fev/2024

Adeus a Wayne Kramer

Por André Barcinski

Adeus a Wayne Kramer

Por André Barcinski

“Se você vai a São Francisco / não deixe de usar flores em seu cabelo / se você vai a São Francisco / encontrará pessoas gentis por lá”, cantava Scott Mckenzie no megassucesso “San Francisco (Be Sure to Wear Flowers in Your Hair)”. Composta por John Phillips, do grupo The Mamas & The Papas, e lançada em 1967, a música virou uma espécie de hino do movimento hippie e inspirou milhares de jovens a ir para a Califórnia em busca da utopia de paz e amor.

Do outro lado dos Estados Unidos, no entanto, 1967 não cheirava a patchouli, mas a fumaça e gás lacrimogêneo. No estado de Michigan, jovens não tinham tempo para tocar violão em comunas, porque estavam trabalhando em fábricas de automóveis ou apanhando da polícia em manifestações estudantis.

Duas das maiores e mais importantes bandas da história do rock surgiram por ali: em acampamentos de trailers “white trash” de Ann Arbor, surgiu The Stooges, liderada por James Osterberg, mais conhecido por Iggy Pop. Em Lincoln Park, apareceu o MC5, um grupo de delinquentes politizados que faziam uma música de protesto de alta combustão, com letras que confrontavam o governo e autoridades em geral.

Formado por Rob Tyner (vocais), Fred “Sonic” Smith (guitarra, depois marido de Patti Smith), Michael Davis (baixo), Dennis Thompson (bateria) e Wayne Kramer (guitarra), o MC5 – ou “Motor City Five”, em tributo a Detroit, terra das fábricas de automóveis – lançou três discos entre 1968 e 1972, antes de acabar por problemas com heroína, cocaína e a polícia, além de ter seu empresário, o poeta e ativista John Sinclair, preso por vender duas pontas de maconha a uma policial à paisana e condenado a absurdos dez anos de prisão (John e Yoko gravaram uma música em homenagem a ele).

Durante quatro ou cinco anos, o MC5 foi a trilha sonora da contracultura radical. John Sinclair tinha um slogan: “Drogas, armas e sexo nas ruas”, e a banda se tornou a porta-voz de todos os movimentos libertários do período, de protestos contra a Guerra do Vietnã ao sangrento confronto com a polícia de Chicago em 1968, durante a Convenção do Partido Democrata.

Veja o MC5 ao vivo em 1970:

Depois da fragmentação da banda, o guitarrista Wayne Kramer penou. “Assim que o MC5 acabou, eu me tornei um criminoso”, admitiria depois. Viciado em cocaína, passou a vender a droga e, em 1975, foi preso e condenado a quatro anos de prisão. Na cadeia, conheceu Red Rodney, um trompetista de jazz que havia tocado no quinteto de Charlie Parker. Rodney se tornou um mentor musical para Kramer e o aplicou no free jazz.

Assim que saiu da prisão, Kramer tratou de pôr a vida em ordem: lançou discos, produziu bandas e, no início dos anos 1990, reformou o MC5, agora sem o vocalista Rob Tyner, que morreu de um ataque do coração. Três anos depois, foi a vez do guitarrista Fred “Sonic” Smith morrer, também por problemas cardíacos.

Tive a felicidade de ajudar a trazer o MC5 – chamado, à época, por razões judiciais, de DKT-MC5, iniciais dos três membros remanescentes, Davis, Kramer e Thompson – para um show em São Paulo, em 2005. A banda era complementada pelo exímio guitarrista Marshall Crenshaw e por Mark Arm, vocalista do Mudhoney. Foi o primeiro e único show do MC5 no Brasil e um de meus momentos mais felizes. Veja aqui um trecho do show e de uma entrevista da banda a Fabio Massari e Kid Vinil:

Esses dias, estava pensando em Wayne. Eu tinha acabado de ler uma entrevista dele na revista “Mojo” de fevereiro, anunciando um disco inédito do MC5, o primeiro desde “High Time”, de 1971, que terá participações de Tom Morello, Slash, Vernon Reid e Don Was. Sonhava em trazer esse show para o Brasil e ter a chance de passar novamente uns dias com ele e a adorável esposa, Margaret.

Na sexta, 2 de fevereiro, Wayne morreu de um câncer no pâncreas. Tinha 75 anos. A notícia foi devastadora e inesperada. Era um cavalheiro, um artista de princípios inabaláveis e que tentou, à sua maneira, melhorar o mundo. Com a esposa, criou uma organização que promovia educação musical em presídios. Tocou para detentos e arrecadou grana para a causa. Morreu como viveu a vida toda: enfrentando um sistema que julgava injusto.

Uma ótima semana a todas e todos.

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