out/2024

“O Jogador”: jóia esquecida da Nova Hollywood

Por André Barcinski

“O Jogador”: jóia esquecida da Nova Hollywood

Por André Barcinski

Lá vou eu de novo elogiar a plataforma Filmicca (sem nenhum tipo de relação comercial, claro!), mas a programação deles merece aplausos: acaba de entrar um filme tão raro quanto sensacional: “O Jogador” (“The Gambler”), que Karel Reisz dirigiu nos Estados Unidos em 1974. É um dos grandes filmes esquecidos da Nova Hollywood, embora o diretor seja um tcheco-britânico que fazia sua estreia no cinema norte-americano.

Reisz (1926-2002) tem uma história de vida incrível: perdeu os pais no campo de concentração nazista de Auschwitz e foi uma das 669 crianças judias salvas em 1938 pelo filantropo Sir Nicholas George Winton, que financiou o transporte delas de trem e barco até a Inglaterra. Reisz tinha 12 anos e não falava uma palavra de inglês. Uma década depois, no fim dos anos 1940, já era um nome de destaque na crítica de cinema britânica, tendo fundado a influente revista “Sequence”.

Karel Reisz

 Reisz foi um dos maiores teóricos do cinema documental na Europa. Seu livro “O Guia da Montagem de Filmes”, lançado em 1953, influenciou incontáveis cineastas a tentar seus primeiros filmes. Reisz fundou, com Lindsay Anderson e Tony Richardson, o movimento do “Cinema Livre” na Inglaterra, que defendia um cinema barato, anticonvencional e sem amarras comerciais (o Dogma 95, de Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, claramente se inspirou neles).

Em 1960, Reisz dirigiu “Saturday Night and Sunday Morning”, um marco do cinema realista inglês e o filme que revelou ao mundo o talento dramático de Albert Finney, que também atuou no segundo filme do cineasta, o drama criminal “Night Must Fall” (1964).

A exemplo de outros talentosos diretores europeus, como Roman Polanski, John Schlesinger e Milos Forman, Karel Reisz foi seduzido por Hollywood com a promessa de trabalhar em melhores condições financeiras, e em 1974 filmou “The Gambler”, primeiro roteiro de James Toback (que depois seria indicado a um Oscar pelo roteiro de “Bugsy”, de Barry Levinson).

O filme tem uma das melhores atuações de James Caan. Ele faz Axel Freed, um professor de literatura em Nova York que sofre de um incontrolável vício em jogo. Axel deve uma grana preta a um agiota (Paul Sorvino) e recorre à família rica para pagar suas dívidas, para consternação da namorada, Billie (Lauren Hutton). “O Jogador” foi refilmado em 2014, com Mark Wahlberg, mas não vi essa belezinha. James Caan sempre disse que o original era um de seus filmes favoritos entre os títulos em que atuou. Simplesmente ASSISTA.

Depois de “O Jogador”, Reisz ainda fez em Hollywood “Who’ll Stop the Rain” (1978), drama de guerra em que Nick Nolte faz um fuzileiro naval que contrabandeia heroína para os Estados Unidos. Eu gosto desse filme, mas devo ser a única pessoa no mundo, porque afundou na bilheteria e fez Reisz voltar à Europa, onde teve seu grande momento comercial com “A Mulher do Tenente Francês” (1981), com Meryl Streep.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

25 comentários em "“O Jogador”: jóia esquecida da Nova Hollywood"

Deixe seu comentário

Ir para o topo