maio/2024

Crítica: “The Beach Boys”

Por André Barcinski

Crítica: “The Beach Boys”

Por André Barcinski

A Disney+ exibe “The Beach Boys”, documentário sobre a icônica banda que, nos anos 60, disputou com os Beatles o posto de mais inovadora e criativa do pop-rock.

Se você não conhece a história dos Beach Boys, é um programão. O filme é muito bem pesquisado e tem imagens de arquivo e entrevistas muito reveladoras com integrantes da banda e admiradores como Lindsay Buckingham (Fleetwood Mac), Don Was, Ryan Tedder e Janelle Monáe.

Está tudo lá: o início como um passatempo familiar dos irmãos Wilson – Brian, Dennis e Carl – além do primo, Mike Love, e de um amigo, Al Jardine, o sucesso no início dos anos 60 com músicas simples e escapistas sofre surfe e garotas, os conflitos com o pai do trio, um sádico chamado Murry Wilson, os problemas mentais de Brian e seu surto psicótico, a explosão de genialidade de Brian e as obras-primas que ele compôs e produziu a partir de meados da década de 60, a rivalidade com os Beatles, os problemas de grana e brigas jurídicas que quase acabaram com o grupo nos anos 70, enfim, tudo. Ou melhor: quase tudo.

Feito com a ajuda e aprovação da banda, o filme tem um tom diplomático e evita tocar em assuntos mais espinhosos. Um dos exemplos mais gritantes é o período barra-pesada em que Brian, louco de LSD e completamente fora de si, passava horas numa caixa de areia de praia colocada na sala de sua mansão e foi tratado pelo psicólogo Eugene Landy, um picareta ganancioso que acabou se tornando produtor musical de Brian e tomou conta da vida – e, principalmente, da conta bancária – do famoso paciente (quem quiser saber mais sobre essa fase pode ver o filme “Love and Mercy”, em que Paul Dano e John Cusack interpretam Brian Wilson e Paul Giammati faz Eugene Landy). O nome de Landy não é sequer citado no filme.

Outra concessão irritante do filme é passar o tempo inteiro levantando a bola dos outros integrantes da banda para tentar equilibrar o mérito pelas canções extraordinárias que os Beach Boys deixaram. Claro que as letras espertas de Mike Love, a voz angelical de Carl Wilson e o carisma rebelde de Dennis Wilson eram partes fundamentais da química do grupo, mas não vamos nos enganar: ali só havia um gênio, e seu nome é Brian Wilson.

Quando Wilson sofre seu famoso surto psicótico a bordo de um avião, estafado com as exaustivas turnês da banda, ele havia composto, arranjado e produzido a maior parte de nove álbuns em três anos. Depois que decidiu parar de excursionar para se dedicar apenas à composição e produção, ele faz, praticamente sozinho, todas as obras-primas que a banda lançou na segunda metade dos anos 60.

O filme também evita falar do fim da vida de Dennis Wilson, um dos capítulos mais tristes da história da música pop. Depois de lançar um disco autobiográfico dilacerante, “Pacific Ocean Blue”, Wilson entrou numa espiral de álcool, cocaína e heroína que o deixou, literalmente, morando na rua. Ele perdeu a voz e não conseguia mais tocar bateria. Morreu afogado em 1983, ao pular no oceano, completamente desorientado, para procurar objetos que ele próprio havia jogado no mar três anos antes, durante uma briga com a então esposa.

Claro que ninguém espera que um filme-tributo sobre os Beach Boys gaste muito tempo com essa história tenebrosa, mas é inadmissível que Dennis, no fim do filme, simplesmente suma da narrativa e apareça no fim, com um crédito indicando a data de sua morte, sem nenhuma palavra sobre as circunstâncias.

Enfim, o que temos em “The Beach Boys” é apenas parte da história. Uma história muito bem contada e com imagens de arquivos inesquecíveis (o que é Brian orientando os músicos na gravação de “Pet Sounds”?), mas apenas a parte mais ensolarada e alegre de uma saga que teve muitos momentos sombrios. Apesar do nome festivo e da imagem de surfistas divertidos, a banda lançou algumas das canções mais tristes e introspectivas do pop (já pararam para ver a letra de “In My Room”?), e sua imagem era falsa, já que o único que surfava ali era Dennis, que morreu no mar.

Um ótimo dia a todas e todos.

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