maio/2024

Que saudades do Bourdain!

Por André Barcinski

Que saudades do Bourdain!

Por André Barcinski

A Netflix finalmente exibe “Roadrunner”, documentário sobre o chef e personalidade televisiva Anthony Bourdain. O filme é de 2021 e foi dirigido por Morgan Neville (“A Um Passo do Estrelato”).

Vi o doc na época do lançamento e me fez um mal danado. Não pelo filme, que é bem feito, embora um tanto careta, mas pelas imagens de Bourdain e a percepção de que a morte dele me deixou consternado. Poucas perdas em anos recentes me impactaram tanto.

Sempre vi Bourdain como um ídolo. Um punk que entrou no mainstream sem mudar uma vírgula do que dizia ou acreditava. Para mim, ele tinha o emprego dos sonhos: viajar o mundo comendo bem e conhecendo lugares e pessoas incríveis. Imaginar que um cara desses tirou a própria vida, aos 61 anos, no auge da popularidade e da realização profissional, é pra rachar a cabeça de qualquer um.

Em 2012, escrevi sobre Bourdain:

Anthony Bourdain é uma celebridade da TV. Esse ex-junkie, fã de punk rock e chef de talento é conhecido mundialmente por seu programa “No Reservations”.

O restaurante onde Bourdain trabalhou – e onde ainda é “chef executivo” – o Les Halles, é uma instituição nova-iorquina, caso raro de lugar hypado pelos turistas e que serve comida de primeira.

Bourdain surgiu para o mundo com um livro, “Cozinha Confidencial”, lançado em 2000, onde contava os bastidores do mundo da gastronomia.

O livro desmistificava a imagem de chefs como pessoas tranqüilas e sérias, trazendo relatos de sexo, drogas e disputas de ego. Uma espécie de “Medo e Delírio” entre as paredes de uma cozinha.

De Bourdain, eu só havia lido “Cozinha Confidencial”. Mas acabei de ler “A Cook’s Tour”, lançado em 2001 (no Brasil, “Em Busca do Prato Perfeito”), e gostei ainda mais.

O livro é uma espécie de guia de viagens em que Bourdain visita diversos países em busca de experiências gastronômicas únicas.

Ele vai ao Vietnã e bebe sangue de cobra, come caviar com mafiosos russos, acompanha o abate e preparo de um porco gigante no norte de Portugal, se junta a uma tribo de nômades no deserto do Marrocos para assar um carneiro, explora uma cidade do Camboja ainda dominada pelo Khmer Vermelho e visita alguns dos melhores restaurantes do mundo, como o French Laundry, na Califórnia.

Além de ter histórias ótimas, o livro é muito bem escrito, num estilo gonzo/punk sem frescura e cheio de ironia.

O relato de uma manhã no mercado de peixes Tsukiji, em Tóquio, acompanhado do mestre sushiman Kiminari Togawa, e do banquete preparado depois por Togawa, é inesquecível. Dá vontade de pegar o primeiro voo para o Japão.

Bourdain descreve como Togawa usa uma faca e um arame fino para deixar um peixe vivo paralisado, basicamente num estado comatoso, para que fique fresco até o momento de ser servido. É demais.

Bourdain é um baita escritor. Gosto não só do seu estilo, mas de suas opiniões e visão de mundo.

Ele é um tradicionalista que abomina frescura na cozinha, adora comida popular, despreza o “hype” tão comum ao mundo gastronômico, mete o pau no xiitismo vegetariano, na correção política e na destruição de velhas tradições culinárias em prol de uma suposta “modernização” da indústria alimentícia.

No caminho, ofende bastante gente. Desce o cacete em Jamie Oliver e em Ferran Adrià, é só elogios para Gordon Ramsay.

Anthony Bourdain agitou o mundo da gastronomia com o livro “Cozinha Confidencial”. Parte autobiografia, parte relato de bastidores do que acontece dentro da cozinha de restaurantes, o livro eternizou Bourdain no papel do Sid Vicious da culinária: um nova-iorquino falastrão, anárquico, com um senso de humor ácido e tolerância zero para esnobismo.

O livro levou Bourdain à TV, apresentando programas para o Food Channel, Travel Channel e CNN. Bourdain tornou-se muito mais que um cronista de gastronomia: seu maior interesse não era mais falar sobre comida, mas sobre as pessoas por trás dela.

Os programas que ele apresentou – especialmente o último, “Parts Unknown”, na CNN – usavam a culinária como ponto de partida para falar de cultura, política, história, geografia e outros assuntos.

Quando você assiste a Bourdain explorando os escombros da cidade de Trípoli, na Líbia, andando pelo que restou do palácio de Muammar al-Gaddafi e sendo expulso do lugar por uma milícia, você sabe que não está vendo um simples programa de culinária.

E que tal o episódio em que Bourdain encontra em Moscou com um dos maiores críticos do regime de Vladimir Putin, Brosi Nemtsov, que seria assassinado com quatro tiros poucos meses depois? Ou quando vai à Armênia entrevistar Serj Tankian, vocalista do grupo System of a Down? Ou o episódio em que visita Jerusalém e faz uma refeição com um casal formado por um israelense e uma palestina?

Em seu programa mais conhecido, Bourdain encontrou Barack Obama num pé-sujo em Hanói, onde comeram macarrão e beberam cerveja gelada no gargalo. A aparência de despojamento era total, mas quem trabalha em TV sabe o trabalho que deu encenar um encontro daqueles com o homem mais poderoso do mundo (uma reportagem da revista “The New Yorker”, feita depois da morte do apresentador, diz que a equipe dele filma cerca de 80 horas para fazer cada episódio de 60 minutos, e uma colega da CNN disse que o Serviço Secreto americano ficou enlouquecido porque não teve chance de provar a comida que seria servida a Obama).

O maior legado de Anthony Bourdain foi mostrar ao público a beleza de descobrir coisas novas, de conhecer outras culturas e outros sabores. Como disse um colega da CNN, o apresentador Don Lemon: “Não importa se os entrevistados são de religiões ou posições ideológicas diferentes; quando eles estão em volta de uma mesa e comendo algo delicioso, a discussão fica imediatamente mais civilizada”.

Um ótimo fim de semana a todas e todos.

9 comentários em "Que saudades do Bourdain!"

  • li o primeiro e depois o “cortes varietais” dele, mas ainda nao vi os programas. na verdade, vi só o último de todos e o final é profético. dá pra pensar que o cara planejou tudo mesmo.

    um canalha que soube viver a Vida como poucos. faz muita falta e é insubstituível. Hunter S. Thompson foi sua grande influência.

    abracos

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    Joao Gilberto Monteiro

    André, eu também fiquei chocado quando o Bourdain faleceu, porque eu também achava que a vida dele era, se não perfeita, era o que a maioria dos mortais gostaria de ter e de repente, ele vai lá e acaba com essa existência voluntariamente…
    Talvez tenhamos que aprender com os orientais, especialmente os japoneses a lidar melhor com essa questão do fim da vida como um todo, especialmente com o suicídio…

  • Era justamente por usar a culinária para falar de política , cultura , geografia , tradição e outros assuntos de maneira tão direta e sem frescuras era o que o fazia tão especial! Era um sujeito muito talentoso e daqueles que você imagina com0 seria bom ser amigo de um cara desses para tomar uma cerva e jogar conversa fora! O seu livro ” Guia da Culinária Ogra foi bem influenciado por ele, não é!?

  • Muito triste o fim dele, a sua relação com a Asia Argento me surpreendeu.

    A nova moda é documetnários musicais, além do Bon Jovi e BVeach Boys lançaram um sobre o Lollapalooza. Vai ter crítica também?

    Abraços!

    • Franco, o Barça comentou no instagram dele sobre o doc do Lollapallooza… vale dar uma olhada para ver o quanto ele “AMOU” o registro! hahahahahahah

      Quanto ao Bourdain, eu acredito que ele já tinha tudo de caso pensado. Não acho que tenha sido um fim triste, mas um fim programado, receita do chef.

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