Elizabeth Taylor: tristeza não tem fim
A plataforma Max acaba de estrear “Elizabeth Taylor: As Fitas Perdidas”, documentário dirigido por Nanette Burnstein sobre a lendária atriz Elizabeth Taylor (1932-2011). É um ótimo filme, mas que vai acabar com seu dia, semana e mês. Porque a vida da mulher não foi fácil.
O doc usa como espinha dorsal uma série de fitas com entrevistas da atriz feitas pelo jornalista e biógrafo norte-americano Richard Meryman para um livro publicado em 1965, “Elizabeth Taylor por Elizabeth Taylor”, em que a atriz narrava, em primeira pessoa, sua trajetória de vida.
O título do filme é enganoso: as fitas nunca estiveram “perdidas”, mas guardadas no arquivo de Meryman, um nome importante do jornalismo que escreveu livros sobre Marilyn Monroe, Louis Armstrong e Herman Mankiewickz e publicou a última entrevista de Marilyn, feita dois dias antes da morte dela. Meryman morreu em 2015, aos 89 anos.
No total, são cerca de 40 horas de entrevistas com Elizabeth Taylor em que a atriz, nascida na Inglaterra, descreve a infância luxuosa passada em Londres com os pais norte-americanos: o pai, Francis, um marchand, e a mãe, Sara, uma atriz. Com o início da Segunda Guerra, a família volta aos Estados Unidos e se estabelece na Califórnia, onde a pequena Elizabeth atrai atenção com seu rosto lindo e seus olhos azulíssimos e, aos NOVE ANOS de idade, assina seu primeiro contrato com o estúdio Universal.
Essa é a chave para entender a vida de Elizabeth Taylor: ela cresceu, literalmente, dentro de estúdios de cinema. Estudava em escolas oferecidas pelo estúdio e trabalhava sem parar, quase sem contato com o mundo real. Em 1942, aos dez anos de idade, atuou em um filme da cadela Lassie, onde conheceu outro ator mirim que se tornaria amigo íntimo por toda a vida: Roddy McDowall. Quatro anos mais velho que Elizabeth, Roddy ficaria famoso depois pelo papel do macaco Cornelius em “O Planeta dos Macacos”.
O grande trunfo de “Elizabeth Taylor: As Fitas Perdidas” é justamente poder ouvir a voz de Taylor contando a própria história. E como as gravações não foram feitas para veiculação, mas apenas como base para que Meryman pudesse escrever, as conversas têm um tom de bate-papo entre amigos. As gravações foram realizadas na casa da atriz, geralmente tarde da noite, e em alguns momentos ela oferece um drinque a Meryman ou interrompe a gravação para que eles possam jantar. E é fascinante ouvir Elizabeth Taylor tão relaxada.
Já a história que ela conta não tem nada de relaxada.
Casada pela primeira vez aos 18 anos, num matrimônio que durou apenas um ano, Liz já era viúva aos 26 e divorciada duas vezes. No fim, teria oito casamentos com sete maridos diferentes, contando o bate e volta com Richard Burton.
As tragédias e escândalos se acumulam: ela perde o maior amor da vida, o produtor de cinema Mike Todd, num acidente de avião, e ganha o afeto do cantor Eddie Fisher, marido de sua melhor amiga, a atriz Debbie Reynolds. Fisher abandona Dennie por Liz, num caso que fez a fortuna de incontáveis revistas de fofoca.
Depois, Fisher prova do próprio veneno ao ser trocado subitamente por Richard Burton, com quem Liz tem um romance dos mais tempestuosos, marcado por brigas coléricas, porres históricos e overdoses de álcool e barbitúricos.
O filme não tem nada de inovador ou radical, mas é impossível parar de assistir. As cenas de arquivo são de babar, e a franqueza de Liz é comovente. “Tomei pílulas para dormir por 35 anos”, ela diz em certo momento. “Eu não tinha ideia de que era uma viciada”. “Elizabeth Taylor: As Fitas Perdidas” é um documento fascinante sobre um dos grandes nomes da época de ouro de Hollywood.
O doc foi dirigido por Nanette Burnstein, e eu recomendo que você procure assistir aos outros filmes dela, como “On the Ropes” (1999), doc que acompanha três boxeadores desconhecidos, “The Kid Stays in the Picture” (2002), sobre o produtor de cinema Robert Evans (“O Poderoso Chefão”, “Chinatown”) e “Gringo” (2016), sobre o magnata da informática John McAfee, que monta um exército particular numa ilha em Belize.
Uma ótima semana a todas e todos.
7 comentários em "Elizabeth Taylor: tristeza não tem fim"
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Corri atrás de The kid stays in the picture após ver a minissérie The Offer, que retrata os bastidores enlouquecedores por trás da produção de The Godfather – Robert Evans é interpretado de forma magistral por Matthew Goode. Já viu, André? Também é impossível parar de assistir.
Cara, vi parte do primeiro episódio, mas não prossegui. Vou dar mais uma chance, várias pessoas citaram a série.
Assisti esse doc esses dias. São impressionantes as cenas de arquivo e sua qualidade, principalmente na produção de Cleópatra.
Andre, um outro doc que entrou no max faz pouco tempo é da história do Steven Van Zandt. Não fazia ideia da quantidade de projetos em que participou.
Esse doc sobre o Steve Van Zandt é bem legal.. Seria melhor se tivesse uma duração menor mas nada que comprometa o resultado final.
Concordo 100% com vc, Willana, longo DEMAIS!
O doc do John McAfee é impressionante demais!
Dizem que o Eddie Fisher tinha um contrato milionário com a Coca Cola, e ele só precisaria se “comportar” para encher os bolsos de grana, contrato que foi sumariamente cancelado quando ele abandonou a Debbie Reynolds pra ficar com a Liz Taylor.
Vou ver, com certeza.
André, realmente a vida da Liz Taylor foi muito intensa e não sabia que ela tinha sido atriz mirim!!!
Aliás, a grande parte das grandes musas do Cinema americano tem histórias muito trágicas em suas vidas (isso sem olhar com os olhos de hoje e imaginando o tanto de assédio que sofreram em suas carreiras, de Diretores, Chefes de Estúdios, colegas de trabalho, etc)…