nov/2024

Dois filmes geniais e arrasadores

Por André Barcinski

Dois filmes geniais e arrasadores

Por André Barcinski

A plataforma Filmicca oferece uma sessão dupla do documentarista norte-americano Joshua Oppenheimer: “O Ato de Matar” (2012) e “O Peso do Silêncio” (2014). Os filmes vão acabar com seu fim de semana, mas estão entre os melhores documentários dos últimos anos. Ambos tratam do genocídio de cerca de um milhão de pessoas depois do golpe de Estado de 1965 na Indonésia, que pôs na Presidência o sádico Suharto.

Em 2013, escrevi sobre “O Ato de Matar”:

Os personagens principais são dois velhinhos simpáticos, Anwar Congo e Ady Zulkadry. Eles aparecem brincando com os netos, dançando e passeando por um shopping com a família. É só quando começam a contar suas trajetórias que percebemos que são dois assassinos em massa. Anwar diz ter matado mais de mil pessoas, a maioria por estrangulamento com uma forca de arame.

Os dois eram bandidinhos comuns e viviam de pequenos golpes, quando Suharto tomou o poder e começou a arregimentar grupos paramilitares para exterminar comunistas – na verdade, qualquer um que se opunha ao regime. Anwar e Ady viraram astros da nova máquina de matar do Estado indonésio, liderando ataques a aldeias, escolas, fazendas, universidades, enfim, a qualquer lugar sob “ameaça” comunista.

Joshua Oppenheimer dirige “O Ato de Matar”

O diretor Joshua Oppenheimer convenceu alguns dos membros desses esquadrões da morte a reencenar, em forma de musical, faroeste e filme de aventura, algumas das atrocidades que cometeram. E o resultado é um filme que, sem mostrar nenhuma imagem de arquivo ou cena real de violência, é um dos estudos mais impressionantes que já vi sobre a banalidade do mal.

É inacreditável ouvir velhos amigos se reunindo para relembrar os bons tempos quando estupravam meninas de 14 anos ou degolavam famílias inteiras. Mais impressionante ainda é perceber como são tratados como heróis por grande parte da população e dos políticos. Anwar, em especial, é um popstar: dá autógrafo nas ruas, tira fotos com crianças e é entrevistado em programas de televisão.

Anwar se diz assombrado por fantasmas das pessoas que matou. Ady diz dormir tranqüilo e ri quando o diretor menciona a Convenção de Genebra: “Eu sigo a Convenção de Jacarta.”

Fanático por John Wayne e filmes de gângsteres, Anwar se mostra empolgado com a chance de, finalmente, estrelar seu próprio filme. Ele percorre bairros miseráveis da capital indonésia, recrutando figurantes. Durante as filmagens, orienta os atores: “Agora você grita: Não mate meu filho! Pelo amor de Deus, poupe minha família!”

“The Act of Killing” tem cenas tão absurdamente irreais que parecem um pesadelo de David Lynch com imagens de Fellini. Um dos assassinos, um obeso chamado Herman, gosta de interpretar mulheres sendo estupradas e se veste como uma drag queen, com vestidos de cores berrantes e maquiagem pesada. Ele encena alguns dos pesadelos de Anwar, interpretando uma vítima que volta do Além para se vingar.

Dois dos maiores cineastas em atividade no mundo, Errol Morris e Werner Herzog, viram alguns minutos do filme e viraram produtores-executivos. Eles também produziram a continuação, “O Peso do Silêncio”, que acompanha um oftalmologista indonésio que é atormentado pela exceução do irmão mais velho nas mãos dos esquadrões da morte locais e decide entrevistar alguns dos criminosos e colaboradores do regime.

Ambos os filmes foram indicados ao Oscar de melhor documentário e venceram dezenas de festivais em todo o mundo, incluindo os festivais de Berlim e Veneza. Oppenheimer só dirigiu um filme desde então, um musical pós-apocalíptico com Tilda Swinton e Michael Shannon, “The End”, que estreia este ano. Não posso esperar para ver.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

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