jul/2024

Crítica: “Um Beijo do Gordo”

Por André Barcinski

Crítica: “Um Beijo do Gordo”

Por André Barcinski

A Globoplay exibe “Um Beijo do Gordo”, minissérie documental em quatro episódios, escrita e dirigida por Renato Terra, sobre a vida e carreira do grande Jô Soares (1938-2022). Vi os dois primeiros episódios e recomendo demais.

O primeiro episódio tem o próprio Jô, em entrevistas de arquivo, falando da infância, juventude (boa parte passada num escola na Suíça) e do início na carreira artística, fazendo esquetes cômicos em boates na zona sul do Rio, começando na TV em programas como “A Famíla Trapo”, na Record e sendo levado por Boni para a Rede Globo, em 1970.

As imagens de arquivo são lindas. Que bonito é ver Jô e Golias contracenando na “Família Trapo”, um programa cômico-teatral gravado ao vivo com plateia. Logo depois, vemos imagens de antigos programas da Globo, como “Satiricon” e “Planeta dos Homens”, e somos lembrados da genialidade de artistas como Max Nunes, Agildo Ribeiro, Renato Corte Real e tantos outros pioneiros do humor televisivo brasileiro.

O primeiro episódio culmina com Jô ganhando seu programa próprio na Globo, o clássico “Viva o Gordo”, em que criou personagens inesquecíveis como o Capitão Gay (e seu parceiro Carlos Suely, interpretado pelo engraçadíssimo Eliezer Motta), Bô Francineide, Reizinho, Zé da Galera, Dona Naná e tantos outros. O episódio termina com Jô tomando a decisão arriscada de abandonar a poderosa Rede Globo para fazer um “talk-show” no SBT.

O episódio 2 é dedicado inteiramente aos programas que Jô fez no SBT: o humorístico “Veja o Gordo” e o programa de entrevistas “Jô Soares Onze e Meia”, e detalha a guerra que se instaurou entre o SBT e a Globo, que proibiu seus artistas de participar das entrevistas com Jô (depois chegou-se a um acordo para a liberação de dois artistas por mês).

É divertido demais lembrar algumas entrevistas históricas de Jô no SBT, com nomes como Zeca Pagodinho, Agildo Ribeiro, Jean-Claude Van Damme, Rogério Skylab e o trio Hebe Camargo, Lolita Rodrigues e Nair Bello. A série entrevista figuras importantes do programa, como o saxofonista Derico e a diretora Diléa Frate, e o que mais impressiona é lembrar o tom improvisado do “talk-show”, que tinha uma produção paupérrima em comparação com os programas que vemos hoje.

As entrevistas da série são reveladoras, especialmente as realizadas com pessoas que trabalharam diretamente com Jô, como Carlos Alberto de Nóbrega e o roteirista Hilton Marques. Já outras me parecem perfeitamente dispensáveis, como as de Renato Aragão e Fernanda Torres, que falam apenas platitudes como “Eu queria ser ele”, ou “Ele era muito generoso”. Fernanda Torres chama Jô de “O elo perdido entre a geração de comediantes que veio antes dele e a turma de Gregório Duvivier, Tatá Werneck e o grupo Porta dos Fundos”. Como um artista famoso e que teve programas na TV durante meio século pode ser chamado de “Elo Perdido” é algo incompreensível para mim.

Um ótimo dia a todas e todos.

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