você não viu a minissérie, veja antes de ler, porque dou alguns “spoilers”. E preciso avisar que já trabalhei para a produtora da série, a Gullane, para quem fiz a série “O Rei da TV”, mas não participei de “Senna” e sinto-me inteiramente à vontade para falar da minissérie.

“Senna” foi dirigido por Vicente Amorim e Julia Rezende, dois cineastas muito competentes e com currículos de respeito. A parte técnica da minissérie é um primor. Os destaques são as cenas de corridas, feitas com uma mistura de imagens de arquivo, recriações e computação gráfica. Mesmo quem não é fã de automobilismo se emociona com as sequências de carros disputando posições em alta velocidade, muitas vezes mostradas do ponto de vista de Ayrton Senna ou de seus rivais como o francês Alain Prost.

A série tem, a meu ver, dois problemas básicos.

O primeiro é ter sido produzido e aprovado pela família de Ayrton Senna, o que torna a narrativa completamente chapa branca e enviesada. Ayrton é mostrado como um santo, uma criatura imaculada que nunca teve – pelo menos até o quarto episódio – um pensamento ruim na cabeça e é incapaz de passar por cima de alguém. Quando ele abandona a equipe Toleman e vai para a Lotus sem avisar ao chefe da Toleman, isso não é sequer mostrado, mas contado numa elipse quando o chefe vai cobrar Ayrton numa festa e ouve do brasileiro: “Mas eu tenho uma cláusula no contrato…” Até as possíveis escorregadas morais de Senna são justificadas de alguma forma.

O segundo problema, e um que torna a experiência de assistir à minissérie por vezes dolorosa, é a absoluta caretice e didatismo do roteiro.

Não sou especialista em Fórmula-1 e não vou ficar discutindo possíveis rombos de lógica ou erros da história. “Senna” é uma obra de ficção baseada em fatos, e acho natural que eventos sejam adaptados e personagens criados ou mudados para servir à narrativa. Isso não me aborrece de jeito nenhum.

O que me aborrece são diálogos expositivos, frases que explicam ao espectador o que está acontecendo, personagens que dizem o que estão fazendo, por que estão fazendo, e a consequência do que estão fazendo. E nisso, “Senna” é pole-position.

A minissérie inventou a personagem de uma jornalista anglo-brasileira, Laura (Kaya Scodelario), que cobre os campeonatos de Fórmula-1. Até aí, nada demais. O problema é que Laura vira uma espécie de “bula” da minissérie: toda vez que há uma cena de compreensão mais desafiadora para o público (Senna vai ser punido pela manobra arriscada que fez? Prost vai sair da McLaren?), aparece a Laurinha para explicar tudo nos mííííííínimos detalhes, como fazia o Explicadinho interpretado por Rony Rios em “A Praça É Nossa”.

Mas não é só a Laurinha. Quase todos os diálogos são daqueles de novela: “O que Ayrton está fazendo? Se ele forçar demais o carro pode quebrá-lo, e ele vai perder o campeonato!” É nesse nível.

O roteiro passou pela aprovação da família de Ayrton Senna e é de um maniqueísmo absoluto. Personagens são bons (a favor de Ayrton) ou maus (contra Ayrton). O chefão da Federação Internacional de Automobilismo, o francês Jean-Marie Balestre, parece um vilão de desenho animado, que passa as corridas trancado em salas escuras fumando charutos, bebendo uísque e pensando em como pode ferrar a vida do nosso brasileirinho.

“Senna” parece uma novela de luxo. Tudo é tão envernizado e limpinho que você não consegue se conectar com os personagens, porque são todos arquétipos e estão ali com funções específicas dentro da trama. Se você já viu alguns filmes na vida – e os assinantes do blog já viram muitos – vai adivinhar o desfecho de todas as cenas e revirar os olhos com a breguice de vários diálogos. Uma pena, porque a vida de um ídolo do esporte que morreu no auge da fama poderia render uma história muito comovente.

Um ótimo dia a todas e todos.

14 comentários em "Crítica: “Senna” (Netflix)"

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, só vi o primeiro capítulo da “Novela de Luxo” que é o Senna e a intenção da família é essa mesmo: Reforçar a santificação do cara visando a valorização da marca, pois hoje ele vale muito mais morto do que vivo, tipo uma versão brasileira das “marcas” Elvis e Michael Jackson, por exemplo!!!
    E mesmo dentro do universo da Fórmula 1, tem personagens muito mais interessantes para uma série documental ou não, como por exemplo, o Lewis Hamilton, Michael Schumacher, os irmãos Fittipaldi, Nélson Piquet, Nigel Mansell, Jim Clark, Jochen Rindt, Niki Lauda, etc, etc e etc!!!

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    Fabio Henrique Collet

    Sempre rolou essa aura de ser divino a esse cara. Tanto é que um circo elitista (patrocinado por rolex, carros de luxo, marcas de iates, foi no Brasil transformado em um esporte de massa no Brasil. Muito pelo auge da Globo. Se bem que automobilismo não pode ser considerado esporte….

  • Só de ser um roteiro que passou pela aprovação da “controversa” família Senna já é um motivo para eu não passar perto. Eu vivi a época e o cara não era esse doce-de-coco-quase-santo-quase-abobalhado que vivia pensando apenas na felicidade do povo brasileiro.

  • Tudo que diz respeito ao Senna me dá sono e um certo asco. A maneira como endeusaram esse cara é um troço nojento, não vou perder meu tempo vendo essa bagaçeira! Obrigado por avisar…

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    Cleibsom Carlos Alves Cabral

    A série faz o seu papel direitinho e é chata igual ao Senna. Só não entendo quem “cobra” que produtos assim abordem as nuances, contradições e complexidade de alguém…Afinal, elas não são feitas para isso e sim para endeusarem a fulana ou o fulano da vez com o máximo de “liberdade” possível, deixando a personagem em termos de perfeição e retidão abaixo apenas de deus e jesus cristo. SENNA está na dela, ingênuo é quem espera outra coisa deste tipo de porcaria laudatória.

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    Fabio Henrique Goncalves

    Não dá pra engolir aquela galera na periferia de São Paulo, torcendo reunida, em plena madrugada, com bandeiras do Brasil e ruas enfeitadas de verde e amarelo. Nem dá pra justificar dizendo que, talvez, fosse uma corrida em época de Copa do Mundo. Nitidamente, uma tentativa de vender pro mercado internacional uma mobilização exagerada do país em relação ao Senna.

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    Carlos Thomaz Pl Albornoz

    Em livros a gente aprende sempre a fugir das biografias autorizadas, pois elas são sempre chapa branca… eu não tinha a menor dúvida que o pachequismo ia dominar a narrativa. Vou acabar vendo, até pela Kaya Scodelario, linda inglesa com mãe de Itu, mesmo sabendo que ela dificilmente vai aparecer de biquini… mas está no final da fila, tem muita coisa bacana na frente.

  • A família Senna é realmente um pé no saco.

    O Flávio Gomes, que conheceu-o de perto, fez uma análise interessante sobre a série, que não explorou a complexidade e as contradições do piloto pra agradar a pachecada.

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    Manuel Goncalves

    Eu nunca fui muito de acompanhar F1 mesmo na época do Senna e meio que esperava que a série seria chapa branca. A Adriane Galisteu pelo que li a respeito da série, simplesmente quase que não existe. Lembrei do filme sobre o Cazuza em que o Ney Matogrosso sequer é citado. Vou passar.

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