Crítica: “Ripley” (Netflix)
Quem tem mais de 30 anos e procura séries para assistir no streaming costuma penar. É muito raro achar algo que fuja dos clichês mais rasteiros das tramas hiper-aceleradas, das câmeras com tremedeira, de roteiros escritos por algoritmos e que só empilham fórmula atrás de fórmula. Por isso, assistir a “Ripley” (Netflix) é um alívio.
Criada, escrita e dirigida por Steven Zaillian, roteirista que trabalhou bastante com Scorsese e ganhou um Oscar por “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, “Ripley” é uma série que foge do habitual. Em primeiro lugar, é fotografada num preto e branco contrastado e granulado, absolutamente mesmerizante, cortesia do craque Robert Elswit, fotógrafo habitual de Paul Thomas Anderson em filmes como “Boogie Nights” e “Magnolia”. A trama se desenvolve de forma lenta, com tempo para que o espectador conheça bem os personagens e o lugar. E que lugar: grande parte da trama foi rodada na cidadezinha de Positano, no sul da Itália, e na região ao redor de Nápoles, certamente um dos locais mais bonitos do planeta.
“Ripley” se passa no início da década de 1960 e é adaptada do livro “O Talentoso Senhor Ripley”, clássico do romance policial lançado em 1955 pela autora Patricia Highsmith e que revelou o personagem Tom Ripley. Na história, Ripley (vivido pelo ótimo ator irlandês Andrew Scott, da série da BBC “Sherlock”) é um trambiqueiro de quinta categoria que vive em Nova York dando pequenos golpes em idosos, até ser chamado por um magnata do setor de navegação para ir à Itália e convencer o filho dele, Richard (“Dickie”) Greenleaf (Johnny Flynn), um playboy que abandonou a família em Nova York para viver la dolce vita na Itália, a retornar para casa.
Ripley chega à Itália e rapidamente localiza Dickie, um sujeito charmoso, elegante e apreciador de arte (tem um Picasso na sala!). Os dois começam uma amizade, e Ripley se interessa pela namorada de Dickie, Marge Sherwood (Dakota Fanning). Há uma clara distinção social entre Ripley e Dickie, e o primeiro demonstra, sempre de forma velada, um colossal sentimento de inferioridade e raiva classista. É brilhante a forma como o roteiro de Steven Zaillian vai descortinando, pouco a pouco, a mente de Tom Ripley, e como ele percebe a possibilidade de dar o golpe de sua vida.
“Ripley” tem os mesmos tons eróticos/gays do livro de Highsmith e da primeira e melhor adaptação do livro para o cinema, “O Sol Por Testemunha” (1960), dirigido pelo francês René Clément, com Alain Delon no papel de Ripley. Para quem se interessa pela autora, sugiro o documentário “Loving Highsmith”, disponível na plataforma de filmes de arte Filmicca.
Mais que uma série que simplesmente explora a trama de um golpista, “Ripley” permite ao espectador penetrar na cabeça de Tom Ripley, e o que vemos é assustador e sempre surpreendente. “Ripley” tem três ingredientes que eu amo: os anos 60, barcos, e a Itália. É imperdível.
Um ótimo fim de semana a todas e todos!
11 comentários em "Crítica: “Ripley” (Netflix)"
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Barça, tudo bem? Achei a série muito acima da média do que há na Netflix. Fotografia deslumbrante, de fato. Mas, em minha opinião, o roteiro tem falhas sérias. Há várias cenas inverossímeis, como a do inspetor conversando com Ripley “disfarçado”, em Veneza, sem se dar conta disso. E o que falar de pessoas como Tom e Freddie que, sabendo que Ripley é perigoso, ainda assim ficam sozinhas com ele? Há várias situações dessa que, a meu ver, comprometem o roteiro.
Abração!
Que legal que gostou.
Bem melhor q o ripoff de Ripley (Ripley-off? Rs) q fizeram naquele filme Saltburn…
Tem isso?
Sim, eles fizeram um Ripley para a geração Z. O filme não é de todo ruim, tem bons momentos, mas ele se perde no final e nem se compara a essa minissérie. Gostei bastante da atuação da filha/o do sting nesse novo ripley
André, tu gostou do filme com o Matt Damon, “O Talentoso Ripley”?
O do Minghella, né? Lembro que gostei na época, mas não vejo desde então.
André, gostar do Ripley é moleza, quero ver você, por obrigação profissional ou não, ter que assistir Evidências do amor e escrever sobre ele kkkkkk
Felizmente, nem sei o que é isso. Vou pesquisar!
Vi o terceiro, e incrível, episódio ontem. Acho que vi todos as adaptações do personagem, tirando uma com o Barry Pepper. Gostei de todas. O do Minghella é ótima mesmo mudando a personalidade do personagem, tornando-o trágico. A do Wim Wenders também é muito boa.
O quinto é um assombro. Nível Hitchcock.