nov/2024

Primal Scream: 1991 não acabou!

Por André Barcinski

Primal Scream: 1991 não acabou!

Por André Barcinski

Mais de quatro décadas depois de nascer, o pós-punk britânico vai bem, obrigado. Nos últimos meses, algumas das bandas mais importantes daquele movimento, surgido na esteira do punk rock, mas abarcando um maior ecletismo de sonoridades, como eletrônica, drones de guitarra e psicodelia, têm lançado álbuns marcantes.

Em abril de 2024, The Jesus and Mary Chain, grupo formado pelos irmãos escoceses William e Jim Reid, lançou “Glasgow Eyes”, melhor álbum deles em pelo menos 25 anos. Em novembro, os britânicos do The Cure, liderados por Robert Smith, retornaram com o primeiro disco de inéditas em 16 anos, o elogiadíssimo “Songs of a Lost World”. São bandas formadas por volta do mesmo período (The Cure em 1978, cinco anos antes do JAMC), mas que estouraram juntas, no início dos anos 1980.

Os dois discos marcam também uma espécie de retorno sonoro às eras de ouro das duas bandas. “Glasgow Eyes” traz a sonoridade típica dos irmãos Reid, com guitarras abrasivas por cima de canções pop de assobiar junto, enquanto “Songs of a Lost World” devolve o Cure ao mundo sombrio e gótico do LP “Disintegration” (1989), seu maior sucesso de vendas. 

Agora, outro membro honorário do clube do pós-punk britânico chega com um novo LP: o Primal Scream. Formado em Glasgow, na Escócia, em 1982, e liderado pelo cantor Bobby Gillespie, que dobrava como baterista do The Jesus and Mary Chain (Gillespie gravou o clássico disco de estreia do JAMC, “Psychocandy”, de 1985), o PS lançou dois discos bem recebidos, “Sonic Flower Groove” (1987) e “Primal Scream” (1989), antes de estourar mundialmente com a obra-prima “Screamadelica”, de 1991.

“Screamadelica” saiu um dia antes de “Nevermind”, do Nirvana, mas não poderia ser mais diferente: enquanto Kurt Cobain modernizava o metal do Black Sabbath adicionando a ele a doçura e verniz pop dos Pixies, Bobby Gillespie e seu Primal Scream, à época mergulhados de cabeça na cena eletrônica britânica, misturaram rock psicodélico às batidas dançantes da acid house, embalado por quantidades industriais de LSD e ecstasy. “Screamadelica” foi um dos primeiros discos “de rock” a tocar em clubes e raves de música eletrônica.

O Primal Scream teve uma sequência brilhante de lançamentos, com “Give Out But Don’t Give Up” (1994), “Vanishing Point” (1997) e, principalmente, “XTRMNTR” (2000), mas depois parece ter entrado no piloto automático e lançado discos que traziam uma ou outra canção de destaque, mas sem o impacto de “Screamadelica” ou “XTRMNTR”.

Nos últimos tempos, Bobby Gillespie fez diversos trabalhos interessantes fora do Primal Scream: lançou a excelente autobiografia “Garoto do Cortiço”, publicado no Brasil pela editora Terreno Estranho, e gravou um disco, “Utopian Ashes”, com a cantora e atriz francesa Jehnny Beth. O último disco com o Primal Scream, “Chaosmosis”, lançado em 2016, não foi bem recebido pela crítica e pelo público. Em 2022, o tecladista da banda, Martin Duffy, que tinha problemas com alcoolismo, morreu aos 55 anos.

O futuro do Primal Scream parecia incerto, até que Gillespie, para surpresa de muitos, anunciou o lançamento de “Come Ahead”, 12º disco de estúdio do Primal Scream. O título do LP já evidencia o renovado espírito combativo do novo trabalho: “Come ahead” é uma expressão escocesa que significa algo como “Pode vir, estou pronto para brigar com você”. Na capa, Gillespie botou uma foto do pai, Robert Gillespie Senior, um sindicalista e ativista político conhecido na Escócia. Em entrevistas, disse que o tema central do novo disco é o conflito, “seja interno ou externo”.

As letras de “Come Ahead” falam sobre temas atuais, dos massacres em Gaza à apatia política das novas gerações. O curioso é que Gillespie, que escreveu sozinho todas as faixas, optou por uma sonoridade festiva e dançante que remete a “Screamadelica”. E tome percussões latinas, corais de vozes femininas, guitarras funkeadas e um clima geral de celebração. É o Primal Scream voltando às origens.

Um ótimo dia a todas e todos.

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