Gostou de “Zona de Interesse”? Tente “Sob a Pele”
Ainda impactado por “Zona de Interesse”, gostaria de recomendar outro filme igualmente genial de Jonathan Glazer, e que está no catálogo do Max (conhecido, até outro dia, por HBO Max): é “Sob a Pele”.
Jonathan Glazer é britânico, tem 58 anos e dirigiu apenas quatro longas-metragens para cinema, mas já pode ser considerado um diretor com um estilo próprio. Seus filmes têm características estéticas e temáticas bem marcantes: os personagens são, quase sempre, pessoas lidando com a própria solidão ou que vivem isoladas do mundo “normal”.
Os filmes de Glazer têm forte impacto visual, frequentemente usando sequências lúdicas que fogem da narrativa convencional de um filme dramático. Talvez isso venha da experiência dele como diretor de videoclipes para bandas de rock como Radiohead, Massive Attack, Blur e Nick Cave and the Bad Seeds. Num videoclipe, a mensagem precisa ser passada em três ou quatro minutos, e as imagens ressaltam o teor dramático da canção.
Dos quatro longas de Glazer, pelo menos três são extraordinários: sua estreia, “Sexy Beast” (2001), é um inventivo filme de gângster, considerado por muitos como um dos melhores “thrillers” policiais já rodados por um inglês. Uma produção baratíssima (custou pouco mais de 4 milhões de dólares, o que hoje não deve pagar nem o cabeleireiro da Zendaya), rendeu a Ben Kingsley uma indicação ao Oscar de melhor ator. Infelizmente, não está em nenhuma plataforma de streaming, mas pode ser baixado nos torrents da vida.
Glazer derrapou em “Reencarnação” (2004), um malfadado “thriller” de terror psicológico estrelado por Nicola Kidman, mas se recuperou agora com “Zona de Interesse”, uma das produções mais ousadas e experimentais do cinema comercial nos últimos anos e que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro (leia aqui meu texto sobre o filme).
Se você gostou de “Zona de Interesse”, sugiro assistir a outra obra de Glazer: “Sob a Pele” (2013). Pouquíssima gente viu o filme, que foi um fracasso comercial, faturando pouco mais da metade de seu minúsculo orçamento (13 milhões de dólares, uma ninharia para padrões atuais), mas vários críticos o elegeram o melhor filme daquele ano e ele ficou em 61º na lista da BBC de melhores filmes do século 20. Merecidamente.
“Sob a Pele” é uma estranhíssima história sobre uma mulher misteriosa, um ser alienígena (a deslumbrante Scarlett Johansson) que atrai homens para encontros amorosos, só para usá-los para fins que desconhecemos. Parece esquisito, e é mesmo. Também é um filme inesquecível e que levanta uma série de questões sobre a solidão e a busca pelo amor.
“Sob a Pele” marcou a primeira colaboração em filme de Glazer com a compositora e produtora inglesa Mica Levi, também conhecida por Micachu. Formada em música clássica, Levi teve bandas de rock experimental e agora se dedica a trilhas sonoras, basicamente compostas de texturas eletrônicas minimalistas. A de “Sob a Pele” é marcante e realça o aspecto enigmático da história. A trilha de “Zona de Interesse” certamente teve uma importância pessoal para Levi, já que o pai, também músico, é um respeitado pesquisador musical e especialista em música do Terceiro Reich.
Trechos desse texto foram publicados na “Gazeta do Povo”. Um ótimo fim de semana a todas e todos!
8 comentários em "Gostou de “Zona de Interesse”? Tente “Sob a Pele”"
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Achei chatérrimo, com exceção da cena da praia, que é assustadora. E a Scarlet pode ser linda, mas é péssima atriz.
É UM filme lindamente estranho. tem aquela cena da praia que achei particularmente perturbadora.
Vou ver esse final de semana, sem falta!
Tesão de filme.
Sensacional e na minha opinião melhor que “Zona de interesse “
!Acredito que por deixar um série de perguntas sem respostas, ser tão denso e misterioso não fez sucesso! Hoje o grande público do cinema quer tudo muito bem entendido e explicado ….
Adoro esse filme, toda vez que reassisto me surpreendo.
Este filme é muito bom, bem melhor do que ZONA DE INTERESSE, inclusive. Como o filme mais experimental de GLAZER, a definição mais educada que o mainstream encontrará para ele é “esquisito”. Tá certo que aqui foi podado todo o conteúdo político, pesado e sem metáforas do livro de MICHEL FABER em que o filme foi baseado, e que explica a missão da personagem da SCARLETT na Terra, mas isso não afeta em nada SOB A PELE.
A grande maldição desse filme é que ele foi lançado no meio da enxurrada de filmes da Marvel com a Scarlett Johansson. Portanto, a história densa, misteriosa e original de Sob a Pele não atraiu a atenção dos “nerdolas” fãs da Viúva Negra.