abr/2024

The Jesus and Mary Chain vive!

Por André Barcinski

The Jesus and Mary Chain vive!

Por André Barcinski

Muitas bandas dos anos 80 e 90 que permanecem na ativa parecem fazer discos apenas para ter uma desculpa para excursionar. Os caras gravam material novo, mas, nos shows, o que o público quer ouvir são as músicas velhas, e as novidades são a desculpa perfeita para aquele pitstop no banheiro ou no bar.

Felizmente, não é o caso do The Jesus and Mary Chain.

Os irmãos Reid têm 40 anos de carreira no JAMC e só lançaram oito LPs. Passaram quase metade desse tempo sem gravar – entre “Munki” (1998) e “Damage and Joy” (2017) – depois que saíram no braço várias vezes no palco durante a tour de 1998 (uma delas, presenciada por mim, em Nova York), e agora retornam com um novo disco de estúdio, “Glasgow Eyes”. Desculpa para uma nova turnê?

Às primeiras audições, não parece ser o caso. Se não é possível cravar que o novo disco vai ser lembrado, daqui a 50 anos, como um dos grandes momentos dos escoceses, fica claro que é uma ótima coleção de canções naquele velho estilo Velvet Underground + Beach Boys que os Reid inventaram desde “Psychocandy”, em 1984.

É difícil para uma banda cujos quatro primeiros discos são obras-primas – além de “Psychocandy”, temos “Darklands” (1987), “Automatic” (1989) e “Honey’s Dead” (1992) – manter o pique. Mas não dá para ouvir faixas como “Venal Joy”, com participação da cantora Fay Fife, da banda punk-pop The Rezillos, ou “Mediterranean X Film”, que é a cara de uma banda muito influenciada pelo JAMC, o Sonic Youth, sem sorrir.

A verdade é que os Reid inventaram um tipo de som que é só deles. Esse som foi copiado infinitas vezes depois, pelo shoegaze, dream pop, pelo gótico e por bandas como Pixies e Mogwai (aliás, o novo disco foi gravado nos estúdios do Mogwai, em Glasgow), mas a origem está lá, nas guitarras abrasivas pero fofas (dá pra entender?) e viajandonas de “Psychocandy”, nos vocais sussurrados, no clima “Feliz Quando Chove” de todo disco dos irmãos.

E aí, do nada, os caras tiram da cartola uma faixa como “jamcod” (abreviação de “Jesus and Mary Chain Overdose”), basicamente um resumo do que é viver por 40 anos numa banda prestes a explodir a qualquer momento, com irmãos que realmente não se suportam, e temos uma das maiores músicas do grupo em 40 anos. Quer entender o som do Jesus? Tá tudo aqui.

“jamcod” é tão fantástica que a gente até perdoa besteiras divertidas e inconsequentes como “The Eagles and the Beatles”, narrativa autobiográfica sobre as influências musicas da dupla, que cita Beatles, Eagles, Stones, Beach Boys, The Crystals, Dylan e Faces, ou “Girl 71”, com seu riff chupado de – acredite – “Livin’ After Midnight”, do Judas Priest, ou ainda a engraçada “Hey Lou Reid”, com uma letra que mistura Lou Reed e os Reid.

Como tudo que William e Jim Reid fazem, “Glasgow Eyes” é um trabalho muito pessoal e idiossincrático. Eles sempre gravaram o que quiseram e da maneira que quiseram, e os discos refletem suas alegrias (raras) e turbulências (muitas). “Glasgow Eyes” é uma radiografia dos irmãos em 2024. Que os dois mantenham esse pique e não demorem tanto a lançar outro disco.

Uma ótima semana a todas e todos.

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