Gena Rowlands se foi, aos 94. E para todos nós que admiramos o cinema autoral e alternativo, ela foi uma heroína.
Junto com John Cassavetes – com quem foi casada por 35 anos, até a morte dele, em 1989 – e uma trupe fabulosa de atores que incluía Ben Gazarra, Peter Falk, Seymour Cassell e outros, Gena ajudou a inventar o cinema independente norte-americano.

Cassavetes pegava a grana que ganhava atuando em grandes produções como “Os Doze Condenados” e “O Bebê de Rosemary” e financiava filmes baratos e que revolucionaram o cinema americano.
Gena atuou em dez filmes dirigidos por John. Infelizmente, apenas um deles, “Uma Mulher Sob Influência” (1974) está disponível no streaming no Brasil, nas plataformas Looke e Netmovies. Achei três filmes no Youtube, com legendas em português, e recomendo que você assista para conhecer aquela que foi certamente a mais inovadora e influente parceria criativa entre um cineasta e uma atriz no cinema.
Em ordem cronológica:
Faces (1968)
Cassavetes importa para a América o estilo documental dos filmes que Godard, Chabrol, Rivette, Varda e Truffaut estavam fazendo na Nova Onda do Cinema Francês e faz um relato doloroso de um casamento em ruínas. John Marley – sim, o produtor de cinema que acorda e descobre a cabeça decepada de seu cavalo premiado em “O Poderoso Chefão” – e Lynn Carlin interpretam o casal que não consegue mais viver junto. Carlin era secretária de Robert Altman, quando foi vista por Cassavetes e convidada para o principal papel feminino do filme. Acabou se tornando a primeira não-profissional a receber uma indicação ao Oscar. “Faces” recebeu duas outras indicações ao Oscar: a de melhor ator, para Seymour Cassel, e melhor roteiro, para Cassavetes.
Minnie and Moskowitz (1971)
Um de meus filmes prediletos, é uma comédia romântica com toques sombrios sobre um improvável romance entre uma mulher classuda e culta, curadora de um museu (Gena Rowlands) e um pobretão que trabalha no estacionamento de um restaurante (Seymour Cassel). Foi um dos poucos filmes de Cassavetes que não foi bancado do próprio bolso dele, mas pela Universal, tentando repetir o sucesso que obtivera com o baratíssimo mas ultralucrativo “Sem Destino”. O estúdio bancou alguns filmes de orçamentos abaixo de 1 milhão de dólares, incluindo “Minnie and Moskowitz” e “Taking Off”, primeiro filme norte-americano do tcheco Milos Forman. Atenção: a legenda do filme não está perfeita, mas dá para assistir:
Uma Mulher Sob Influência (1974)
Rowlands tem uma as maiores atuações da história do cinema nesse drama pesado sobre uma mulher desequilibrada e cheia de problemas com bebida que tenta, à maneira dela, não deixar ruir o casamento com um operário de construção civil, interpretado por Peter Falk. Cassavetes escreveu a história originalmente para uma peça, mas o texto era tão pesado que Gena se disse emocionalmente incapaz de interpretar aquela personagem toda noite num palco, e Cassavetes adaptou a trama para um filme. Nenhum estúdio quis tocar naquele material, e o casou hipotecou a própria casa para bancar parte da produção. O restante foi emprestado pelo ator Peter Falk. Quando o filme ficou pronto, nenhuma distribuidora quis lançá-lo, forçando Cassavetes a ir pessoalmente de cinema em cinema, implorando para que o exibissem. “Uma Mulher Sob Influência” foi mostrado em cinemas de arte e cineclubes universitários, mas depois entrou em várias listas de melhores filmes do ano e acabou indicado a dois Oscar (melhor atriz e melhor diretor) e quatro Globos de Ouro, com Gena Rowlands levando o troféu de melhor atriz.
Um ótimo dia a todas e todos.
13 comentários em "Vamos celebrar Gena Rowlands!"
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Barça, já assistiu Não lamento minha juventude do Kurosawa ? Achei lindo demais. Em tempo: Versátil vai lançar ano que vem um pack do Ken Coach com os seguintes filmes: Ladybird Ladybird, Family life, Raining Stones e Riff-Raff. Imperdível não ?
Sério isso? São quatro filmes maravilhosos. “Riff Raff” e “Ladybird” estão entre os melhores dele. Fiz um vídeo sobre o Loach pro YouTube.
Sim, inclusive já está em pré-venda, com o título A arte de Ken Loach. Muita coisa legal tá saindo pela Versátil
Uma Mulher Sob Influência é um dos meus filmes favoritos. Vou correndo assistir Minnie and Moskowitz, muito obrigado.
Depois diz o que achou!
Foi um ícone, indiscutivelmente.
Já o treinador do meu time, é um ícone de soberba e burrice. Parabéns pela classificação.
Foram dois jogos muito legais.
Atriz maravilhosa, que merece muito ser celebrada, assino embaixo das indicações! Também adoro “Gloria”, mas esse só no dvd usado mesmo (ou por vias ‘alternativas’).
OT: Ando trabalhando igual a um camelo (receita pra morrer pobre….kkkk), o que me tirou de alguns eventos [maravilhosos] do site. Mas devo voltar às aulas e bate-papos logo menos, não vejo a hora! Abraços a todos!
Boa, volta aí!
Saudades, Roger. Trabalhar não dá futuro hahaha.
Digo o mesmo.
Tive o privilégio de assistir os principais filmes do diretor, em 35mm, na Cinemateca brasileira, em 2011.
Se hoje curto cinema que foge da cartilha do cinema narrativo clássico produzido pelos grandes estúdios, aquela semana foi fundamental.
Ver esses filmes na tela grande é um privilégio.