mar/2024

Há 50 anos, Mel Brooks revolucionou a comédia

Por André Barcinski

Há 50 anos, Mel Brooks revolucionou a comédia

Por André Barcinski

Mil novecentos e setenta e quatro foi um ano glorioso para o cinema, em especial para a comédia. Naquele ano, foi lançado “Banzé no Oeste” (“Blazing Saddles”), de Mel Brooks, um filme revolucionário na forma e conteúdo, paródia ao cinema de faroeste que usava uma linguagem totalmente nova e experimental, com uso de metalinguagem (filme dentro do filme), quebra de quarta parede (personagens falavam com o público), e um tema radical: o racismo no cinema de bangue-bangue.

O filme se passa em 1874 e conta a história de um homem negro, Bart (Cleavon Little), que está preso e prestes a ser executado quando, por uma bizarra manobra do destino, vira xerife de uma cidade inteiramente branca e racista do Velho Oeste.

O próprio Mel Brooks faz três papeis, incluindo o idiota governador William J. Le Petomane, e membros habituais da trupe de Brooks também participam, como Gene Wilder no papel do pistoleiro bêbado Jim “The Waco” Kid, e Madeline Kahn como a sensual Lili Von Shtupp. O papel do xerife negro foi oferecido a Richard Pryor, mas a distribuidora do filme, a Warner, não topou por causa dos problemas do ator com drogas e álcool. Mel Brooks chegou a convidar John Wayne para atuar no filme, o que teria sido antológico. Wayne recusou o papel, mas disse que seria o primeiro a comprar ingresso para assisti-lo.

O que se segue é, certamente, um dos roteiros mais ousados e criativos da história do cinema de comédia, escrito a dez mãos por Mel Brooks e por um timaço que incluía o próprio Richard Pryor e o roteirista Andrew Bergman, este autor da ideia original.

Em 1974, Mel Brooks já era um comediante consagrado na TV americana, entre outros feitos, pela criação – com Buck Henry – do seriado “Agente 86”, mas só havia dirigido dois longas-metragens para o cinema. O primeiro, “Primavera para Hitler” (1968) sacudiu Hollywood com a história estrambólica de dois produtores de teatro picaretas que tentam um engenhoso golpe de seguro, montando a pior peça de teatro de todos os tempos, um ridículo musical sobre Adolf Hitler, só para ver a peça se tornar o maior sucesso da temporada.

“Primavera para Hitler” era tão radical e diferente que nenhum grande estúdio quis lançá-lo. Mas quem captou o espírito anárquico do filme caiu de amores por ele (um foi o comediante Peter Sellers, que ficou tão louco com a genialidade de Brooks que pagou, do próprio bolso, anúncios em jornais, conclamando o público a ver o filme). Deu resultado: lançado em cinemas de arte, “Primavera para Hitler” foi um estouro de bilheteria.

Mas nada prepararia Hollywood para o que Brooks faria em “Banzé no Oeste”. Ele pegou todos os clichês do western – duelos de pistolas em cidades poeirentas, canções em volta da fogueira, as tensões entre brancos e indígenas – e simplesmente eviscerou o gênero do faroeste, esculhambando, uma a uma, todas as fórmulas do gênero. O final do filme – não vou dar spoiler – é o momento sublime da carreira de Mel Brooks, um dos grandes gênios do humor.

É impossível ver “Banzé no Oeste” e não perceber como ele influenciou comédias que viriam depois, como “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” e “Corra Que a Polícia Vem Aí”, com suas impiedosas avacalhações com gêneros cinematográficos como o filme-catástrofe e os thrillers policiais. Pensar que no mesmo ano, 1974, Mel Brooks ainda teria tempo e inspiração para fazer outra comédia clássica, “O Jovem Frankenstein”, é simplesmente assombroso. Foram duas obras-primas lançadas em dez meses.

“Banzé no Oeste” está disponível para locação no Youtube Filmes, Amazon Prime e Apple TV.

Uma ótima semana a todas e todos.

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