maio/2024

Do Arquivo: Adeus a Roger Corman

Por André Barcinski

Do Arquivo: Adeus a Roger Corman

Por André Barcinski

Em 9 de maio, morreu, aos 98 anos, Roger Corman, o Papa do Cinema B. Em homenagem a esse ícone do cinema alternativo, republico uma entrevista que fiz com ele para a revista “Set”, em 1993. Aproveite:

Como uma produtora independente sobrevive numa Hollywood onde o custo de um filme “médio” ultrapassa 15 milhões de dólares? Para entender como isso pode acontecer, leia com atenção esta entrevista com Roger Corman. O pai do cinema B e cérebro por trás de “Emissário de Outro Mundo” (1957) e “A Pequena Loja dos Horrores” (1961) é um dos poucos produtores que conseguiram prosperar em meio à ganância e aos custos exorbitantes do cinema americano.

Corman é dono da Concorde Pictures, uma das produtoras independentes mais rentáveis dos Estados Unidos, com um lucro líquido na casa dos 100 milhões de dólares por ano. Ele gerencia a empresa com a sabedoria e a experiência de quem fez filmes ótimos com orçamento zero, usando muita criatividade para superar a carência de recursos.

Qual o segredo? Primeiro, roteiros simples. Segundo, orçamentos modestos, que nunca passam dos 4 milhões de dólares (comparativamente, um terço do salário de Tom Cruise). E, finalmente, um esquema de distribuição inteligente, que privilegia o mercado de vídeo. Mas não é só. Corman é esperto como uma serpente (no bom sentido). Quando sabe de algum projeto milionário envolvendo um filme de vampiros, por exemplo, imediatamente ordena que sua equipe inicie um projeto semelhante, para faturar com a onda de publicidade que o gênero vai ganhar.

Este ano, Corman bateu o recorde: duas semanas antes do lançamento de “Jurassic Park”, botou no mercado “Carnosaur”, um ótimo filme de dinossauros assassinos com Diane Ladd no papel principal. Lançado em apenas cem salas (“Jurassic Park” entrou em quase três mil telas), “Carnosaur” praticamente já pagou seu custo de 4 milhões de dólares – e ainda nem foi colocado à venda nos mercados de vídeo e TV a cabo, as maiores fontes de renda da Concorde. Aprenda um pouco com a sabedoria de Corman…

Como você consegue não perder dinheiro num mercado tão instável?

Fazemos 24 filmes por ano, a maioria para o mercado de vídeo. Procuramos controlar nossos recursos sem perder a qualidade.

Os cinemas são controlados por grandes cadeias de distribuição, ou seja, um cara possui três, quatro mil cinemas no país. Isso dificulta para vocês, que têm um esquema de lançamento menor que o das grandes empresas?

Não, porque já temos um circuito de cinemas menores que passa nossos filmes. Mas o lançamento em cinemas não é nossa prioridade. Hoje o cinema é somente minha quarta maior fonte de lucro, atrás do vídeo e da venda dos filmes para TV a cabo e TV aberta.

Qual o filme mais rentável que você produziu nos últimos tempos?

Provavelmente será “Carnosaur”. Estreamos três semanas antes de “Jurassic Park” e fomos muito bem. Quando “Jurassic” estreou, nós retiramos “Carnosaur” dos cinemas, só para voltar depois com força e sem a concorrência de Spielberg.

Dá para concorrer com um filme tão poderoso quanto “Jurassic Park”?

Bem, os efeitos especiais de “Jurassic” são imbatíveis, mas até os críticos concordaram que “Carnosaur” tem atores melhores e uma história mais interessante.

Você está pensando em fazer uma sequência?

O que você acha? Com os mesmos bonecos de “Carnosaur” fizemos dois outros filmes, “Dinosaur Island” e “Carnosaur 2” (risos). Achei que era um desperdício usar aqueles bonecos uma vez só e depois jogá-los no lixo.

A ideia de filmar “Carnosaur” aconteceu antes ou depois de você tomar conhecimento de Jurassic Park?

(Com a maior cara-de-pau do mundo) Não, nós tivemos a ideia antes. “Carnosaur” é baseado em um livro que saiu muito antes de “Jurassic Park”. Mas Spielberg e Michael Crichton são pessoas honradas. Eles não iriam roubar nossa ideia!

Existe uma explicação de como e onde Hollywood consegue gastar 40, 50 ou 60 milhões de dólares num único filme?

O problema principal são valores distorcidos. Muita gente está ganhando mais do que merece. A recente supervalorização dos salários dos atores fez com que roteiristas, fotógrafos e toda a equipe técnica passassem a exigir muito mais.

Um exemplo: qual sua opinião sobre pagar 12 milhões de dólares para um ator?

Estou pensando em fazer, no futuro próximo, um filme de uns 3 milhões, pagando metade para algum grande nome de Hollywood e usando a outra metade para nossos gastos. Talvez aconteça.

Soube que você filma na América do Sul, principalmente no Peru e na Argentina, para baratear os custos de produção. Você nunca pensou em filmar no Brasil!?

Filmo na América do Sul porque é muito mais barato. Geralmente mandamos o diretor, o fotógrafo e os atores principais, e completamos a equipe com técnicos e atores locais. Às vezes até uso diretores sul-americanos. Na Argentina, trabalho com Hector Olivera. No Peru, com Lucio Llosa. Adoraria trabalhar no Brasil, mas nunca recebi uma proposta de coprodução. Se algum produtor brasileiro gostar da ideia, pode me ligar que estou muito interessado.

Duelo de Titãs

Se alguém pode produzir um filme de dinossauros tão bom quanto “Jurassic Park” é Roger Corman. SET preparou uma comparação entre as produções. De um lado, Spielberg. Do outro, Corman. Confira:

JURASSIC PARK

Diretor: Steven Spielberg

Sinopse: cientista ambicioso (Richard Attenborough) recria geneticamente dinossauros para montar um parque de diversões paleontológico

Orçamento: 70 milhões de dólares

Duração das filmagens: três meses, mais seis de pós-produção

Violência: branda. Nem uma gota de sangue aparece

Número de pessoas devoradas: cinco

Cena memorável: a luta de um T. Rex com dois Velociraptors

Comentário: efeitos especiais nota 10, atores nota 6 e história nota 7. Média: 7,8. O quê? Você ainda não viu os dinossauros de Spielberg? Corre para o cinema, filho!

CARNOSAUR

Diretor: Adam Simon

Sinopse: cientista maluca (Diane Ladd) cria geneticamente galinhas que põem ovos de dinossauros (é sério!), com a finalidade de destruir a raça humana

Orçamento: 4 milhões de dólares

Duração das filmagens: três semanas

Violência: Varnificina. Contam-se pelo menos vinte cenas com sangue, mutilações e cadáveres

Número de pessoas devoradas: 28

Cena memorável: T. Rex mastiga um grupo de ecologistas vegetarianos

Comentário: efeitos especiais nota 7, Diane Ladd nota 10 e história qualquer nota. Desde “Eles Vivem”, de John Carpenter, não se via um filme tão anos 50. Lembra preciosidades como “Tarântula” e os primeiros “Godzilla”, só que com muito mais ação e efeitos melhores. A cena em que Diane Ladd “choca” um ovo de dinossauro tem lugar garantido na história do cinema.

Um ótimo sábado a todas e todos!

9 comentários em "Do Arquivo: Adeus a Roger Corman"

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