A Globoplay exibe “Um Beijo do Gordo”, minissérie documental em quatro episódios, escrita e dirigida por Renato Terra, sobre a vida e carreira do grande Jô Soares (1938-2022). Vi os dois primeiros episódios e recomendo demais.
O primeiro episódio tem o próprio Jô, em entrevistas de arquivo, falando da infância, juventude (boa parte passada num escola na Suíça) e do início na carreira artística, fazendo esquetes cômicos em boates na zona sul do Rio, começando na TV em programas como “A Famíla Trapo”, na Record e sendo levado por Boni para a Rede Globo, em 1970.
As imagens de arquivo são lindas. Que bonito é ver Jô e Golias contracenando na “Família Trapo”, um programa cômico-teatral gravado ao vivo com plateia. Logo depois, vemos imagens de antigos programas da Globo, como “Satiricon” e “Planeta dos Homens”, e somos lembrados da genialidade de artistas como Max Nunes, Agildo Ribeiro, Renato Corte Real e tantos outros pioneiros do humor televisivo brasileiro.
O primeiro episódio culmina com Jô ganhando seu programa próprio na Globo, o clássico “Viva o Gordo”, em que criou personagens inesquecíveis como o Capitão Gay (e seu parceiro Carlos Suely, interpretado pelo engraçadíssimo Eliezer Motta), Bô Francineide, Reizinho, Zé da Galera, Dona Naná e tantos outros. O episódio termina com Jô tomando a decisão arriscada de abandonar a poderosa Rede Globo para fazer um “talk-show” no SBT.

O episódio 2 é dedicado inteiramente aos programas que Jô fez no SBT: o humorístico “Veja o Gordo” e o programa de entrevistas “Jô Soares Onze e Meia”, e detalha a guerra que se instaurou entre o SBT e a Globo, que proibiu seus artistas de participar das entrevistas com Jô (depois chegou-se a um acordo para a liberação de dois artistas por mês).
É divertido demais lembrar algumas entrevistas históricas de Jô no SBT, com nomes como Zeca Pagodinho, Agildo Ribeiro, Jean-Claude Van Damme, Rogério Skylab e o trio Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Nair Bello. A série entrevista figuras importantes do programa, como o saxofonista Derico e a diretora Diléa Frate, e o que mais impressiona é lembrar o tom improvisado do “talk-show”, que tinha uma produção paupérrima em comparação com os programas que vemos hoje.
As entrevistas da série são reveladoras, especialmente as realizadas com pessoas que trabalharam diretamente com Jô, como Carlos Alberto de Nóbrega e o roteirista Hilton Marques. Já outras me parecem perfeitamente dispensáveis, como as de Renato Aragão e Fernanda Torres, que falam apenas platitudes como “Eu queria ser ele”, ou “Ele era muito generoso”. Fernanda Torres chama Jô de “O elo perdido entre a geração de comediantes que veio antes dele e a turma de Gregório Duvivier, Tatá Werneck e o grupo Porta dos Fundos”. Como um artista famoso e que teve programas na TV durante meio século pode ser chamado de “Elo Perdido” é algo incompreensível para mim.
Um ótimo dia a todas e todos.
15 comentários em "Crítica: “Um Beijo do Gordo”"
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André, o SBT está criando o próprio streaming, e postaram algumas entrevistas do Jô por lá. Espero que a sua de 1992 apareça por lá um dia. https://mais.sbt.com.br/program/6345120558112
Também gostei mais da fase no SBT. Depois que foi pra Globo, ficou meio pasteurizado mesmo.
André, o Jô Soares foi um dos grandes artistas brasileiros dos séculos 20 e 21, mas infelizmente, em seus últimos anos de Globo, o seu programa seguiu numa chatice acomodada, e que em nada lembrava a produção quase punk que era o Jô Soares Onze e Meia!!!
Sobre a produção humorística dele, conheço muito pouco, pois não era nascido ou era muito pequeno no seu auge como humorista…
Esses dia, achei o box do Viva o Gordo num sebo aqui perto, por R$10,00, para minha tristeza, faltava um disco… Jô, assim como o Chico Anysio, foi um pioneiro que sempre foi relevante durante a carreira. Vou ver a minissérie o quanto antes!
Temos esse box, vemos sempre.
Tem uma entrevista com o Ze Vasconcelos que é de chorar de rir
Já vi umas 10 vezes.
Também tem uma entrevista com o Tim Maia que é antologica. Mais ou menos dessa época no SBT.
Lembro, boa demais.
Bom dia André. Fugindo do tema do post, mas ontem ia comentar na nossa conversa e acabei me esquecendo. Na conversa sobre os irmãos Cohen você citou as comédias inglesas The Ladykillers e Kind Hearts and Coronets, e por uma coincidência mês passado a Versátil lançou um box com os dois filmesmais 4 comédias da Ealing (Obras primas da comédia vol. 2). Assisti 5 dos 6 filmes por enquanto, e gostei de todos.
Não sabia da caixa da Versátil, parece demais. Comédias inglesas da Ealing costumam ser ótimas. Pena que os Coen fizeram aquela refilmagem de “Ladykillers”, lamentável.
O programa de entrevistas no SBT que tinha esta restriçao aos atores/atrizes globais e baixo orçamento, tornou-se o um grande trunfo, pois eles tinham que entrevistar pessoas fora do mainstream: politicos, artistas do underground ou no começo de carreira; a primeira vez que eu vi os Raimundos foi ali. Quando o programa foi para a Globo virou uma plataforma para a divulgação dos programas da emissora, ficou meio sem-graça ao meu ver.
Sim, os convidados eram tão ralé que até eu fui.
Uau! Tem vídeo no Youtube, Barça?
A de 92 nunca vi, mas a mais recente, acho que foi em 2012, eu já revi, não sei se está ainda.