abr/2024

Crítica: “Ripley” (Netflix)

Por André Barcinski

Crítica: “Ripley” (Netflix)

Por André Barcinski

Quem tem mais de 30 anos e procura séries para assistir no streaming costuma penar. É muito raro achar algo que fuja dos clichês mais rasteiros das tramas hiper-aceleradas, das câmeras com tremedeira, de roteiros escritos por algoritmos e que só empilham fórmula atrás de fórmula. Por isso, assistir a “Ripley” (Netflix) é um alívio.

Criada, escrita e dirigida por Steven Zaillian, roteirista que trabalhou bastante com Scorsese e ganhou um Oscar por “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, “Ripley” é uma série que foge do habitual. Em primeiro lugar, é fotografada num preto e branco contrastado e granulado, absolutamente mesmerizante, cortesia do craque Robert Elswit, fotógrafo habitual de Paul Thomas Anderson em filmes como “Boogie Nights” e “Magnolia”.  A trama se desenvolve de forma lenta, com tempo para que o espectador conheça bem os personagens e o lugar. E que lugar: grande parte da trama foi rodada na cidadezinha de Positano, no sul da Itália, e na região ao redor de Nápoles, certamente um dos locais mais bonitos do planeta.

“Ripley” se passa no início da década de 1960 e é adaptada do livro “O Talentoso Senhor Ripley”, clássico do romance policial lançado em 1955 pela autora Patricia Highsmith e que revelou o personagem Tom Ripley. Na história, Ripley (vivido pelo ótimo ator irlandês Andrew Scott, da série da BBC “Sherlock”) é um trambiqueiro de quinta categoria que vive em Nova York dando pequenos golpes em idosos, até ser chamado por um magnata do setor de navegação para ir à Itália e convencer o filho dele, Richard (“Dickie”) Greenleaf (Johnny Flynn), um playboy que abandonou a família em Nova York para viver la dolce vita na Itália, a retornar para casa.

Ripley chega à Itália e rapidamente localiza Dickie, um sujeito charmoso, elegante e apreciador de arte (tem um Picasso na sala!). Os dois começam uma amizade, e Ripley se interessa pela namorada de Dickie, Marge Sherwood (Dakota Fanning). Há uma clara distinção social entre Ripley e Dickie, e o primeiro demonstra, sempre de forma velada, um colossal sentimento de inferioridade e raiva classista. É brilhante a forma como o roteiro de Steven Zaillian vai descortinando, pouco a pouco, a mente de Tom Ripley, e como ele percebe a possibilidade de dar o golpe de sua vida.

“Ripley” tem os mesmos tons eróticos/gays do livro de Highsmith e da primeira e melhor adaptação do livro para o cinema, “O Sol Por Testemunha” (1960), dirigido pelo francês René Clément, com Alain Delon no papel de Ripley. Para quem se interessa pela autora, sugiro o documentário “Loving Highsmith”, disponível na plataforma de filmes de arte Filmicca.

Mais que uma série que simplesmente explora a trama de um golpista, “Ripley” permite ao espectador penetrar na cabeça de Tom Ripley, e o que vemos é assustador e sempre surpreendente. “Ripley” tem três ingredientes que eu amo: os anos 60, barcos, e a Itália. É imperdível.

Um ótimo fim de semana a todas e todos!

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