É o fim: chegou o Coachella do punk
A produtora californiana Goldenvoice anunciou esses dias a realização do festival No Values, um megaevento de punk rock que reunirá, em um único dia (8 de junho), mais de 40 bandas punks, de nomes clássicos a novatos, no Pomona Fairplex, um imenso complexo de entretenimento que inclui parque de diversões, museu e até uma pista de corrida de carros.
Estão escalados nomes como Misfits, Iggy Pop, Social Distortion, Bad Religion, Turstile, Sublime, TSOL, Fear, Vandals, Black Flag, The Damned, L7, The Dickies, Agent Orange e muito mais. São quarenta e tantas bandas divididas em quatro palcos. Tem até o Jello Biafra atacando de DJ. O lugar abre às 11 da manhã e fecha às 11 da noite. Até a conclusão desse texto, a organização não divulgou os horários dos shows.
Parece incrível, não? Uma verdadeira Disneylândia punk, com as melhores e mais importantes bandas do mundo reunidas num só dia e no mesmo lugar. Mas vamos com calma…

Façamos um cálculo rápido: 40 bandas em quatro palcos, dez bandas em cada palco. Se você contar 20 a 30 minutos de troca de palco entre cada banda, tempo normal de um show, restam um total de sete horas de show para dez artistas, considerando que a primeira banda entre exatamente às 11 da manhã (mas não deve ser o caso, já que esse é o horário de abertura do complexo). E, se um evento tem quatro palcos, significa que o público já perderá, de cara, 75% das atrações. No fim das contas, seu ingresso servirá para ver dez bandas tocando, em média, por 35 a 40 minutos.
Isso não parece ter diminuído a atratividade do evento, que já tem os ingressos mais baratos (200 dólares + taxas) esgotados. Só restam agora ingressos VIP, que custam, com taxas, entre 277 e 477 dólares.
O No Values é mais uma etapa em um plano muito engenhoso da Goldenvoice para dominar um mercado cada vez mais atraente para essas megacorporações do entretenimento: o megafestival. A Goldenvoice surgiu no início dos anos 80, promovendo shows de punk na Califórnia. Hoje, é dona do Coachella.
Nos últimos anos, a Goldenvoice vem criando uma série de grandes eventos, quase todos realizados na Califórnia e cada um focado em um nicho específico da música:
Stagecoach – música country
Cruel World – gótico e anos 80
Palomino – country alternativo
Portola – música eletrônica
Just Like Heaven – indie rock
Power Trip – Hard rock e metal para público 60+
This Ain’t no Picnic – indie e eletrônico
Cali Vibes – som “Californiano”
Lovers and Friends – hip hop, black, soul music
Head in the Clouds – pop asiático-americano
O esquema dos shows é basicamente o mesmo: um monte de ótimos artistas empilhados em vários palcos, em algum lugar imenso (estádio de futebol, parque de diversões), com ingressos caros e um clima de “chance única” de ver todos esses grandes nomes num dia só. E tudo nichado, claro, para dar aquele ar bacana de “exclusividade”. A fórmula é perfeita: há eventos para todos os gostos e idades.
O triste é perceber que o público e as bandas embarcam nessa enganação. Esses megaeventos são perniciosos para as cenas alternativas, porque inflacionam os cachês e aniquilam a concorrência. E dá mais tristeza ainda perceber que nem a cena punk, surgida no espírito individualista e niilista do “Faça você mesmo”, foi cooptada e se presta a isso.
Um ótimo fim de semana a todas e todos.
18 comentários em "É o fim: chegou o Coachella do punk"
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Nessas horas eu penso logo no nosso amigo Jandy, embora discorde de muita coisa que ele pregue.
Nesse show o Iggy Pop vai aludir ao repertório de seu disco mais recente, “Every Loser”, para contrapor vida real com vitrine de shopping center no mundo vigiado.
As bandas precisam sobreviver, André… se o cachê for astronômico nesse caso, bom pra eles, desde que tenham os pés no chão pra não deixarem subir pra cabeça e acharem que vão receber fortunas por qualquer show.
Um OT: viu a pataquada do Oscar ontem? Achei que iam embalsamar o Downey, e a Emma Stone é piada.
Cara, nem vi o Oscar, dormi antes.
Tá ficando velho…
tá ficando sábio
André, você não acha que esse tipo de festival é um fenômeno dos EUA? Muitas dessas bandas estão na ativa ou fazem turnê esporadicamente e na europa tem muitos festivais em melhor formato, menos mainstream e mesclando esses nomes com 40 anos de carreira com bandas novas. Sem entrar no merito de ser ou não “punk”, mas não faz muito sentido nem esse festival existir. E é muito louco ver Jello Biafra e Crass envolvido nesse tipo de coisa, dese ser muita grana!
Tenho certeza que não. No Brasil já rolam vários, tem o I Wanna Be, que é só emo, o Summer Breeze, de metal, e está chagando a Vans Warped Tour.
Sei como é. Olha Barça, um que me surpreendeu foi o Primavera Sound do ano passado! Fui no domingo, assisti Beck, Bad Religion e pra fechar com chave de ouro o THE CURE! Sem percalços de horários. Foi muito legal e me deu uma esperança de festivais bons. Inclusive no Brasil!
Se esse festival fosse em 7 dias dava até para aceitar. Como você disse uma vez, festival nos dias de hoje está sendo feito pra quem não gosta de música.
Sim, dividido em alguns dias seria um barato.
cauda longa, só que não
Isso aí foi um engodo.
André, fiquei pensando no que seria o “Som Californiano”? Você teria algum exemplo até para eu me localizar?
No caso do Brasil, eventos como o Villa Mix (sertanejo) e o Afropunk (música urbana negra) não seriam exemplos de eventos nichados, como é o No Values e seus coleguinhas????
Acho que que é tipo Jack Johnson, esses pseudosurfistas…
Sinceramente não me surpreende em nada essa cooptação do punk aos grandes festivais e ao mercado em geral. Quando surgiu o punk e também na cena hardcore, prevalecia sim o faça você mesmo com espírito de vanguarda e independência. Mas já a muito tempo e com raras exceções os artistas do punk e hip hop no Brasil e no mundo estão agindo dentro das regras do mercado , inclusive politicamente também. Fazem jogo de cena com palestrinha de alternativos, socialistas, comunistas e defendendo partidos políticos mas jogam e se lambuzam com o que o capitalismo lhes oferece! O artista deve fazer o que bem entender mas essa hipocrisia é um saco.
Concordo inteiramente. Tem rapper “consciente” fazendo anúncio de banco!
Pra ficar perfeito só faltou uma reunião caça-níquel dos Sex Pistols. André, será que um dia o público enjoará dessa fórmula de mega festivais?
Espero que sim, mas acho que não. Manada impera.