set/2024

O adeus de Paul Auster

Por André Barcinski

O adeus de Paul Auster

Por André Barcinski

O escritor norte-americano Paul Auster morreu em abril de 2024, aos 77 anos, depois de uma carreira literária brilhante que incluiu cerca de duas dezenas de romances, além de livros de poesias, memórias, não-ficção e roteiros para cinema.

O último romance de Auster, “Baumgartner”, publicado um ano antes da morte do escritor, acaba de sair no Brasil e é um epitáfio digno de um dos autores mais admirados dos últimos 45 anos. Fãs da prosa peculiar de Auster vão reconhecer vários elementos típicos do estilo pós-moderno do autor. Como escreveu Cadão Volpato na “Folha”: “Auster tinha um estilo que seus leitores conseguiam identificar com grande facilidade. A forma de seus livros era simples, direta, envolvente, e seus temas variavam dentro de um mesmo universo. Ele costumava falar da força do acaso, das fatalidades e das coincidências; também do fracasso e da sombra de desastres iminentes; da vida de escritor, dos acontecimentos banais e extraordinários, da ausência da figura paterna e de Nova York – especificamente do distrito do Brooklyn”.

Quase tudo isso está em “Baumgartner”, história autorreferencial e com toques autobiográficos em que Auster conta a vida de Seymour Baumgartner, um septuagenário escritor e professor de filosofia que lida com a trágica morte da esposa, Anna, ocorrida uma década antes. Anna era uma tradutora brilhante – de obras de Fernando Pessoa, entre outros – e uma poetisa mais brilhante ainda, embora desconhecida, o que deprime Baumgartner, que sonha em vê-la receber os louros que ele julga que a esposa merece.

A vida de Baumgartner é um tédio: ele compra livros que não vai ler só para encontrar a entregadora, por quem se sente atraído, enquanto sonha em se aposentar para não ter de cumprir as obrigações professorais na universidade em que leciona. A vida do personagem ecoa a do próprio Paul Auster: um pai severo e que marcou a vida do filho, uma temporada morando em Paris, parentes de sobrenome Auster e um avô que ele não conheceu e cuja história tenta desvendar numa visita à Ucrânia (Auster descreveu essa viagem ao site “Literary Hub” em 2020 e reproduz o texto, “Os Lobos de Stanislav” no livro, como se tivesse sido escrito pelo personagem Seymour Baumgartner).

O parágrafo de abertura desse texto é uma espécie de síntese das questões que aparecem em alguns livros de Auster, como memórias e a construção de narrativas: “Será que um evento precisa ser verdadeiro para que o aceitemos como verdade, mesmo que a coisa que supostamente aconteceu não aconteceu? E se, a despeito de seus esforços para descobrir se o evento aconteceu ou não, você chegar a um impasse em matéria de incerteza e for incapaz de garantir que a história contada por alguém no terraço de um café na cidade ocidental da Ucrânia chamada Ivano-Frankivsk derivou de um pequeno, porém verificável acontecimento histórico ou, pelo contrário, é uma lenda, uma bazófia ou um rumor infundado transmitido de pai para filho? Ainda mais relevante: se a história comprova ser tão assombrosa e tão potente que seu queixo cai e você sente que ela mudou, melhorou ou aprofundou sua compreensão do mundo, importa que seja verdadeira ou não?”

Seymour Baumgartner é um personagem marcado por questões como essas: tem lembranças vívidas de acontecimentos mundanos de sua vida – embora tenha dúvidas se eles são reais ou imaginados – e apagou completamente da memória passagens longas de sua trajetória. Relê textos inéditos deixados pela esposa, Anna, que o lembram acontecimentos marcantes da vida amorosa deles. Baumgartner está dividido entre o luto por Anna e o recomeço de uma nova vida. Aceitar a mortalidade ou partir para uma nova aventura?

Auster povoa o livro com personagens que perigam carregar Baumgartner para essas novas aventuras: um funcionário da companhia elétrica que o socorre depois de um acidente doméstico, a já citada entregadora que faz bater mais rápido o coração do personagem, uma colega da universidade com quem ele tem um caso e, por fim, uma estudante de literatura que está obcecada pelos poemas de Anna e quer escrever sobre eles. Mais importante que os acontecimentos provocados por cada um desses personagens na trama, no entanto, é como eles despertam em Baumgartner sentimentos diversos e o fazem refletir sobre sua própria vida. Alguns leitores podem achar, ao fim da leitura, que “pouco” acontece na história. Mas as emoções que o livro desperta no leitor são muitas.

Um ótimo dia a todas e todos!

9 comentários em "O adeus de Paul Auster"

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    Usuário não identificado

    fala Barça! também prefiro mil vezes o Roth de quem já li mais livros. o Auster é muito bom também e dele li “4, 3, 2, 1”, a primeira história da trilogia “cidade de vidro” e diário de inverno, o que mais gostei.

    realmente, Auster é mais solene do que Roth, mais preocupado com a forma do que com o conteúdo, mas ainda assim merece demais ser lido. é às vezes enfadonho, exagera nos detalhes das descrições que são em si a parte principal da narrativa.

    Roth usa as mesmas descrições precisas como parte das histórias usando-as num contexto onde aquela quantidade de detalhes faz todo sentido.

    os EUA nesse ponto são um manancial: Mailer, Capote e Vidal citando apenas alguns dos gigantes da mesma geração.

    abraços,
    Pedro

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    Usuário não identificado

    André, você gosta mais da obra do Paul Auster ou do Philip Roth???
    Não conheço a obra do Auster e adoro o Roth, é um dos meus escritores favoritos, mas acredito que eles tem muito em comum em sua literatura, ou estou enganado???

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