out/2024

Primórdios de Lou Reed

Por André Barcinski

Primórdios de Lou Reed

Por André Barcinski

Poucos selos discográficos têm um nome tão revelador quanto o norte-americano Light in the Attic. Há mais de 20 anos, esses abnegados têm, de fato, jogado “luz no sótão” da música pop, com uma coleção invejável de grandes relançamentos e redescobertas. De Sixto Rodriguez (o misterioso cantor/compositor do filme “Searching for Sugarman”) a Betty Davis, de Serge Gainsbourg à dupla Lee Hazlewood e Nancy Sinatra, a LITA formou um catálogo primoroso.

O mais recente lançamento do selo é imperdível: “Why Don’t You Smile Now: Lou Reed at Pickwick Records 1964-1965”, uma coletânea de 25 canções que Reed, então com 22 anos, compôs para a hoje extinta gravadora Pickwick.

E quem era a Pickwick? Basicamente foi um selo criado nos anos 1950 para copiar músicas e discos de aristas mais conhecidos. Os Beatles estouraram? Então a Pickwick rapidamente lançava bandas que copiavam os Fab Four. Johnny cash estava bem nas paradas? Tome procurar algum disco obscuro de Cash, lançado por alguma gravadora pequena e fora de catálogo, para a Pickwick relançar como se fosse um novo lançamento (nos anos 90, comprei num sebo um LP de Jimi Hendrix lançado pela Pickwick. Era chamado apenas “Jimi”, tinha uma foto linda de Hendrix na capa e nenhuma informação na contracapa. Foi só bem depois que descobri que se tratava de jam sessions de blues e rock que Hendrix participara no início dos anos 1960).

Em 1964, bem antes de fundar o Velvet Underground, Lou Reed foi contratado como compositor pela Pickwick. Por cerca de dois anos, ele escreveu canções pop muito simples e que imitavam hits de Beach Boys, Dion, Beatles e Stones. As músicas eram gravadas por músicos de estúdio (Reed chegou a tocar guitarra a cantar em várias sessões) e lançadas com nomes de bandas que não existiam, como The Primitives e The Hollywoods.

Uma dessas canções, no entanto, teve uma importância grande na carreira de Lou Reed: “The Ostrich” (“O Avestruz”), uma piada com as então famosas músicas de twist de Chubby Checker, fez um pequeno sucesso em rádios e motivou a Pickwick a montar uma banda para tocá-la em pequenos shows. E essa banda reuniu o que se tornaria, no fim dos anos 60, um verdadeiro “dream team” da arte de vanguarda nova-iorquina: Lou Reed nos vocais, John Cale no baixo, Tony Conrad, o videoartista e músico experimental na guitarra, e o escultor Walter De Maria na percussão. Ali nasceria o Velvet Underground.

Lou Reed e John Cale (à direita) com os Primitives, 1964

Ouça “The Ostrich”:

Ouvindo “Why Don’t You Smile Now”, é possível antever o que Reed faria poucos anos depois no Velvet? Tenho que dizer que não. As músicas são extremamente comerciais e certamente dariam vergonha no Reed de três ou quatro anos depois. Mas elas demostram o amor de Reed pelo pop radiofônico, e o que ele e o comparsa John Cale fizeram no Velvet foi justamente inventar uma sonoridade que combinava a doçura pop com elementos da música de vanguarda mais transgressora. A fórmula Beach Boys + drones de guitarra reinventou o rock e deu cria em The Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine, Galaxie 500 e tantos outros grandes nomes que bebem na fonte do Velvet.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

10 comentários em "Primórdios de Lou Reed"

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