abr/2024

Uma obra-prima do cinema chega ao streaming

Por André Barcinski

Uma obra-prima do cinema chega ao streaming

Por André Barcinski

Grande dica da nossa assinante Willana: entrou no catálogo da Prime Video “O Mensageiro do Diabo” (“Night of the Hunter”), dirigido em 1955 pelo ator Charles Laughton.

Dizer que esse filme é um clássico não basta. É um dos grandes filmes da história do cinema, uma obra-prima irretocável que incorporou elementos anteriores à produção (Expressionismo Alemão, filmes de terror da Universal dos anos 1930) e influenciou todo o cinema fantástico e de suspense que veio depois, de “O Exorcista” a “Eraserhead”.

“O Mensageiro do Diabo” foi o único filme dirigido pelo grande ator Charles Laughton (1899-1962), e o fracasso comercial da produção aniquilou sua nascente carreira de cineasta. Ele morreria deprimido por não ver o filme ser saudado como a joia que era (em 21 de maio, faremos uma “Sessão Cinemateca” sobre esse filme e poderemos falar mais sobre a obra de Charles Laughton).

A história foi adaptada do romance “The Night of the Hunter”, lançado em 1953 por Davis Grubb, um imenso sucesso comercial nos Estados Unidos. Conta a história de um pastor assassino serial (no livro, ele se finge de pastor), interpretado por Robert Mitchum, que se casa com uma viúva (a sensacional Shelley Winters) para se apropriar de uma fortuna que o falecido marido da mulher havia roubado de um banco. Por razões que não vou explicar para não estragar a surpresa, o pastor psicopata acaba perseguindo os dois filhos pequenos da viúva por paisagens lúgubres e misteriosas do sul dos Estados Unidos, como rios e florestas.

Meio “thriller” de suspense, meio conto de fadas, “O Mensageiro do Diabo” é “a” obra do Suspense Gótico Sulista e vem embasbacando cinéfilos há quase 80 anos, com sua fotografia Expressionista, cortesia do grande Stanley Cortez, que havia trabalhado com Orson Welles em “Soberba” e faria “Shock Corridor”, com Samuel Fuller, e sua trama ágil e cheia de reviravoltas, roteirizada pelo crítico de cinema James Agee, que havia escrito, entre outros, o roteiro de “Uma Aventura na África”, de John Huston.

Há relatos de que Charles Laughton reescreveu boa parte do roteiro de Agee, que tinha sérios problemas com bebida e morreria, de ataque do coração, dois meses antes da estreia do filme. Para quem se interessar, vale a pena explorar a carreira e os escritos de James Agee. Seus artigos sobre cinema são preciosos, com destaque para um texto do fim dos anos 1940 sobre cineastas do cinema mudo que praticamente ressuscitou o interesse do público por Buster Keaton, que estava completamente esquecido.  

Lançado em julho de 1955, “O Mensageiro do Diabo” recebeu críticas positivas, mas não foi o estouro que Laughton e o estúdio United Artists esperavam. Laughton nunca se recuperou do baque. Ele ainda atuaria em ótimos filmes, como “Testemunha de Acusação”, de Billy Wilder, e “Spartacus”, de Stanley Kubrick, mas morreria em 1962, sem dirigir outro filme.

Desde então, “O Mensageiro do Diabo” ganhou status de cult. William Friedkin imitou uma clássica cena do filme no cartaz de “O Exorcista” (1973), e Spike Lee, em “Faça a Coisa Certa” (1989), criou um personagem, Radio Raheem (vivido pelo saudoso Bill Nunn) que anda pelo bairro tocando “Fight the Power”, do Public Enemy, a todo volume num boombox e exibindo seus gigantescos anéis, um em cada mão, o primeiro com a palavra “Love” (“Amor”) e o segundo, com a palavra “Hate” (“Ódio”), numa óbvia homenagem ao personagem de Robert Mithcum, que tem essas palavras tatuadas em cada uma das mãos.

Um ótimo dia a todas e todos!

11 comentários em "Uma obra-prima do cinema chega ao streaming"

  • Excelente dica. Nunca tinha visto até ontem. Vi e adorei.
    Cenas lindas que se fossem coloridas não chegariam nem perto.
    Todo mundo cita a cena do carro no lago (que é realmente inicrivel) mas eu fiquei encantado pelas cenas das crianças no rio e especialmente quando elas dormen no celeiro.

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    Cleibsom Carlos Alves Cabral

    Um dos melhores filmes de todos os tempos!!!

    Dentro da estrutura rígida, convencional e sem nuances do bem contra o mal de um filme de entretenimento, que já sabemos como acaba, LAUGHTON ofereceu um biscoito fino, inventivo e com diversas referências ao grande público…Pena que este público virou as costas para o filme, obviamente! Não por sua inventividade, mas sim pelo filme escancarar as artimanhas de um pastor pilantra e canalha, algo por demais ofensivo em um país tão religioso quanto os EUA.

    De certa forma O MENSAGEIRO DO DIABO antecipa em décadas o triste momento, de pastores ou padres da pior estirpe que se beneficiam da fé alheia para enriquecerem e influenciarem a comunidade em que vivem, que estamos vivendo hoje.

    É, CHARLES LAUGHTON, seu filme é uma obra-prima inquestionável, mas você pensar que ele faria sucesso de público foi de uma ingenuidade imensa…

  • Filmaço maravilhoso! Vi quando tu escreveu sobre ele há algum tempo atrás… Mitchum está assustador e o filme tem um clima claustrofóbico/ tenso incrível (nunca vou me esquecer da cena do carro no fundo do lago).
    Vou rever o quanto antes!

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    Fabio Andrusyszyn

    Ótima dica, André. Aproveitando: entrou no Mubi “A Comilança”, e eu tenho lembrança de vc ter escrito sobre esse filme há bastante tempo, mas fuçei na Internet e nada achei. Vc lembra de ter escrito sobre ele? Se sim, tem esse texto disponível?
    Obrigado.

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