fev/2024

Crítica: “A Noite Que Mudou o Pop”

Por André Barcinski

Crítica: “A Noite Que Mudou o Pop”

Por André Barcinski

Se você curte música, é impossível não se divertir com “A Noite Que Mudou o Pop”, documentário da Netflix sobre a gravação da faixa “We Are the World”. Gravada em janeiro de 1985, a canção arrecadou fundos para campanhas de combate à fome na África e reuniu uma das maiores constelações de astros já vistos cantando juntos: Michael Jackson, Stevie Wonder, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Tina Turner, Diana Ross, Lionel Richie, Paul Simon, Kenny Rogers, Willie Nelson, Hall & Oates, Smokey Robinson, Cindy Lauper, Al Jarreau, Steve Perry, Huey Lewis, Kenny Loggins, Kim Carnes e muitos outros.

A história começa quando o cantor e ativista negro Harry Belafonte ouve, no fim de 1984, a música beneficente “Do They Know It’s Christmas?”, feita pelo irlandês Bob Gelfod (Boomtown Rats) e o escocês Midge Ure (Ultravox) e gravada por ídolos do pop britânico como Bono, Sting, Boy George, Paul Weller e membros do Duran Duran, Spandau Ballet e Status Quo. Impressionado com a quantia arrecadada pelo compacto, Belafonte liga para seu empresário, o poderoso Ken Kragen: “Ken, você viu que artistas brancos estão salvando vidas negras? Quando é que artistas negros vão salvar vidas negras?”

Kragen convoca um de seus clientes, o cantor e compositor Lionel Richie, para comandar o projeto de gravação de uma música que deveria contar com os maiores astros da cena norte-americana do período. Lionel chama o produtor e arranjador Quincy Jones para liderar a gravação. Com um telefonema, Quincy convence Michael Jackson a compor a canção junto com Lionel Richie.

Kragen e sua equipe começam a ligar para os maiores nomes do rock, pop, soul e country, convidando-os para o projeto, que ainda não tinha nome e muito menos música. E a oportunidade de reunir tanta gente famosa numa mesma noite surge quando Lionel Richie é convidado para ser o mestre de cerimônias do American Music Awards, uma das maiores premiações da música norte-americana. A única chance de ter todos aqueles astros no mesmo local – no caso, Los Angeles – seria na noite de 28 de janeiro de 1985, logo após a cerimônia.

“A Noite Que Mudou o Pop” é o registro daquela noite no estúdio da A&M. Uma madrugada caótica, tensa e, por fim, histórica. Todo mundo já viu o videoclipe, mas as cenas de bastidores são pedras preciosas: Bob Dylan ao lado de Michael Jackson. Ray Charles batendo papo com Smokey Robinson. Stevie Wonder tocando piano para acompanhar Dylan e contando piadas para todo mundo. Cindy Lauper levando um pito de Quincy Jones porque o chacoalhar de suas pulseiras e colares estava atrapalhando a gravação. Dionne Warwick reclamando dos fones de ouvido. Al Jarreau, depois de tomar uns vinhos, errando a letra. Waylon Jennings abandonando o estúdio, irritado com a demora e com a insistência de Stevie Wonder em cantar o refrão da música em swahili. Enfim, um manancial imenso de imagens absolutamente inesquecíveis.

Para mim, algumas foram marcantes demais, como ver Quincy Jones comandando o processo de gravação dos solos, colocando uma voz após a outra para conseguir a fluência melódica ideal, ou descobrir que Quincy mandou retirar todo mundo do estúdio – até Ray Charles! – para que Dylan pudesse gravar sua parte (exceção para Stevie Wonder, que tocou piano, e Lionel Richie). Outra cena linda não é mostrada, mas contada por um técnico: Diana Ross, já de manhã, chorando ao ver todos aqueles grandes artistas indo embora: “Eu não queria que isso acabasse nunca!”. Foi mais ou menos a minha sensação ao final do filme.

P.S.: No fim de fevereiro, farei um debate sobre “A Noite Que Mudou o Pop” com o produtor musical Dudu Marote. Mais infos em breve.

Uma ótima semana a todas e todos!

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