Crítica: “Ascensão e Queda de John Galliano”
A plataforma MUBI exibe “Ascensão e Queda de John Galliano” (2023), documentário dirigido pelo escocês Kevin MacDonald sobre Galliano, um gênio da moda e um dos estilistas mais influentes dos anos 80 e 90, que praticamente arruinou a própria carreira e legado em 2010, ao proferir comentários antissemitas em público, num restaurante em Paris.
O filme merece ser estudado como um exemplo típico do estado atual do cinema de documentário, em que temas mais controversos precisam ser embalados de forma a não ofender ninguém.
O tema central do filme é o lamentável episódio no tal restaurante em Paris. A imagem, vergonhosa, mostra um Galliano claramente alcoolizado, xingando uma mulher e insultando-a com comentários antissemitas. Dali, o filme retrocede para contar a história – essa sim, fascinante – do surgimento de Galliano como a maior força criativa e inovadora da moda dos anos 80.
Nascido em Gibraltar, na Espanha, de um pai encanador, conservador e severo, e uma mãe dona de casa e elegante, John (nome verdadeiro: Juan Carlos) se muda com a família aos seis anos de idade para a cinzenta Inglaterra de meados da década de 1960. O pai não aceita o filho gay e o rechaça. John só encontra conforto cortando e costurando vestidos para a mãe e as duas irmãs.
No início dos anos 80, ganha uma bolsa na escola de arte Saint Martins (aliás, a rede pública de ensino de artes na Inglaterra é responsável por boa parte da música, cinema, pintura e moda que saiu do Reino Unido) e logo se torna um estilista cultuado. Em 1995, torna-se o primeiro inglês a chefiar uma casa francesa de alta costura, quando se torna diretor artístico da GIvenchy e, mais tarde, da Dior (sendo substituído na Givenchy por outro enfant terrible da moda britânica, Alexander McQueen).
Essa primeira parte do documentário é cinema documental de primeira categoria. O diretor Kevin MacDonald, de ótimos docs sobre Whitney Houston e o massacre de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique em 1972, além do bom drama “O Último Rei da Escócia”, com Forest Whitaker, mescla muito bem cenas de arquivo e depoimentos de ícones fashion como Kate Moss, Naomi Campbell, Anna Wintour e os diretores da Dior, para contar como Galliano se tornou o maior nome da moda na década de 1990, quando o mercado de roupa explodiu em todo o mundo e megacorporações dominaram a indústria.
É curioso fazer um paralelo entre o mundo da moda e o da música alternativa e perceber como as indústrias de roupa e disco traçaram caminhos semelhantes nos anos 1990, sendo cooptadas por imensas corporações e criando ídolos que, pouco tempo antes, estavam no underground, como o Nirvana e o próprio Galliano. Os acessórios de fama, drogas e álcool são os mesmos, e Galliano mergulhou fundo em todos, tornando-se um alcoólatra violento, cujas explosões de fúria acompanhavam o crescimento de seu ego colossal.
O período de ouro de Galliano termina basicamente em 2007, quando seu parceiro criativo e sócio, Steven Robinson, morre de overdose de cocaína, aos 38 anos (três anos depois, Alexander McQueen cometeu suicídio, em outra prova do ritmo massacrante de trabalho e pressão da indústria da moda). Galliano entra numa espiral de álcool e drogas que culmina nos ataques antissemitas, e é demitido da Dior.
O terço final do filme é inteiramente dedicado a esse evento, e o que era um documentário ganha ares de “reality show” que poderia se chamar “John Galliano Expiando Sua Culpa”. São uns 40 minutos absolutamente constrangedores, em que o estilista se desculpa, tenta encontrar explicações para seu comportamento e aparece lendo livros sobre o Holocausto e sendo instruído por rabinos para não cometer novamente os mesmos erros.
Enfim, posso dizer que adorei os primeiros 70% de “Ascensão e Queda de John Galliano” e depois perdi completamente o interesse quando o filme virou um programa de TV apelativo. Não é questão de “perdoar” Galliano pelas palavras criminosas que ele proferiu, mas de entender que pessoas cometem erros terríveis e que precisam viver com eles.
Um ótimo dia a todas e todos.
Um comentário em "Crítica: “Ascensão e Queda de John Galliano”"
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A tal cultura do cancelamento não surgiu ontem então… Como tu disse, comentários criminosos, mas… Acabar com a vida do cara por causa de comentários bêbados? Não sei.